Mariana Abrunheiro canta Carlos Paredes e celebra a sua “postura na arte e na vida”

Num livro-disco singular, a cantora e actriz celebra a música de Carlos Paredes em parceria com vários olhares contemporâneos.

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Mariana Abrunheiro fotografada para a capa do disco Mário Príncipe

Há uma célebre fotografia de Carlos Paredes, tirada pelo fotógrafo francês Serge Cohen, onde ele, de pés imersos nas águas do mar, segura nos braços um molho de cravos. A capa do disco Cantar Paredes, de Mariana Abrunheiro, glosa essa forte imagem. Mário Príncipe fotografou-a vestida de preto, como Paredes, abraçando os cravos num gesto introspectivo. “É uma homenagem”, diz ela, “à sua postura na arte e na vida. Eu assumo ter os cravos nos braços porque prezo muito a liberdade, apesar de ter nascido depois do 25 de Abril.”

Cantora e actriz, nascida em Coimbra em 20 de Março de 1978, Mariana Abrunheiro fala deste seu novo trabalho discográfico com um prazer evidente. Pela arte maior de Paredes, mas também pelo trabalho colectivo com os muitos músicos e autores que deram forma a Cantar Paredes, disco-livro com canções, textos e fotografias. E é um projecto antigo, contemporâneo à estreia de Mariana Canta Marias, espectáculo que rodou em palcos nacionais e internacionais desde 2005, em parceria com o pianista Ruben Alves, e que deu depois lugar a um disco gravado ao vivo, acessível no seu site. “Esse trabalho é, de alguma forma, uma homenagem à humanidade, porque também há homens chamados Maria. Mas celebra sobretudo a capacidade que os compositores têm de fazer canções dedicadas a alguém. Isto é, as pessoas são por si matéria inspiradora para fazer arte.”

Paredes porquê? “Ele faz parte da minha banda sonora diária, e era muito natural eu cantar as melodias. Aqui algumas das músicas ficaram com um tratamento mais erudito, outras mais tradicional, outras mais jazzístico.” Os oito temas de Paredes, alguns com letras (de Pedro Tamen, Ary dos Santos, Pedro Ayres Magalhães) e outros com vocalizos, remetem-nos quase para um ambiente de câmara, mas efusivo. “O Verdes Anos, por exemplo, é inspirado no Summertime. Por isso eu chamei o Pedro Carneiro para fazer o vibrafone, de modo a remeter-nos para os clubes de jazz, e a marimba dá-nos os verdes anos de agora.”

Sede e morte, a abrir o disco, tem Carlos Bica no contrabaixo — além de Ruben Alves, cujo piano, a par da voz de Mariana, surge em todas as faixas. E Mudar de Vida tem Artur Fernandes (Danças Ocultas) na concertina. “Eu gostava mesmo que nós reflectíssemos como é esta consciência do real quotidiano. Daí as referências mais graves na tessitura vocal, um lado mais preso ao chão. Mas sempre com esse optimismo e essa ternura de desejar um ideal melhor.”

Fado moliceiro conta com Jaques Morelenbaum, violoncelista brasileiro que Mariana conheceu quando foi uma das vocalistas dos renovados Madredeus. “Eu queria muito que este fado tivesse esse lado positivo, de luz, que o Brasil tem.” E António Marinheiro tem outra, a do cavaquinho cabo-verdiano de Jon Luz. “É um tema feito para teatro, tem esse lado emotivo. E como eu também trabalhei o Édipo, quando li a peça do Santareno fiquei fascinada, sente-se mesmo Alfama. E, contrariamente ao feitio dos gregos, tem o lado português de achar que vai tudo correr bem. O cavaquinho, aqui, faz também parte da procura do eu.”

Canto de embalar, que Paredes compôs para a sua mãe, conta com o oboé de David Costa, e Em memória de uma camponesa assassinada, seguida do Cantar alentejano de José Afonso, tem Ana Isabel Dias na harpa e as vozes do coral Estrelas do Sul, de Portel. “Esta música traz a jovialidade da Catarina e ao mesmo tempo o dramatismo da sua morte, essa crueldade que aconteceu. Era muito importante para mim ter este tema no disco, porque importa falar de quem lutou por direitos que se estão a perder diariamente.”

O disco-livro, editado pela BOCA — Palavras Que Alimentam, tem textos originais de Miguel Castro Caldas, Adelino Gomes, Gonçalo M. Tavares, Rui Pina Coelho, Domingos Morais, Irene Flunser Pimentel, Daniel Abrunheiro e fotografias (inspiradas, tal como os textos, nas canções) de António Coelho, Rodrigo Amado, Eduardo Martins, Duarte Belo, Jordi Burch, João Tabarra, Lara Jacinto, Nuno Ferreira Santos, Roberto Cifarelli e Vitor Garcia. Na contracapa, há uma foto inédita de Eduardo Gageiro, que também se entusiasmou com este projecto: Paredes num cacilheiro, com Lisboa ao fundo. Um simbólico fechar de página.