Crítica

Aí está o ousado novo álbum de David Bowie

É um dos álbuns mais esperados dos últimos tempos. Blackstar sai a 8 de Janeiro, no dia em que David Bowie completará 69 anos. Já o ouvimos. É um tratado de como manter-se desafiante sem prescindir da universalidade.
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Ousado, inquietante, denso, corajoso e alienígena, com músicos de jazz a recriarem formas disformes com algum rock lá dentro. É assim o surpreendente 25.º álbum de David Bowie, a editar a 8 de Janeiro, dia em que fará 69 anos. Em 2013, em conversa com o seu último biógrafo, o jornalista inglês Paul Trynka, este manifestava o desejo de que continuasse “misterioso e que nos espantasse”, porque é alguém que sente a “pulsão do presente, o que é fantástico, tendo em atenção que tem um legado que poderia fazer render": "Se existe alguém capaz de começar tudo de novo é ele.” Dois anos depois, Bowie cumpre com esse desígnio.

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No caso de Blackstar, assim se chama o novo álbum, tudo terá começado na Primavera do ano passado. Uma amiga, a compositora de jazz Maria Schneider, sugeriu-lhe que fosse ao pequeno Bar 55, em West Village, Nova Iorque, onde tocaria nessa noite um quarteto liderado pelo saxofonista Donny McCaslin. Sentou-se numa mesa perto do palco, durante uma hora ouviu as explorações jazzísticas dos músicos, e saiu sem falar com ninguém.

Dez dias depois, McCaslin recebeu um e-mail, no qual Bowie manifestava o desejo de que ele e o baterista Mark Guiliana se lhe juntassem em estúdio. Daí resultaria a canção Sue (or in a season of crime) – inserida no presente álbum, mas em versão distinta – que acabaria por ser incluída na compilação Nothing Has Changed, lançada há cerca de um ano. Logo aí se percebia que o cantor e músico inglês andava a preparar algo de diferente.

Longa digressão de inspiração jazzística, expunha a faceta do Bowie mais peculiar, capaz de assimilar ideias aventureiras num vocabulário de inteligibilidade ainda pop. As opiniões dividiram-se. Para os admiradores das suas reencarnações mais ligeiras, era música confusa, demonstração de que já teria conhecido melhores dias. Para outros, representava o regresso da sua faceta mais arriscada, exposta em álbuns como Low, Heroes ou Lodger, gravados entre 1976 e 1979, na sua fase de Berlim, desenhando novos desígnios de forma estruturada, recriando ideias de libertação do jazz, numa extensa canção que também tinha influências do rock alemão dos anos 1970.

Uma galáxia própria
Depois dessa sessão inicial, desapareceu durante alguns meses para pensar e trabalhar em novo material. Podemos imaginá-lo no quotidiano, saindo todas as manhas do seu duplex, no número 285 da rua Lafayette, em Manhattan, para um passeio matinal de pelo menos uma hora, subindo a Houston, cruzando a rua Bleecker, até chegar à conhecida St. Marks Place, onde Andy Warhol tinha a famosa Factory, que ele conheceu na sua primeira visita a Nova Iorque há 40 anos. Naquelas artérias é um anónimo. Quase ninguém o reconhece. Durante a tarde, entrega-se à pintura, a sua grande paixão, ou, se o mini-estúdio que tem em casa não lhe serve, dirige-se aos estúdios Magic Shop, no número 49 da rua Crosby, paralela àquela onde vive, para trabalhar novas ideias.

A sua vida parece desenhar-se num perímetro restrito. Não sai muito. Não é de viajar para fora da cidade. Como se sabe, concertos, nem vê-los. E entrevistas também não lhe interessam. Há quem argumente que não consegue ter uma vida normal por causa do enfarte que sofreu na Alemanha em 2004, durante a digressão Reality, e talvez por isso adopte agora, como antítese, pelo menos no título do álbum, o lado negro de ser estrela pop.

A sua ausência parece ter-se transformado em mais um momento definidor da sua carreira. Mas também existe quem argumente que se limita a habitar na sua própria galáxia e que está apenas a criar mais uma personagem enigmática. E no entanto Blackstar respira mundo e uma intencionalidade artística, como se ele estivesse mesmo determinado a deixar a sua marca no presente.

Para tal, em Janeiro deste ano, resolveu chamar ao seu estúdio o grupo de McCaslin – com Jason Lindner nas teclas, Ben Monder no baixo, Tim Lefebvre no baixo e Guiliana na bateria. Foi aí que começaram a trabalhar no novo álbum, no meio de muito secretismo, como já acontecera com o anterior The Next Day. Editado de surpresa em 2013, esse disco interrompeu dez anos de silêncio, naquele que foi um dos mais gloriosos regressos da história da pop, alicerçado na exposição do museu Victoria & Albert de Londres, que nos devolvia a personagem icónica que influenciou décadas de estilos de vida, modas, signos e imagens.

A canção Sue (or in a season of crime) acabou por ser recriada, surgindo com uma sonoridade mais metalizada, com ele a cantar sobre uma relação fadada ao fracasso, enquanto o som se vai tornando mais obsessivo. Um outro tema, ‘Tis a pity she was a whore, também já era conhecido, surgindo retocado com uma sonoridade que parece evocar os Talking Heads de sensibilidade funk, com o saxofone vogando livre. Para além dessas duas, foram registadas mais cinco canções, entre elas Lazarus, escrita para o musical do mesmo nome em cena neste momento na Broadway e inspirada no romance The Man Who Fell to Earth, de Walter Tevis, que o próprio Bowie incarnou no cinema em 1976.

Nas únicas declarações conhecidas acerca do disco, o histórico produtor Tony Visconti disse que Bowie “estava determinado a fazer algo de completamente diferente” e que ambos tinham ouvido imenso Kendrick Lamar, no sentido em que o rapper americano não receava incorporar no seu som hip-hop os mais diversos estímulos. “O objectivo, de alguma forma, era evitar o rock'n'roll”, afirmou. E, sim, o rock, no sentido clássico, está praticamente ausente deste disco, amalgamado por entre uma série de elementos (resgatados ao jazz, pop, hip-hop, electrónicas ou krautrock) que acabam por formar uma cerrada sonoridade fusionista.

Tudo é possível
Blackstar é um disco de ambientes intensos, com guitarras, sopros e teclados prolongando-se até ao infinito, mais do que de melodias – a excepção acaba por ser a luminosa Dollar days, canção construída à volta de guitarra acústica e piano, envolvida por orquestrações e pelo omnipresente saxofone, o instrumento que sempre encantou Bowie, ao ponto de uma vez ter dito na sua juventude que não sabia se “queria ser um cantor de rock'n'roll ou John Coltrane”.

A densidade que domina essencialmente a primeira metade do disco é audível logo na abertura, com Blackstar, longa jornada surreal de dez minutos, que parece dividida em várias partes, circundada por formas jazzísticas, ritmos desconexos, elementos electrónicos e inflexões vocais, com ele a cantar de forma lancinante e talvez autobiográfica: “Take your passport and shoes (I’m not a popstar)/ And your sedatives, boo (I’m a blackstar).”

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No lamento que é Lazarus, um lento ritmo marcial insinua-se por entre o seu timbre grave, criando uma atmosfera hipnótica e profundamente romântica, enquanto Girl loves me se assemelha a um cântico ritual, com a sua voz a assumir um papel quase psicótico, com coro e cordas a reforçarem o clima de mistério.

O fundador dos LCD Soundsystem, James Murphy, que já havia criado em 2013 uma magnífica remistura para Love Is lost de Bowie, também esteve presente nas gravações, mas o seu papel foi discreto, acabando por tocar em duas faixas, mas não participando na produção como foi inicialmente equacionado. Apesar disso, a sua presença sente-se, por exemplo, na sofisticação dos sintetizadores e no mantra repetitivo que é Girl loves me.

Do ponto de vista instrumental, o destaque é a presença do saxofone de McCaslin, que em vez de suavizar o conteúdo musical é essencial para subtrair o lastro de demência e decadência que transmitem canções como ‘Tis a pity she as a whore, em contraste com o tema final, I can’t give you everything, o mais clássico, aromatizado com o charme da eternidade.

Ele podia muito bem regressar como se fosse uma peça de museu. Legado não lhe falta. Mas não. Continua a assimilar ideias com sentido de risco num vocabulário de clareza pop. Desde os anos 1960 foi Ziggy Stardust, Aladdin Sane ou Thin White Duke. Foi mod, hippie ou glam-rocker. Antecipou o punk, inspirou-se na electrónica alemã dos anos 1960, beneficiou da euforia da imagem provocada pela MTV nos anos 1980 e aproximou-se da vaga dançante dos anos 1990. Foi-se reinventando, mas sem nunca deixar de ser ele próprio. Agora acontece o mesmo. Até arranjou uma forma de se reencarnar no actor Michael C. Hall (Dexter, Sete Palmos de Terra), o protagonista do musical Lazarus, que se apresentou na TV americana cantando e, enfim, fazendo de Bowie.

No anterior álbum, ia de baladas introspectivas até canções rock nervosas que pareciam encarnar a angústia do presente, como se reflectisse sobre si próprio e, nesse movimento, também sobre o mundo, num disco também ele exigente. Mas Blackstar é, ao mesmo tempo, mais sólido e arrojado. Quase a fazer 69 anos continua a transmitir a fantasia inspiradora de que tudo é possível. Agora só falta saber se veremos estas canções ao vivo. O produtor Tony Visconti não acredita que tal venha a acontecer. David Bowie não canta uma nota em público desde 2006, mas a verdade é que estas canções mereciam audiência. E com ele tudo é possível.