Sectores alimentar e da maquinaria já perderam 376 milhões com Angola

Os dois principais grupos de empresas atingidos pela crise têm um peso de 45% do total da retracção das vendas, que chegaram aos 834 milhões de euros até Outubro. Linha de apoio à tesouraria não tem adesão.

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Crise em Angola tem tido fortes impactos em empresas portuguesas Reuters/Herculano Coroado

O impacto da crise em Angola nas empresas portuguesas tem sido bastante expressivo, mas há sectores a sofrer mais do que outros. Nos primeiros dez meses do ano, as vendas de produtos como máquinas e aparelhos e os bens alimentares foram as que mais sofreram em valor, caindo, em conjunto, 376 milhões de euros face a idêntico período do ano passado. Este valor corresponde a 45% do total, que, segundo os dados do INE, caiu 834 milhões de euros.

Só as empresas que exportam máquinas e aparelhos para o mercado angolano viram as vendas encolher 228 milhões de euros (-33,5%), enquanto no caso das empresas de produtos alimentares o impacto foi de 148 milhões (35,4%).  

Para Paula Carvalho, responsável pelo gabinete de estudos económicos e financeiros do BPI, a descida no sector da maquinaria (bem como de equipamentos eléctricos e não eléctricos, e outro tipo de materiais) reflecte sobretudo “a evolução da procura interna de Angola, nomeadamente uma queda significativa da Formação Bruta de Capital que é perceptível no recuo do investimento público e no andamento do sector da construção”. Sobre a queda de exportações de produtos do sector alimentar, destaca que, “para além da moderação do consumo privado em Angola”, esta evolução “reflecte possivelmente a implementação recente das quotas e tarifas à importação de determinados tipos de bens, com vista a acelerar o processo de substituição de importações e estímulo à produção interna angolana”.

Paulo Varela, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIAP), começa por realçar que, sendo os sectores mais exportados para Angola, são os que mais impactos sofrem com a quebra de movimentos do comércio bilateral. No caso dos produtos alimentares, refere questões “relacionadas com a escassez de divisas, o licenciamento das importações e uma produção local significativa de águas minerais, cerveja, sumos de fruta e refrigerantes”. Ao mesmo tempo, avança que a agricultura foi o sector não petrolífero que mais cresceu este ano, “o que permitiu reduzir as importações por via do aumento da produção nacional”.

Se em termos do valor das vendas as empresas de máquinas e alimentos têm sido as mais afectadas pela contracção da economia angolana (com a descida do preço do petróleo e dificuldade em ter divisas para pagar as importações), em termos de intensidade da queda as empresas de madeira e cortiça e as de veículos e outros materiais de transportes foram as que mais se destacaram pela negativa. No primeiro caso, a descida foi de 44,4% (-13,5 milhões de euros), e, no segundo, foi de 41,9% (-42 milhões).

Referindo-se ao caso dos veículos, Paulo Varela destaca que “para além de direitos aduaneiros de importação mais elevados, trata-se de mercadorias exclusivamente de importação, o que subentende o seu pagamento em divisas, tornando o processo mais difícil e moroso”.  Citando dados do mercado angolano, este responsável refere que “o sector automóvel é um dos que mais tem sofrido com a crise económica”.

Linha de apoio sem expressão
O forte abalo que provocado pela actual conjuntura de Angola, que encolheu as exportações nacionais e afectou muitas empresas nacionais (por via de menos encomendas, atrasos nos pagamentos ou dificuldades em repatriar capitais mesmo após ter as facturas pagas), está bem patente num outro indicador do INE: de Janeiro a Setembro deste ano havia 3605 empresas cujo único mercado externo era Angola, o que representa quase menos 1000 empresas face a idêntico período do ano passado. Se passaram a depender apenas do mercado interno, fecharam portas ou apostaram em novos mercados é uma incógnita. Para já, uma coisa é certa: a linha de apoio à tesouraria criada pelo anterior executivo para ajudar a aliviar as empresas expostas ao mercado angolano está a ter um impacto insignificante.

De acordo com o ministério agora tutelado por Manuel Caldeira Cabral, a 15 de Dezembro havia “nove operações efectivamente enquadradas” nesta linha de financiamento, com o valor global a chegar aos 4,5 milhões de euros. Este montante não corresponde ao adiantado pelo Ministério da Economia (com a tutela anterior) no final de Setembro, que tinha como valor de referência de contratualizações 20 milhões de euros (junto de 17 empresas). Uma explicação poderá ser a de financiamentos que sofreram uma reviravolta, mas, seja como for, o mais significativo é a reduzida expressão deste instrumento de apoio no terreno.

Para já, não há sinais de recuperação das vendas para Angola, cujo orçamento do Estado para 2016 se mantém bastante restritivo (com o investimento público a sofrer novo corte, de 30%). O mês de Outubro veio dar mais um alerta, com os dados as mostrarem que, nesse período, houve a maior queda homóloga de sempre (perto de 50%), com o ano de 2014 a poder ficar para a história como um período dourado sem repetição.  

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Paulo Varela refere que problemas como os atrasos nos pagamentos se mantêm, mas sem agravamentos, e que “os negócios entre Portugal e Angola continuam a fazer-se”. “O que se regista é um abrandamento nos movimentos e nos valores envolvidos, dadas as dificuldades na liquidação dos pagamentos aos fornecedores externos”, refere. “Não só a crise é conjuntural e Angola está a trabalhar para sair dela, como acreditamos que as relações empresariais entre os dois países em breve recuperarão para valores de anos anteriores”, defende este responsável.

“Não obstante, é crível que, ao contrário do que até aqui sucedia, o investimento directo português venha a ultrapassar o valor e a importância do comércio de mercadorias, se as empresas portuguesas souberem aproveitar as oportunidades que o novo enquadramento angolano lhes oferece”, remata Paulo Varela.

Remessas a descer
O impacto da crise de Angola em Portugal reflecte-se também ao nível das remessas enviadas pelos trabalhadores ali colocados. Em Setembro, último mês para o qual há dados, foram enviados 17,3 milhões de euros, o que corresponde a -15,4% face ao mesmo mês do ano anterior. Em termos acumulados, nos primeiros nove meses do ano foram enviados para Portugal 154,6 milhões de euros, o que representa uma quebra de 20%.

Entre as razões para esta descida estão os problemas nos pagamentos e falta de divisas mas, também, uma diminuição do número de trabalhadores ali colocados em sectores como o da construção civil. Um estudo recentemente divulgado pela Fundação Portugal África (Diáspora portuguesa em Angola, 2002-2012, coordenado por Carlos Sangreman) dava conta, através da realização de um inquérito, de que 87,7% dos trabalhadores deslocados para este país enviava rendimentos para Portugal. A principal razão era a poupança própria, seguindo-se a ajuda à família. De acordo com o estudo, a maior parte dos inquiridos (65%), enviava a maior parte dos seus rendimentos.