Editorial

Certeza e incógnitas dos votos espanhóis

Ditado o fim do bipartidarismo, resta saber que alianças emergirão das eleições espanholas de hoje.

O sistema eleitoral espanhol favorece o bipartidarismo mas este tem os dias contados. Não porque o sistema eleitoral tenha mudado, mas porque os principais partidos, os que até aqui têm rodado no poder, sofreram uma forte erosão diante do eleitorado. Por isso, se em eleições anteriores tudo se decidia entre o PP e o PSOE, ficando em vantagem ora um ora outra, agora o pódio será disputado não por duas mas por quatro partidos. Isto não significa, porém, que haja mudanças de monta. Visto de uma forma simplista, é como se a alternância a dois agora se jogasse a quatro, ficando apenas por saber que “fatia” dos votos expressos terá cada uma das formações em disputa na primeira linha. Ontem, em editorial, o diário El País dizia que, mais do que partidos ou programas em disputa, foram os seus líderes que na campanha desempenharam o papel principal, foram eles o “produto” exposto, não os seus partidos. E isto terá reduzido a “oferta” eleitoral a quatro pessoas: Rajoy (PP), Sánchez (PSOE), Iglesias (Podemos) e Rivera (Cidadãos), alinhando as novas forças políticas num jogo que não difere muito do das velhas, das quais deveriam demarcar-se. Escreve ainda o El País que “os partidos tradicionais trataram de não perder terreno, e os emergentes, sem herança a defender, criaram uma dinâmica contra as opções de sempre, que não foi acompanhada por verdadeiras demonstrações de uma nova política.” Cautelas à esquerda e à direita, cabe agora ao eleitorado espanhol projectar no voto tudo aquilo que o move, e que vai da herança ainda morna dos revoltados de 2011, os que ocuparam as ruas e ruidosamente exigiram mudanças, e o descrédito face ao desempenho das forças tradicionais. Nas sondagens, este desencanto expressa-se de forma clara. Nas legislativas anteriores, PP e PSOE somavam entre 70 a 80% dos votos. Nestas, poderão não passar dos 50% Isto enquanto o Cidadãos e o Podemos já ultrapassam a barreira dos 15%. Consoante os votos reais, expressos hoje, assim será o futuro governo de Espanha, assentando mais depressa numa aliança PP-Cidadãos do que PSOE-Podemos. Ou seja, tal como sucedeu em Portugal nas recentes legislativas, a ausência de uma maioria absoluta pode fazer deslocar o poder para uma aliança parlamentar que não seja a mais óbvia. E se por aqui, contrariamente às expectativas dos vencedores e à “norma” habitual, o governo acabou por ser entregue ao PS com apoio parlamentar do PCP e do Bloco, em Espanha os dois maiores partidos (PP e PSOE), se as eleições confirmarem a sua tendência de queda, terão de sujeitar-se a negociações com os emergentes (Cidadãos e Podemos). Isto, por si só, não é garantia de uma nova política. Mas corresponde verdadeiramente a um novo ciclo, mais imprevisível mas também mais desafiador. Isto se a capacidade de fazer pactos e obter consensos for levada a sério pelos partidos em disputa e se desses acordos e negociações sair algo que corresponda aos anseios de mudança do eleitorado. Dizem que durará pouco, mas a nova legislatura espanhola pode ser uma agradável surpresa.