Cavaco pede aos políticos que não dificultem a “tarefa heróica” dos empresários

Presidente da República alertou para riscos da devolução de rendimentos aos portugueses.

Cavaco Silva afirmou estar "descontraído" com o actual cenário político em Portugal
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Cavaco Silva afirmou estar "descontraído" com o actual cenário político em Portugal ENRIC VIVES RUBIO

Dois anos depois e cerca de 30 empresas visitadas e Cavaco Silva não tem dúvidas de que a “indústria portuguesa renasceu e atravessa um momento de intensa renovação”. Na sessão de encerramento da 8.ª Jornada do Roteiro para uma Economia Dinâmica, o Presidente da República deixou vários avisos para que não se estrague o caminho percorrido.

O apelo foi directo aos poderes políticos para que não dificultem o trabalho feito, “o que já é de si mesmo uma tarefa heróica”, mas que criem “condições de estabilidade e de confiança para que os empresários competentes possam tomar decisões de investimento e apostar em novos empreendimentos, criando assim mais emprego e mais riqueza”.

Nas suas últimas jornadas, o Chefe de Estado visitou empresas de cerâmica, metalurgia e metalomecânica do distrito de Aveiro e terminou o dia a entregar a Comenda da Ordem do Mérito Empresarial a 14 personalidades, numa cerimónia no Centro Cultural de Macieira de Cambra, em Vale de Cambra.

Momentos antes, sublinhou a inovação, a qualidade, o engenho e esforço, a renovação e vitalidade, a atenção a nichos de mercado, a aposta na formação profissional, da indústria transformadora nacional. E destacou a capacidade dos empresários de encontrarem novos caminhos, “recusando lamentações estéreis”.

O que viu na Madeira deixa-o satisfeito. “Nem os sobrecustos inerentes a uma zona ultra-periférica, como é a região autónoma da Madeira, se revelam impedimento para criar negócios líderes em software de gestão para PME, produtos de panificação de elevada qualidade, vinhos que são apreciados em todo o mundo, ou a aquacultura de espécies muito apreciadas”.

Para Cavaco Silva, não se deve abrandar nas ajudas. “É necessário continuar a apoiar as PME exportadoras, inovadoras e competitivas, bem como as empresas que, já não sendo PME em virtude do seu ciclo de crescimento, não são menos exportadoras, inovadoras ou competitivas, mas continuam a enfrentar muitos obstáculos à sua actividade”, referiu, lembrando, porém, que as empresas de sucesso são ainda em número insuficiente para “gerar um crescimento robusto e sustentável” do país.

"Não afugentem os investidores"
Antes, em Aveiro, Cavaco Silva considerou que já era expectável que o novo Governo tomasse medidas para devolver os rendimentos aos portugueses, mas sublinhou que é preciso cuidado para não afugentar os investidores externos.

"Havia a intenção, qualquer que fosse o partido que ganhasse as eleições, de aumentar o rendimento disponível dos cidadãos portugueses, na medida em que o país tinha completado com sucesso a execução do programa de ajustamento e tinha conseguido voltar aos mercados financeiros internacionais pedindo emprestado a taxas muito favoráveis", referiu Cavaco Silva, citado pela Lusa.

Instado a pronunciar-se sobre as propostas do Governo liderado por António Costa para devolver os rendimentos aos portugueses, o Presidente da República disse que só falará sobre essas questões quando receber os respectivos diplomas.

O Chefe de Estado referiu ainda que Portugal é um país com uma taxa de poupança interna "muito baixa" e que "não consegue dispensar a poupança externa que chega por via de empréstimos ou pelo investimento directo estrangeiro".

"Temos de ter muito cuidado nas nossas decisões para não afugentar os investidores externos, porque se não tivermos investimento externo, então temos de pedir emprestado muito mais e isso cria-nos dificuldades ou então o investimento acaba por não subir aquilo que é necessário e o nível de vida das pessoas não melhora", sublinhou.

Cavaco Silva explicou ainda os objectivos da 8.ª jornada do Roteiro para uma Economia Dinâmica, dizendo que a cerâmica e a metalomecânica são "dois sectores dos mais importantes da indústria transformadora portuguesa", porque empregam mais de 200 mil pessoas e exportam mais de 50% da sua produção.

A última jornada do Roteiro para uma Economia Dinâmica começou no concelho de Águeda com uma visita à Revigrés, uma empresa especializada na produção de revestimentos e pavimentos cerâmicos. Ao final da manhã, a comitiva presidencial deslocou-se a Aveiro, onde visitou outra empresa cerâmica - a Kerion. com Lusa