Costa garante integridade de todos os depósitos no Banif

Primeiro-ministro admite que contribuintes poderão ser chamados a pagar nova factura após reunião de mais duas horas com partidos políticos e o governador do Banco de Portugal.

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Nuno Ferreira Santos
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Em cinco minutos, o primeiro-ministro repetiu a mesma mensagem seis vezes: os depósitos dos clientes do Banif estão integralmente protegidos, independentemente do seu valor. Porém, também afirmou que não pode dar as mesmas garantias em relação aos contribuintes, que poderão ser chamados a pagar mais uma factura da banca cujo valor não quis adiantar.

A garantia foi deixada por António Costa à chegada ao jantar de Natal do grupo parlamentar do PS, que se realiza esta noite de terça-feira na Assembleia da República, depois de uma reunião de duas horas e meia na residência oficial de S. Bento, do outro lado do jardim, com os líderes das bancadas dos partidos com assento parlamentar, com o ministro das Finanças, Mário Centeno, e o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. A garantia de confiança dada por António Costa em relação ao Banif é em tudo semelhante à dada pelo então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, pouco antes da intervenção no BES, que ocorreu no início de Agosto do ano passado.

“O que acho que é muito importante transmitir, relativamente àqueles que têm as suas economias e poupanças depositadas no Banif, quer no continente, quer nas ilhas, quer nas comunidades portuguesas, é que, independentemente do seu montante, estarão integralmente garantidos os montantes dos depósitos. E isso está assegurado", afirmou António Costa perante os jornalistas, acabando por repetir a mesma ideia mais cinco vezes.

O primeiro-ministro contou que na reunião estiveram, além do governador do Banco de Portugal, alguns funcionários daquela instituição que explicaram aos representantes dos grupos parlamentares a situação do banco, tal como já tinham transmitido ao Governo – ou seja, foi uma audição de Carlos Costa e de técnicos com todos os partidos para, de certa forma, vincular toda a gente ao mesmo nível de conhecimento da situação.

Mas António Costa admitiu que não pode deixar a mesma garantia de segurança em relação aos contribuintes. "O Estado tem capitais públicos muito elevados investidos no Banif. Espero que a solução que venha a existir proteja o melhor possível o dinheiro dos contribuintes, mas a garantia que eu posso dar aos contribuintes não é a mesma que posso dar aos depositantes."

O primeiro-ministro escusou-se, no entanto, a especificar quanto o Estado e os contribuintes poderão perder no Banif, tal como também recusou colocar responsabilidades pela situação no anterior Governo. "O processo de venda está em curso, devemos aguardar serenamente que ele se conclua sem precipitações e no final se fará a avaliação."

Questionado ainda sobre a entrevista de José Sócrates à TVI, em que o antigo primeiro-ministro e líder do PS criticou a estratégia do partido para as presidenciais, Costa limitou-se a responder que "felizmente a crítica no PS é livre".

"Liquidez confortável"
Durante o fim-de-semana, António Costa já tinha efectuado um contacto telefónico junto do presidente do Governo Regional da Madeira (onde o banco teve origem), Miguel Albuquerque, para lhe garantir que o processo de reestruturação do banco está a decorrer de forma normal.

“O primeiro-ministro telefonou-me pessoalmente no domingo, para garantir que as notícias, que eu considero especulativas, que dão conta do iminente colapso do banco não correspondem à realidade”, garantiu o chefe do executivo madeirense.

Miguel Albuquerque destacou que o objectivo do Governo é “a alienação do capital do Banif” e “salvaguardar os depositantes, os accionistas e a posição estratégica que o Banif tem junto da comunidade emigrante madeirense".

Esta terça-feira de manhã, um dia depois do Ministério das Finanças, foi a vez de o Banco de Portugal emitir um comunicado sobre o Banif, que não está a conseguir cumprir as exigências de Bruxelas quanto ao reembolso da última tranche de 125 milhões de euros do empréstimo de capital contingente (Coco) feito pelo Estado.

Em três parágrafos, o regulador disse estar “a acompanhar a situação do Banif, garantindo, como é da sua competência, a estabilidade do sistema financeiro, bem como a segurança dos depósitos”. “Tal como foi revelado pelas autoridades nacionais, europeias e pelo conselho de administração do Banif, o plano de reestruturação do Banif está a ser analisado pela Comissão Europeia e, em paralelo, está a decorrer um processo de venda internacional da instituição financeira conduzido pelo conselho de administração”, constata o Banco de Portugal.

Na segunda à noite, o presidente executivo do Banif, Jorge Tomé, defendeu, em entrevista à RTP-Madeira, que a instiuição financeira tem uma posição de "liquidez confortável", e que "os depositantes e contribuintes podem estar descansados".

Citado pela Lusa, o gestor disse ainda que a venda da instituição está a "correr muito bem" e que há seis investidores internacionais a analisar a situação do banco, no qual o Estado detém uma posição maioritária após ali ter aplicado 700 milhões de euros (além do capital contingente, o que perfaz um total de 825 milhões de euros aplicados pelo Estado).

O banqueiro admitiu ainda que a notícia de um eventual encerramento veio "perturbar todo um processo estruturado que está em curso, em que a posição do Estado está a ser vendida".

Já durante a manhã desta terça-feira, a Lusa dava conta que o balcão da sede do Banif, no Funchal, estava cheio de clientes à procura de esclarecimentos, tal como sucedeu em outras agências da região.

Depois de as acções do Banif terem perdido mais de 40% em bolsa na segunda-feira, esta terça-feira subiram 25%, para 0,001 euros. com Luís Villalobos, Paulo Pena e São José Almeida