Circo: nesta pequena máquina da felicidade os animais já não entram

Em Portugal, apenas o Funchal proíbe a utilização de bichos nos circos. Mas há mais autarquias a darem passos nesse sentido e no programa de Governo já se fala de “bem-estar animal”. No Coliseu do Porto, pela primeira vez, o circo de Natal não tem trabalhadores de quatro patas. Está o circo a mudar?

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Paulo Pimenta
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Depois da estranheza, o progresso. Eduardo Paz Barroso não perdeu muito tempo a imaginar possíveis perdas de bilheteira ou lamentos. Para o presidente do Coliseu do Porto, a decisão era tomada num binómio certo-errado e, por isso, não havia dúvidas: pela primeira vez, a icónica instituição da cidade apresenta um circo onde os animais não entram. No Funchal foi decretada formalmente há um ano a proibição de utilização de bichos nestes espectáculos. Lisboa, Cascais, Évora e Faro também seguem recomendações das respectivas assembleias municipais nesse sentido. Está o circo em Portugal a transformar-se? 

Quando assumiu a presidência do Coliseu, em Setembro de 2014, o programa do circo de Natal desse ano estava fechado. E tinha cães e tigres como “trabalhadores”. Fascinado pelos “lindíssimos tigres”, Eduardo Paz Barroso escreveu na sua página do Facebook que lhe lembravam os desenhados por Júlio Pomar. Só mais tarde, “num exercício de auto-pedagogia”, se pôs a pensar nas “restrições” impostas aos bichos — e em como tudo isso estava errado e era contraditório com o conceito de circo que defendia. A reviravolta deu-se este ano, com o Coliseu a assumir, pela primeira vez, a responsabilidade exclusiva da programação do circo de Natal, banindo os animais: um “sinal de contemporaneidade”.

A 300 quilómetros de distância, o recém-eleito deputado do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Lourenço e Silva, aplaudiu o exemplo. O caminho da evolução, acredita, está já a ser feito — e teve a sua grande demonstração quando o PAN conseguiu o seu primeiro representante no Parlamento, nas legislativas de Outubro. De resto, é olhar para a televisão ou ver o que se passa nas ruas: “Começa a ser unânime esta tendência de se abolir a utilização de animais para divertimento, o caso dos circos e das touradas”, observa.

No programa de Governo de António Costa, aparece apenas um bloco com cinco medidas “no domínio do bem-estar animal” — propostas que não constavam do documento inicial, incluídas no seguimento de conversações com o PAN. Mas nenhuma fala directamente do circo. André Lourenço e Silva acredita ainda assim que “o Partido Socialista, tal como outros movimentos políticos com assento na Assembleia da República, sentem já esta questão como um passo a dar na evolução do bem-estar e protecção animal”. Um caminho, sublinha, já iniciado pelo PS “na gestão do município de Lisboa”.

Faltam poucos minutos para o início do espectáculo e o Coliseu do Porto vai-se compondo. A família Silva, fiel seguidora do circo de Natal da cidade, faz o aquecimento de balde de pipocas nas mãos e ignora questões de programa: “A gente quer divertir-se, com ou sem animais”. A questão do bem-estar dos bichos foi coisa que não lhes passou pela cabeça noutros anos, admite Cristina, mãe de duas crianças. A resposta está-lhe, ainda assim, na ponta da língua: “Se me dizem que os animais sofrem digo já que sou contra, gosto muito de bichos. Mas também já ouvi dizer que nem sempre é assim.” Junto ao palco circular montado no centro da sala Carolina, de quatro anos, está prestes a estrear-se como espectadora de circo. Os pais, António e Mónica, consideram a questão do bem-estar animal “importante”, mas querem os “extremismos” fora da equação: “Se formos para extremos nem um cavalo podemos montar”, diz o pai de Carolina. Para o casal, a fórmula pode ser qualquer coisa como: “Retirar os animais do seu habitat natural, não. Mas se já nascem em cativeiro e forem bem tratados, sim.”

Cresce a ansiedade nos bastidores. Enquanto uns ensaiam exercícios de aquecimento ou fazem malabarismos em tom de brincadeira e relaxamento, Rosa Sáez, palhaça da companhia Los Quixotes, tenta adormecer o filho de um ano num carrinho de bebé. Por ali, mas longe do palco, há um caniche branco a marcar presença. “Apenas cão de companhia”, viajando desde Madrid com o trio de palhaços do qual Rosa faz parte. Em Espanha, como em Portugal, não há uma regra única sobre a utilização de animais em espectáculos de diversão — numas regiões é permitido, noutras não. É um “tema delicado”, consideram. Palavra a Ramón Merlo: “Está a desaparecer e penso que deve desaparecer, sobretudo quando falamos de animais selvagens. Mas um cãozinho a fazer uma participação não me choca.”

A sobrevivência de famílias onde tradicionalmente o circo se fez sempre com animais não é alheia à posição dos espanhóis. “Vemos gente a viver disso e pensamos: ‘E agora, como vão sobreviver?’”, verbaliza Joshean Mauleón. A questão põe em cima da mesa as preocupações manifestadas por várias companhias portuguesas ao longo dos últimos anos — sem animais, dizem, o negócio não corre da mesma forma e as portas do circo hão-de fechar. Há sete anos, em 2009, uma nova portaria proibiu a aquisição de animais selvagens pelos circos e a reprodução dos mesmos. Todas as espécies de primatas, de ursos e de felinos (excepto o gato), otárias, focas, hipopótamos, pinguins ou crocodilos levaram um carimbo de “protegidos”. Mas quem já tinha animais selvagens teve autorização para os manter.

Os bichos utilizados nos circos “vivem anos de encarceramento, confinados em espaços exíguos”, lamenta André Lourenço e Silva. O facto de nunca terem conhecido outra realidade não lhes diminuiu o sofrimento: “A observação dos seus movimentos repetitivos e de distúrbios psicológicos diversos por veterinários e biólogos demonstra a vida de escravidão forçada a que são sujeitos.”

Durante muitos anos, na Madeira, viram-se circos com animais no Natal e como companhia permanente das campanhas eleitorais de Alberto João Jardim. Ironicamente, em Novembro de 2014 a capital madeirense deu um passo inédito no país: o independente Paulo Cafôfo aceitou a proposta do PAN e inscreveu-a na lei: sim aos circos, não aos animais nos circos. O efeito-dominó pretendido acabou por não ocorrer, mas sem o proibir formalmente algumas autarquias (Lisboa, Cascais, Évora e Faro) deram passos no sentido da não utilização de bichos, a partir de recomendações das respectivas Assembleias Municipais.

O trabalho de activistas um pouco por todo o mundo tem contribuído de forma significativa para a mudança. Áustria, Holanda, Suécia, Índia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Argentina e algumas zonas dos Estados Unidos — para citar apenas alguns exemplos — proibiram o uso de animais em circos.

A família de Alberto Zavatta começou a fazer circo em 1815. O bisavô, o avô e o pai nasceram e cresceram no circo e levaram o italiano, agora com 40 anos, para dentro desse mundo - como Alberto levará provavelmente o filho, que completa um ano nesta segunda-feira. “Vivi neste universo a vida toda e sei que as pessoas se habituaram a ver animais. Mas o futuro deve ser sem eles. Em Itália isso é uma dor de cabeça. Mas a mentalidade tem de mudar. Vai demorar mas o caminho deve ser nesse sentido.”

E se o público estranhar? “É bom que estranhem. Se não estranhássemos não havia progresso nem desenvolvimento”, responde assertivo Eduardo Paz Barroso. Nesta “pequena máquina da felicidade” chamada circo quer-se, mais do que tudo, “manter o espírito flâneur” — “olhar para cima e sentirmo-nos parte desta realidade”, diz o presidente, olhos postos na imponente sala portuense, onde o circo assentou arraiais até 3 de Janeiro. Contribuir para “mudar mentalidades” deve ser uma missão do circo, mais não seja pelo vasto público infantil que o segue: “Não é educativo trazer crianças a um circo onde se vêem animais em jaulas. É um estereótipo pobre. Ao contrário do circo, um mundo riquíssimo. Podia sem qualquer esforço, construir cinco ou dez alinhamentos sem precisar de animais.”

Durante duas horas, houve uma trupe sincronizada de equilibristas do Circo Nacional de Xangai, actuações impressionantes e vertiginosas dos Flying Aces, magia e equilibrismo pela dupla italiana Alberto e Nancy Zavatta, acrobacias das americanas Nicole Burgio, do Cirque du Soleil, e Shannon Mc Kenna e, claro, palhaços, com os espanhóis Los Quixotes. Depois de várias rondas de actuações e a apenas uma do final, o apresentador do circo do Coliseu arriscou uma pergunta de onde podia ter saído uma resposta incómoda como “leões” ou “tigres”. “O que falta agora, para fechar em grande?”. E os pequenos responderam num grito o que Coliseu queria ouvir: “Os palhaços!” Ver mais em P3