Opinião

O que é isso, brasileiro?

Terá o Brasil exaurido a sua capacidade de se reinventar positivamente?

Rio de Janeiro. — Depois de dez anos com estadias recorrentes no Brasil, faz agora cinco anos que não vinha a este país de que também me sinto parte. Saio no dia em que estão na rua várias manifestações de apoio à destituição de Dilma Rousseff, aparentemente menos concorridas do que no passado mas ainda mais intensas na sua aversão à Presidente e ao Partido dos Trabalhadores. E assisti, nos últimos dias, a uma igual aversão a essa aversão, e a uma intensidade que também não é menor no apoio à destituição do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Há umas semanas, a direita portuguesa era presidencialista (e voltará a sê-lo se tiver hipóteses de um presidente que lhes convoque eleições antecipadas). Aqui descubro que a direita brasileira, num país de sistema presidencialista, decidiu virar parlamentarista, e pretende retirar no Congresso o mandato presidencial que os cidadãos deram a Dilma através do voto há pouco menos de um ano.

A destituição de um presidente (ou "impeachment") faz sentido num sistema presidencialista quando o presidente comete crimes ou viola a constituição. Mas não é este o caso de Dilma. Nos atuais casos brasileiros há crimes onde não há Dilma, e vice-versa. A direita brasileira sabe disto, — daí a intensidade do ódio —, mas também sabe que se tiver os votos suficientes no Congresso conseguirá destituir Dilma primeiro, e julgá-la só depois. Se os crimes não forem provados, a destituição já não volta atrás.

Já Eduardo Cunha tem muito provavelmente crimes de sobra, contas na Suíça, atropelos vários às regras do Congresso. Mas embora toda a gente saiba disso, ele é agora um instrumento útil para depor a Presidente.

Porque, no fundo, o que mais importa aqui não é o fundo da questão. O que mais importa é a polarização da sociedade brasileira. Durante muitos anos, os setores mais conservadores da sociedade brasileira viram a sociedade mudar sem prescindirem da sua arrogância social, às vezes nos limites do racismo de classe. Do lado da esquerda, a resposta do PT veio muitas vezes em modo de soberba intelectual e monopólio da razão de estado. Agora esses dois colossos emocionais estão frente-a-frente, e nenhum quer ceder espaço.

Há talvez, entre as lideranças políticas, gente que reconheça o problema, mas não sei se em posição para o resolver.

O Brasil já estava a mudar e mudou mais — um dos sinais mais visíveis, e levado com orgulho, é a presença cada vez mais numerosa de negros e pobres na universidade — mas embateu agora num obstáculo sério. Após dois presidentes que lidaram eficazmente com a instabilidade económica (Fernando Henrique Cardoso) e a desigualdade extrema (Lula), Dilma teria agora de fazer o mesmo com a corrupção do sistema político.

O problema, talvez fatal, é que é difícil reformar um sistema cuja razão de ser depende de não se deixar reformar. Para o fazer seria necessária uma mobilização de brasileiros pelo estado de direito em vez de uma polarização entre brasileiros à custa do estado de direito.

Mas conseguir isso, depois de anos de arrogância social de um lado e intelectual do outro, é que não se vê. A temível pergunta que fica é se, por agora, o Brasil terá exaurido a sua capacidade de se reinventar positivamente.