Crítica Crítica

Cláusula perfeita

Pedro Burmester esteve bem, neste final de ciclo. No próximo ano regressará a solo com um programa mais variado.

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Pedro Burmester Rita-Burmester

Não tenhamos ilusões: não terá sido ainda para ouvir a música de Helmut Lachenmann (1935) que a Sala Suggia se encheu no sábado passado e a ideia de juntar a música deste compositor a quatro dos cinco concertos de Beethoven que, ao longo deste Ano Alemanha, Pedro Burmester interpretou com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música (OSPCdM) foi, necessariamente, uma elegante estratégia para levar o público mais conservador a confrontar-se com a arte musical contemporânea. Mas a atmosfera de desconforto de algum público, que nos três primeiros concertos se fazia notar, foi menos perceptível no concerto de encerramento da residência artística do compositor na Casa da Música.

De Schreiben (2004) a Tanzsuite mit Deutschlandlied (1980), passando por Kontrakadenz (1971) e Accanto (1976), a música orquestral de Lachenmann foi ao longo do ano apresentada num retrato parcial bastante significativo, sob a direcção dos maestros Matthias Hermann, Lothar Zagrosek, Baldur Brönnimann e Peter Rundel.

Antecedendo a execução, e em jeito de despedida após o trabalho realizado de perto com os dois agrupamentos mais antigos da Casa, Lachenmann desafiou o público a “tentar gostar” do que ouviria - porque “a sala de concertos deve ser espaço para algumas aventuras” - fornecendo dois ou três elementos como guias de escuta, primeiro ao piano e depois com a ajuda de Peter Rundel e da orquestra, exemplificando o modo como surgem em Tanzsuite mit Deutschlandlied a Sicialiana e o hino alemão e convidando a plateia a “sintonizar antenas” nos elementos focados.

Os cerca de 40 minutos da primeira parte parecem ter voado, com a OSPCdM a executar de forma muito convincente esta conhecida obra de um dos mais importantes compositores do nosso tempo. Lachenmann foi muitíssimo aplaudido, regressando ao palco por duas vezes com a sua enorme simpatia. Refira-se, no entanto, que os aplausos que mereceu não foram tão esfuziantes como os que Pedro Burmester recebeu de uma plateia que, num ápice, se pôs de pé para lhe prestar culto, soado o último tempo do Concerto “Imperador”.

Na interpretação do Concerto de Beethoven, onde em Baldur Brönnimann havia prudência e rigor, em Peter Rundel houve energia e paixão. O primeiro andamento do Concerto nº 5 para piano e orquestra terá sido talvez o mais “desconfortável”, uma vez que a primeira parte do programa denunciara resultados bem mais persuasivos. Se, na primeira entrada, o atraso dos tímpanos pode ser encarado como um percalço sem grandes consequências, já o desencontro entre solista e orquestra na primeira chegada à dominante, bem como a ausência de rigor na afinação (no I andamento, principalmente nos violinos), trouxe alguma decepção face ao que a integral dos concertos para piano com Burmester tinha vindo a prometer. No segundo andamento, o cenário não se mostrou muito diferente: a afinação mostrou-se debilitada - não apenas nas cordas, como também nos sopros - mas, tentando fazer esquecer o início, o III andamento foi atacado com bastante garra, deixando de se fazer sentir quaisquer atritos na afinação ou os ocasionais desencontros dos andamentos anteriores. Pedro Burmester esteve bem, neste final de ciclo. No próximo ano regressará a solo com um programa mais variado.