Entrevista

“Obama atraiçoou o conceito de democracia” ao fazer a paz com Cuba

Guillermo Fariñas Esteve preso 11 anos e fez 24 greves de fome pela liberdade política em Cuba e a libertação de presos políticos. Ganhou o Prémio Sakharov em 2010 e esteve em Lisboa para falar do seu país

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"Há um círculo de poder quase invisível em Cuba. Estão a preparar-se para fazer a sua própria rendição", diz Fariñas Daniel Rocha/PÚBLICO
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“O Governo cubano sente-se corroborado pelo Governo dos EUA e está a tratar de fazer desaparecer a oposição" Daniel Rocha/PÚBLICO

Guillermo Fariñas está com jet-lag. Vê-se que está cansado. Chegou a Lisboa na véspera, convidado pelo Parlamento Europeu, para dar uma conferência no Dia Internacional dos Direitos Humanos (11 de Dezembro) e falar do seu país, Cuba. A sala é pequena e não está completamente cheia, mas a conversa animou-se entre a plateia de pessoas com vontade de ouvir um testemunho, de curiosos por conhecer o Prémio Sakharov de 2010 (que o Parlamento Europeu atribui a quem luta pela liberdade de pensamento; este ano foi para o blogger saudita Raif Badawi) e de pessoas que queriam confrontar o orador que é anti-comunista e anti-castrista.

Fariñas, de 63 anos, é o coordenador do Foro Antitotalitário Unido, grupo da oposição cubana. Esteve preso 11 anos e fez 24 greves de fome pela liberdade política em Cuba e a libertação de presos políticos e de consciência. A greve de fome é a arma política pela qual é mais conhecido. “É o que chama mais a atenção, mas uso todos os métodos da luta não violenta”, disse na conferência em que ilustrou com casos reais as denúncias que fez.

Por exemplo, que o regime comunista confisca muitos negócios potencialmente prósperos para “impedir que surja uma verdadeira burguesia rural e urbana”. Ou que está em preparação uma nova lei eleitoral, mas ninguém sabe como será e por isso Fariñas não pôde dizer — como lhe pediu uma pessoa no público — se um dia gostava de ser Presidente de Cuba, que agora não é escolhido directamente pelo voto popular, mas por uma comissão parlamentar. Mais um exemplo: em Cuba há mais do que um partido, mas os grupos da oposição anti-castrista não podem concorrer a eleições.

A presença de Fariñas em Lisboa ocorre num período que é classificado de “histórico” — há um ano, e depois de terem passado mais de 50 anos como inimigos (e com Washington a tentar mudar o regime de Havana), os Estados Unidos e Cuba decidiram restabelecer as relações cortadas depois da Revolução cubana de 1959, que instaurou o regime comunista na ilha. Este momento histórico, protagonizado pelos Presidentes Barack Obama e Raúl Castro, já produziu mudanças — reabertura de embaixadas e flexibilização de viagens — e há outras anunciadas.

A vida dos cubanos vai melhorar, escreveram os analistas e os jornalistas depois do aperto de mão entre Obama e Raúl Castro. Fariñas não partilha dessa opinião. Acusa os EUA de não terem exigido nada em troca ao regime de Cuba onde, diz, há duas mudanças prioritárias por fazer, o “multipartidarismo e a libertação de todos os presos políticos e de consciência”. 

Quando foi a Bruxelas receber o Prémio Sakharov [em 2013, só nesse ano foi autorizado a fazer a viagem], citou uma frase de Tomasi di Lampedusa em O Leopardo: “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”. Na sua perspectiva, é isso que as negociações com os Estados Unidos estão a produzir em Cuba?
Cuba está igual, mas pior. É importante que se tenha essa visão e eu gosto de falar de forma gráfica: a partir de Dezembro de 2014, o Governo cubano aumentou o número de detenções [de opositores], aumentou o número de ameaças de morte, aumentou o número de actos que repúdio. O Governo cubano sente-se corroborado pelo Governo dos Estados Unidos e, na medida do possível, está a tratar de fazer desaparecer a oposição. As pessoas percebem que a repressão aumentou de forma desproporcionada. Além de haver um aumento da repressão, há um aumento na escassez de bens. As lojas não têm produtos alimentares e outros e estamos, neste momento, a passar por uma grave crise migratória e humanitária. Até 30 de Novembro entraram nos Estados Unidos 58 mil cubanos, 20 mil deles foram por terem relação familiar [com alguém que já vivia nos EUA], ao abrigo de um acordo que existe. Mas também há muita gente a fugir.

Ainda há muita gente que quer fugir de Cuba?
As pessoas vão-se embora de Cuba porque não têm liberdade política, social, económica. Há muita gente a fugir por medo de perder os direitos da Lei de Ajuste [que estabelece que os cubanos que cheguem a território dos EUA podem ficar no país na situação de imigrantes legais]. Neste momento, há milhares de cubanos que fugiram do país mas estão retidas noutros, onde foram interceptados. Há quatro mil na Costa Rica, três mil no Panamá, mil na Colômbia, mil no equador, 27 mil no México.

Disse em várias entrevistas que Obama atraiçoou a oposição cubana. Como entende a decisão do Presidente dos EUA?
Penso que Obama atraiçoou a democracia representativa e que isso tem consequências nefastas para a humanidade. Quando os regimes totalitários percebem que não há uma autoridade moral e mais forte do que eles ganham alento. Quando a mais importante potência do mundo claudica, isso alenta os terroristas, os intolerantes, os que não respeitam o que os outros pensam, a seguirem pelo mesmo caminho. O que aconteceu foi da responsabilidade do Presidente dos Estados Unidos, mas acusar Obama não é o mais importante, o mais importante é dizer que a culpa é do Governo cubano que viola os direitos humanos. Obama pode enganar-se ou acertar nas suas decisões, mas foi eleito. Não é o caso de Raúl Castro, que foi imposto, pois em Cuba aquilo a que se chama eleições são uma farsa. Nesse sentido, podemos dizer que Obama atraiçoou o conceito de democracia.

Muitos analistas consideraram que a normalização das relações EUA/Cuba iria abrir Cuba ao mundo e, a médio prazo, daí decorreria uma mudança de regime.
Não. O próprio regime castrista disse que isso não acontecerá. Eles disseram que a mudança que havia para fazer em Cuba foi feita em 1959 e que não haverá mais mudanças.

Conhecemos o regime cubano por “castrista”. Quando Fidel e Raúl desaparecerem, não acabará o castrismo? Ou não são eles quem manda em Cuba?
Não dou essa importância a Fidel Castro. Fidel e Raúl encarregaram-se de fazer com que as pessoas se esqueçam deles. A situação que existe neste momento no país é um catálogo de calamidades: não há comida, as pessoas querem partir para um lugar onde possam melhorar de vida, existe a repressão, há prostituição...

Quem manda é o filho de Raúl Castro, Alejandro Castro Espín, que é militar e está à frente do conselho de defesa e segurança nacional e na prática manda em todos os ministérios. Ele está a renovar os quadros, substituindo todos e preparando uma mudança, mas mantendo a mesma dinastia. À frente de toda a economia de Cuba está Rodríguez López-Calleja, que é genro de Raúl Castro. 

O círculo de poder cubano é pouco conhecido...
Há um círculo de poder quase invisível em Cuba. Estão a preparar-se para fazer a sua própria rendição. Será uma transição ao estilo da Rússia ou da Bielorrússia. O que enfrentamos é uma dinastia familiar a que se agrega uma junta militar — o poder em Cuba flutua entre estas duas formações.

Perante o cenário que está a traçar, o que se deve esperar das eleições de 2018, sendo que Raúl Castro anunciou que esse será o momento em que se retira?
As eleições são uma coisa decidida e vão pôr à frente do Estado Miguel Díaz-Canel, que é casado com uma neta de Raúl Castro. Raúl vai continuar a mandar, assim como o seu filho, e vão continuar a trabalhar para dar a ideia de que tudo mudou, mas sem mudar nada.

Na sequência das negociações com os Estados Unidos, o Governo de Havana anunciou que será aprovada uma nova lei eleitoral...
O problema é que nas negociações [com Cuba], o Governo dos Estados Unidos não exigiu nada. Pelo que depende de nós [oposição], e do que nós fizermos, da pressão que formos mantendo.

A oposição está unida a 60%.O processo está a caminhar bem, estamos a incorporar grupos. Tivemos uma reunião em Porto Rico com anticastristas de dentro e de fora de Espanha. Estamos a percorrer um caminho.

Um dos temas que divide a oposição é o embargo americano. É a favor do embargo ou defende que deve acabar?
Prefiro não me pronunciar pois é uma questão muito polémica entre a oposição. Não creio que o embargo prejudique muito Cuba. O embargo é um pretexto para se continuar a justificar a ineficiência económica do Governo. Não é o embargo o responsável por Cuba estar como está, Cuba está assim devido à ineficácia histórica que o comunismo já demonstrou. O embargo não é uma questão que se possa dizer acabou, resolveu-se. É um assunto multifactorial e pode acontecer que se ganhe por um lado e se perca por outro. O embargo vai continuar. Seja quem for o Presidente, só pode mexer no embargo com a aprovação do [Congresso] americano.

No ano que vem há eleições presidenciais nos EUA. Um Presidente republicano pode reverter algumas das decisões de Obama em relação a Cuba. Quem é o candidato que melhor serve os interesses da oposição cubana?
Seja republicano ou democrata, o que lhe pedimos é que retome a causa cubana, que dê continuidade à causa cubana.

Não receia que, dessa forma, o futuro de Cuba fique dependente de decisões dos EUA? Não vê nisso uma espécie de colonialismo político?
Não creio que seja colonialismo político. Penso que aos Estados Unidos não interessa investir em Cuba, que é um país descapitalizado.

O povo cubano, sobretudo o mais jovem, ainda defende a Revolução?
A juventude está a fugir do país. A revolução cubana não lhes quer dar liberdade e tem como objectivo manter-se a todo o custo no poder, e isso passa pela manutenção do conceito de totalitarismo. Sem o totalitarismo eles não podem fazer nada. Estamos a viver um momento em que o Governo não sabe como conter o povo e o povo tem medo do Governo.

Que medo é esse?
É uma coisa que está nos nossos genes porque desde pequenos que nos dizem “isso não se pode dizer”, “isso traz problemas”, “isso prejudica a tua família”. Tudo isto limita as pessoas, mas a situação económica é tão difícil que as pessoas já não têm medo de dizer o que pensam. Porém, se por um lado dizem o que pensam, do ponto de vista social ainda não se metem em política. Esse é um passo que ainda temos que dar e é um passo grande e corajoso. Mas quanto mais gente o der, melhor.

Vinte e quatro greves de fome — uma delas de 135 dias, em 2010 — debilitaram-no muito. Como está a sua saúde?
Está bastante pior. Tenho uma trombose da veia subclávia, tenho que tomar 11 medicamentos de manhã, três de noite.

A greve de fome continua a ser uma arma eficaz no combate político?
É poderosíssima. Se a circunstância o pedir, posso voltar a fazê-la. O principal resultado desta minha forma de luta não violenta foi a libertação de 116 presos políticos.