Opinião

Os rankings vistos ao contrário: o fundo da tabela e a política do palpite

Comemoramos hoje 14 anos de rankings. Em 2001, os rankings iniciaram uma revolução no modo como os portugueses se relacionam com a escola. Catorze anos volvidos, vemos já alguns resultados.

Até 2001, pouco sabíamos, de verdade, sobre o que se passava no sistema educativo português. Muita gente opinava sobre as escolas, mas o conhecimento que tinha sobre estas era baseado nas impressões que recolhia junto dos seus filhos, familiares, amigos, professores, colegas de trabalho. Na melhor das hipóteses, havia uns investigadores que faziam estudos de caso em pequenas amostras de escolas. A própria administração educativa (“máquina do ministério”) pouco sabia sobre o que realmente se passava nas escolas. Tinha uma montanha de dados à sua disposição, mas eram pouco coerentes, sem séries históricas relevantes. Muitos dados e pouca informação. As opções de política educativa ao mais alto nível eram tomadas com base em percepções vagas e ideias importadas do bom que se fazia lá fora. Vivíamos no reino do palpite.

A partir de 2001 isto começou a mudar. A vitória judicial do jornal PÚBLICO contra o Ministério da Educação deu origem ao primeiro ranking. Era uma lista ordenada de escolas em função dos resultados dos alunos. Foi muito contestada por ser “pobre”. Mas a verdade é que, pela primeira vez na história, soubemos algo sobre o que se passava nas escolas. Era pouco; mas foi um princípio. Hoje, além dos rankings tradicionais, temos indicadores mais robustos que o próprio PÚBLICO desenvolveu (Indicador da Promoção do Sucesso Escolar), temos uma página na Internet alimentada pelo ministério com imensa e importante informação sobre todas as escolas do país, temos muitos e alguns bem robustos estudos, feitos nas nossas melhores universidades, sobre processos e resultados escolares.

Mas há mais a fazer. Gostava de deixar duas ideias. Uma sobre o que se passa no fundo da tabela e outra sobre a forma de fazer política educativa.

Em primeiro lugar, a obrigação moral que todos os agentes sociais têm de olhar para o fundo da tabela. Fixámos os olhos no topo e discutimos quem lá está e porquê. Mas ninguém está a olhar para o caso das escolas que, consistentemente, estão no fundo da tabela.

Não podemos aceitar que nos digam que a culpa é dos alunos e das suas famílias. Não podemos aceitar que nos digam que há crianças que não podem aprender. Nem tão-pouco se trata de dizer que a culpa é das escolas ou dos seus profissionais. É irrelevante de quem é a culpa; o que é relevante é que ninguém faz nada – de verdade – para que se quebre esse ciclo de insucesso. O acesso a uma escola onde se aprende é a mais poderosa ferramenta de desenvolvimento pessoal e social que a sociedade pode oferecer às crianças e jovens. Fingir que nada se passa nestas escolas é negar às crianças que as frequentam o direito fundamental à educação. E isto é inaceitável.

Este não é o local nem o momento para discutir as causas desse insucesso. Mas é certamente o local e o momento para denunciar o abandono a que têm sido sujeitas gerações e gerações de portugueses cuja principal característica comum é frequentarem estas escolas. Antes dos rankings, o poder político e a administração educativa disfarçavam a situação; fingiam que o problema não existia. Com o surgimento dos rankings, têm ido atrás da atenção pública nos lugares de topo e na discussão sobre se estar no topo era por ser uma boa escola ou por ter bons alunos. Mas é tempo, repito, de olharem para o fundo da tabela. Aceitar que estar no fundo da tabela resulta das características dos alunos e que nada há a fazer é aceitar que nem todos conseguem aprender, que a escola não faz diferença e que a educação não serve como elevador social.

Quem aceitar isto não tem condições para trabalhar em educação.

Em segundo lugar, o novo mundo das políticas educativas. Hoje, o Ministério da Educação dispõe de informação (e não só dados) sobre o sistema educativo e cada um dos seus componentes como nunca antes. Não há mais espaço para política do “acho que” ou do sound bite mediático. A educação é demasiado importante para continuar assim. É preciso olhar para a informação existente e avaliar as políticas em vigor; olhar para a informação existente e projectar os resultados previsíveis de novas políticas; olhar para a informaç��o existente e definir instrumentos de monitorização da mudança. É preciso olhar para a informação existente e definir que novos dados são precisos para aumentar e melhorar o conhecimento disponível sobre o ensino e a aprendizagem.

Educar é mais que instruir. Mas não há verdadeira escola onde não houver uma clara consciência de que temos de garantir que os nossos alunos aprendem. É irónico que, enquanto os rankings transitam da adolescência para a idade adulta, a Assembleia da República decida, de forma praticamente unilateral, por opção ideológica e sem auscultar os parceiros sociais, a eliminação dos exames do 4.º ano de escolaridade.

Director executivo da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (Aeep)