Passos Coelho: “O PS hoje está de facto muito próximo do PCP e do BE”

i-video

Passos Coelho nega que tenha tido um discurso radical e brutal de afronta aos portugueses. Garante que hoje voltaria a dizer que os portugueses não podem ser “piegas”. E defende: “Não creio que hoje devamos ser mais complacentes ou devamos ser mais transigentes com o que são os nossos desafios e as nossas metas ou os nossos objectivos”. Quanto à esquerdização do PS, considera que ela é fruto da nova geração de dirigentes: ““É a mutação do PS que tem vindo a decorrer e que vale a pena observar, como ela é.”

O que correu mal para hoje estar sentado na oposição?
Não foi, com certeza, ter perdido as eleições.

Não se sente responsável pela situação criada, nomeadamente em relação ao relacionamento que teve com o PS?
Não me parece. Nós, durante quatro anos, cumprimos um mandato muito exigente e difícil e - não é demais recordá-lo – ultrapassámos uma situação limite, como nunca se tinha vivido no Portugal democrático. Isso marca evidentemente muito quer a forma como se governa, quer aquilo que é a vida nacional. Mas se houve marca que este Governo que liderei deixou, foi não apenas a determinação em superar os obstáculos importantes que tinha pela frente, mas também criar condições para encontrar consensos, pontos de diálogo e de concertação entre os parceiros. E conseguimo-lo fazer. Quer dizer, mantivemos uma coligação com todo o sector social, que foi decisiva para evitar rupturas sociais no país. Conseguimos na Concertação Social um ambiente positivo que permitiu que a recuperação económica surgisse sem que o caos tivesse chegado às empresas. Tivemos assinado um acordo de Concertação Social que valorizou os instrumentos de recuperação empresarial no país e conseguimos, de maneira geral, ter um diálogo muito aberto com todos os partidos.

É um facto é que esse diálogo não foi extensível ao PS.
Não é verdade. Nós dialogámos bastante com o PS e estivemos até, por mais de uma vez, sentados à volta da mesma mesa procurando encontrar pontos de criação de consensos alargados para reformas estruturais. Não conseguimos – isso é verdade – ter nenhum entendimento relevante com o PS nem sequer em torno daquilo que o PS tinha inscrito no Memorando de Entendimento como ambição e metas.

Houve o acordo sobre IRC.
É verdade. Foi um acordo que marca como excepção a regra, infelizmente não foi cumprido pelo próprio PS. Mas não vamos iludir a questão. Não vale a pena estar a atribuir culpas ao PSD pelo facto do PS ter optado por fazer um encontro teoricamente inverosímil com o PCP e também com o BE. Foi uma opção livre c consistente do PS. Seria até um bocadinho ridículo que se viesse procurar no Governo que eu liderei ou no PSD de hoje, qualquer responsabilidade por uma opção consciente que foi a que o PS tomou e que foi a de recusar qualquer apoio de negociação ao Governo que foi escolhido pelos portugueses nas eleições e ter preferido uma aliança com os partidos radicais no Parlamento para suportar o Governo minoritário do PS.

Estas situações em política não caem do céu. O facto é que António José Seguro se queixava de que as propostas do PS não eram aceites
Não gostava que na primeira entrevista que dou a seguir às eleições de ficar a discutir todo o passado.

Não é essa a intenção.
E julgo que seria até um bocadinho deslocado estar, num período em que o novo governo inicia funções, a revisitar o que foram os quatro anos passados. Mas insisto em dois pontos que acho que são importantes.

Deixe só colocar uma pergunta, não considera que ajudou levar o PS para a esquerda?
Não me parece. O PS durante quatro anos opôs-se a políticas de austeridade porque não podia aceitar nenhuma política de austeridade. O PS é o pai das políticas de austeridade em Portugal, no entanto. Iniciou-as antes do resgate ter sido pedido, cortou salários na administração pública, reduziu prestações sociais, acabou com o quarto e o quinto escalão do abono de família, prometeu fazer às pensões em pagamento o mesmo que tinha feito aos funcionários públicos, aumentou o IVA de 21 para 23% na sua taxa normal, nas taxas reduzida e intermédia aumentou-as também. Tudo isto aconteceu antes de eu ser primeiro-ministro. Quando eu fui primeiro-ministro e procurámos desenvolver o programa que estava no fundo prometido pelo próprio PS com os nossos credores internacionais e cumprirmos as metas que lá estavam estabelecidas, o que obrigou até a adoptar muito mais medidas do que as que estavam inicialmente previstas, o PS não esteve disponível para apoiar nenhuma. Porquê? Porque achava que a austeridade era má. Está bom de ver que esta era uma posição fácil e demagógica para quem tinha a responsabilidade de deixar o país à beira da bancarrota. Não nego, portanto, que os quatro anos que tivemos foram anos muito difíceis em que se eu tivesse de fazer a vontade ao PS estávamos exactamente como na Grécia no segundo ou terceiro resgaste. Agora não encontrem desculpas no resgate a que nos obrigaram para dizer que tivemos um Governo radical, que trouxe e lançou o PS para os braços do PCP ou do BE. Isso seria uma leitura completamente perversa.

O que aconteceu?
O que aconteceu em Portugal é que o PS, ao longo dos últimos anos, se foi, ao nível dos novos dirigentes que emergiram, aproximando do BE. Responsáveis do PS pensam exactamente a mesma coisa que pensam os dirigentes do BE. Acham que o que devíamos fazer era reestruturar a dívida. Acham que devíamos voltar a ter um sector empresarial do Estado significativo, em que o Estado fosse um agente relevante da actividade económica, que os bancos públicos deviam estar ao serviço das políticas do Estado e, portanto, os empresários deviam estar dependentes do Governo para obter o financiamento adequado para as suas actividades, que as corporações e os sindicatos devem ter muito mais poder impondo ao resto da economia, sem qualquer representatividade, aquilo que negoceiam em cada acordo colectivo e por ai afora. Quer dizer o PS está do ponto de vista programático muito mais perto do BE e do PCP do que a ideia que nós fazemos do que foi o PS que levou Portugal para a Comunidade Económica e Europeia, que connosco fez a revisão Constitucional para acabar com a irreversibilidade das nacionalizações.

A pessoa que estava à frente do PS era considerada uma das mais moderadas.
É verdade e foi substituído. Eu percebi a pergunta e não vale a pena ficarmos aqui a patinar. O que foi, de facto difícil, foi a situação do país não foi a vontade do Governo de não ter entendimentos com o PS. Nós enfrentamos uma situação muito difícil, ultrapassámo-la, felizmente. Não foi com a ajuda do PS. Não foi por isso que o PS se atirou para os braços do PCP e do BE. O PS hoje está de facto muito próximo do PCP e do BE porque pensa o papel do Estado, o papel da economia, o papel da sociedade civil devem ter uma configuração diferente, que está muito mais próxima do que é o pensamento predominante no BE ou no PCP ou do que no PS tradicional que nós conhecemos.

Mas já pensava assim.
Exactamente. E não é por acaso que o líder do PS derrotou o anterior e trouxe para o PS esta nova geração de pensamento político. É a mutação do PS que tem vindo a decorrer e que vale a pena observar, como ela é.

Mas não se entendeu com o anterior líder do PS.
Eu entendi-me com toda a gente em Portugal que quis olhar para a realidade e ultrapassá-la. Para quem quis ficar numa posição fácil de dizer mal dos problemas que tínhamos e olhar para o Governo e querer responsabilizá-lo por aquilo em que ele não tinha responsabilidade, aí não foi possível a gente entender-se. Tenho pena.

Gostava de falar dos últimos quatro anos ao nível do que foi a sua atitude e da imagem que passou para o país de que era o primeiro-ministro. Uma imagem de individualismo, auto-suficiência, de determinação e intransigência em que, por vezes, tinha um discurso político que atirava novos contra velhos, reformados contra activos, o público contra o privado. E que chegou mesmo a atingir, nos dois primeiros anos, picos de radicalidade discursiva.
Se puder dar exemplos.

Por exemplo quando a 6 de Fevereiro de 2012 proferiu a frase: “Quando as pessoas percebem que o que estamos a fazer está bem feito, então devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e não termos pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender”. Não se arrependeu de no discurso e na imagem ter tido uma atitude tão frontal e tão brutal?
Não sei o que essa afirmação tem de brutal. Eu diria hoje exactamente a mesma coisa. Nós precisamos de ter persistência, de ser determinados e de ser exigentes se queremos ser alguém e vencer no mercado global. Essa é a atitude que o país precisa de ter…

Foto

Não sente que foi excessivo?
… e não creio que hoje devamos ser mais complacentes ou devamos ser mais transigentes com o que são os nossos desafios e as nossas metas ou os nossos objectivos. Não vejo aí nenhuma radicalidade. Agora, é verdade que essa abordagem contrasta com aquilo que foi durante muitos anos a conversa mole que os políticos faziam com o país, a conversa de que, claro, quando há crime é a sociedade que tem culpa; quando as empresas não são produtivas é por que o Estado não faz o suficiente. O exercício da desculpabilização permanente está na origem do nosso atraso económico, social e político.

Nos últimos meses o seu discurso também foi mais mole.
Isso é a sua opinião. Eu fiz sempre, não apenas do ponto de vista discursivo, mas do que foi a minha prática política, o exercício oposto. O exercício de exigência, de disciplina, de determinação. E isso, penso eu, é o que pode ajudar o país a vencer os atrasos estruturais, a ser mais ambicioso a poder produzir mais riqueza. E, com isso, ter mais condições para ter mais justiça social. Porque não há nenhuma justiça social que se consiga alcançar num país subdesenvolvido ou pobre. É preciso encontrar forças, motores de geração de riqueza para podermos ter determinantes que nos permitam também distribuí-la de uma forma mais correcta em que, portanto, as oportunidades possam estar ao alcance de todos e não apenas de uma pequena parte da sociedade.

Como definiria o seu legado?
Eu não quero defini-lo. Prefiro dar objectivamente uma indicação do que encontrei e do que deixei e, depois, os jornalistas, os comentadores políticos farão a avaliação. Eu, quando cheguei ao Governo, tinha o Memorando de Entendimento para cumprir que era a contraparte de um financiamento gigantesco como nunca o país tinha pedido aos seus credores. Foram 78 mil milhões de euros que pressupunham uma acção tripla na estabilidade financeira, na reforma estrutural da economia e na consolidação orçamental. O país estava com um desemprego estrutural de dois dígitos. Estávamos com uma dívida externa galopante, em dez anos tínhamos duplicado a dívida externa e todos os anos tínhamos, em média, 9% a 10% de mais dívida a acrescentar à economia. Tínhamos um défice público superior a 11%, e tinha sido de mais de 10% no ano anterior, o que significa que, em dois anos, a dívida do Estado aumentou em 20%. O peso das exportações era inferior a 30%, eramos uma pequena economia pouco relacionada com o mercado global. Tínhamos uma sociedade muito centralizada com uma economia muito dependente das obras públicas e das decisões governativas e quatro anos depois deixo o oposto de tudo isto.

O quê?
Uma economia que está a crescer, que está a gerar emprego. Temos um nível de emprego muito próximo já daquele que encontramos quando o país teve de pedir ajuda externa. Temos três anos consecutivos de excedente sobre o exterior, o que durante décadas não aconteceu em Portugal. Temos o défice que está a caminhar para ser, pela primeira vez desde que integramos o euro, menos de 3%. Temos feito o saneamento financeiro do Estado, o que quer dizer que o Serviço Nacional de Saúde não está sob ameaça de interrupção de fornecimentos e de serviços por falta de pagamentos. Temos equilíbrio operacional nas empresas públicas, o que significa menos dinheiro a ser pago pelos contribuintes para os desequilíbrios da má-gestão. Temos uma sociedade em que as exportações representam mais de 43% do PIB e a perspectiva é de que, até 2020, possa ser de 50%. Temos, portanto, uma sociedade mais organizada, mais competitiva, que recebe investimento directo externo, que é essencial para o crescimento da nossa economia.

E temos mais emigração e mais dívida. Não diz o que é negativo.
E temos uma economia de políticas públicas em que reformas muito corajosas, penso eu, tiveram lugar desde a Justiça, à Saúde, à Educação, à Defesa. Deixo um país que tem não apenas uma dinâmica de crescimento, de confiança e de prestígio nos mercados externos. Mas também uma reforma lançada que nos permitirá crescer com mais intensidade se esse caminho for possível.