Macri transforma Kirchner em abóbora e chega à Casa Rosada de carruagem

Tomada de posse do novo Presidente da Argentina marcada por episódios dignos de uma telenovela. Tribunal corta presidência de Cristina Kirchner às 23h59 e Mauricio Macri consegue desfilar entre o Congresso e o palácio presidencial.

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Cristina Kirchner não podia candidatar-se pela terceira vez EITAN ABRAMOVICH/AFP
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Mauricio Macri representa um corte com o peronismo EMILIANO LASALVIA/AFP

Os argentinos deitaram-se na quarta-feira embalados pelos últimos momentos de mais de uma década liderada pelo casal Kirchner e levantaram-se na manhã seguinte preparados para darem os bons dias a um novo Presidente, Mauricio Macri, um dos raríssimos líderes em quase 70 anos que se recusam a carregar nos ombros a herança de Juan Perón.

Em linha com a importância histórica do corte com o peronismo, a cerimónia da transição de poder, esta quinta-feira, não poderia ter sido mais dramática, com episódios que fazem lembrar uma telenovela.

Mauricio Macri, o novo Presidente, exigiu receber os símbolos da Presidência na Casa Rosada (o palácio presidencial) depois de prestar juramento perante os deputados no Congresso – tal como era costume antes de Nestor Kirchner ter chegado ao poder, em 2003; Cristina Kirchner, a Presidente cessante, insistiu em despachar todas as questões cerimoniais no Congresso, tal como passou a ser costume quando o seu falecido marido foi eleito Presidente.

Em qualquer outro país do mundo, este diferendo poderia ser apenas simbólico, mas na Argentina nada é apenas simbólico – Macri pediu aos tribunais que tomassem uma decisão e acabou por vencer esta primeira batalha contra Kirchner, a ex-presidente que já prometeu ser o rosto da oposição nos próximos quatro anos.

Para os críticos de Macri, o novo Presidente não queria perder a oportunidade de se passear pelas ruas de Buenos Aires, entre o Congresso e a Casa Rosada, e sentir o calor dos seus apoiantes. Para os críticos de Kirchner, a Presidente cessante queria usar a maioria do seu partido no Congresso para tirar brilho à tomada de posse do seu sucessor.

A questão foi resolvida por uma juíza, que deu razão a um pedido de Macri e decidiu que o mandato de Kirchner terminava oficialmente às 23h59 de quarta-feira – o que a excluía de qualquer intervenção na cerimónia de tomada de posse, que decorreu esta quinta-feira, ao meio-dia. E durante essas 12 horas a Argentina ficaria sem chefe de Estado? Não, respondeu o tribunal: o lugar foi preenchido pelo presidente interino do Senado, Federico Pinedo, da coligação Cambiemos, liderada por Mauricio Macri.

Os defensores de Cristina Kirchner gritaram "golpe de Estado!", e a Presidente cessante anunciou que não iria sequer estar presente na cerimónia no Congresso para passar o testemunho ao sucessor, algo que nunca acontecera na Argentina pós-ditadura governada por uma junta militar entre 1976 e 1983.

O choque entre Maurício e Cristina foi tal que até o Twitter foi metido ao barulho. De um momento para o outro, a conta oficial da presidência argentina naquela rede social deixou de se chamar @CasaRosadaAR e passou a chamar-se @CasaRosada2003-2015, numa alusão ao período em que o casal Kirchner presidiu aos destinos do país.

Onde antes se lia, no espaço reservado à biografia, que aquela era "a conta oficial no Twitter da Casa do Governo da Argentina", lê-se agora que é "um tributo no Twitter às presidências de Nestor e Cristina Kirchner, de 25 de Maio de 2003 a 10 de Dezembro de 2015. Conta não oficial no Twitter desde 10 de Dezembro de 2015".

E assim terminou o drama que em outros países poderia ser apenas uma questão simbólica: Cristina Kirchner fez um discurso triunfal na Plaza de Mayo, na noite de quarta-feira, costas voltadas para a Casa Rosada e bem de frente para os milhares que foram dizer-lhe adeus, gritando e chorando como quem sofre com o fim de uma era – a era do kirchnerismo, filha de Nestor e Cristina e neta do peronismo de Juan e Eva.

"Não me obriguem a falar muito porque à meia-noite transformo-me em abóbora", ironizou Cristina Kirchner, numa indirecta à decisão judicial que lhe retirou os poderes à passagem de quarta para quinta-feira, recebendo em troca um coro de insultos contra o novo Presidente: "Macri cagón, sos cagón, Macri sos cagón."

O discurso de Cristina Kirchner foi, ao mesmo tempo, uma barragem de fogo contra o sistema judicial e uma jura de amor e fidelidade aos seus fiéis seguidores, muitos deles erguendo cartazes com a mensagem "Cristina 2019", o ano em que se realizam as próximas eleições presidenciais.

"Todos nós, argentinos, estamos em liberdade condicional neste momento. Violar a Constituição e pôr um Presidente por decreto não é uma coisa banal", disse Kirchner, voltando a denunciar a decisão judicial que lhe retirou a possibilidade de gerir a cerimónia da transição de poder.

Mas a mensagem principal foi um aviso ao futuro governo de centro-direita de Maurício Macri, a quem os kirchneristas acusam de querer desfazer a política de apoios sociais que foram a imagem de marca das presidências de Nestor e Cristina, depois do descalabro económico de 2001 – mas que é vista pelos seus opositores como uma política populista que acabou por voltar a pôr a economia argentina a caminho do desastre.

No seu discurso de tomada de posse, perante o Congresso, o novo Presidente prometeu combater o narcotráfico, unir o país e reduzir a pobreza a zero, reafirmando que não destruirá os programas sociais do kirchnerismo ao mesmo tempo que incentiva a iniciativa privada e corta as relações privilegiadas com os governos de países como a Venezuela e a Rússia e se aproxima dos Estados Unidos e da União Europeia.

"Hoje realiza-se um sonho. Uma época inteira chega ao fim sem violência. Isto, que parecia ser tão difícil, tornou-se realidade. Temos de ser optimistas", declarou Macri, deixando uma promessa: "Este governo vai trabalhar incansavelmente estes quatros anos para que os argentinos vivam melhor."