Não são ruínas, senhor

No centro de Arqueologia, de Balla, estão os sintetizadores analógicos...

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O título do novo álbum dos Balla de Armando Teixeira, Arqueologia, remete para o processo e para os materiais que o fizeram nascer: no centro de tudo, os sintetizadores analógicos que se acumulam no seu estúdio como em museu de, lá está, arqueologia pop. Mas esta arqueologia é actuante. Armando Teixeira não se limita a observar os sintetizadores enquanto explica ao ouvinte a natureza do seu som e as suas aplicações possíveis nos anos 1970 ou 1980 em que foram fabricados.

Balla é encarnação pop deste criador multifacetado que já foi do rock industrial (Bizarra Locomotiva), do hip hop mas não exactamente (os primeiros Da Weasel), do cabaret soturno (Boris Ex-Machina) e do hip hop, ainda não exactamente, como banda-sonora (Bullet). Arqueologia mantém essa identidade pop, enquanto, no mesmo gesto, funciona como homenagem em canção ao som feito futuro que os sintetizadores ofereciam (oferecem) ao universo da música popular urbana.

O homem que, em Le Jeu, se retratou em capa como o romântico arranca-corações Gainsbourg (um irresistível apaixonado canalha) e que fez a música ali gravada em 2003 corresponder à imagem que apresentava o disco, ilustra agora Arquelogia com um trabalho gráfico sobre uma foto de ruínas da Antiguidade (e é importante falar da arte gráfica do álbum, dado que este é, também, um livro ilustrado de 60 páginas).

O método desta arqueologia tem objectivos precisos: trazer a memória para o presente pop. Kraftwerk, Moroder, Air, Orchestral Manoeuvres In The Dark, Cabaret Voltaire, New Order, filtrados para canções iminentemente pop; com a voz de Armando Teixeira acompanhada aqui e ali pelas de Chu Makino, Toi ou Candy Wu; com versos, refrães e pontes bem desenhadas, com secção rítmica a assegurar movimento robótico à dança (Pedro Monteiro, baixo, e Bruno Cruz) e o saxofone de Rodrigo Amado soprado muito elegante, muito melodioso (quase imaginamos uns Heróis do Mar em modo synth-pop em Contra a parede), ou zumbindo ameaçador sobre batida minimal e sintetizadores rugosos (Sobressalto é canção de destaque).

Arqueologia nem sempre se mantém à tona da revisita nostálgica Mentir melhor (No promisses) será disso bom exemplo), mas mostra uma sagacidade pop capaz de dar coerência à diversidade de “homenagens”: da viagem espacial com os velhos Air no horizonte de Com olhos de gigante, à synth pop ao encontro de dramatização Pop Dell’Arte em Perfeito quadrado, a uns Kraftwerk para a idade chillwave em Carbono 14. Não é de ruínas que trata esta Arqueologia dos Balla.