Pacheco Pereira desafiado a sair do PSD "pelo próprio pé"

Ângelo Correia e Duarte Marques criticam a posição crítica do historiador e participação em acções de candidaturas presidenciais de esquerda, mas recusam expulsão do partido. Pacheco diz que foi o PSD que mudou e elogia Marcelo Rebelo de Sousa.

Daniel Rocha
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Daniel Rocha

O ex-deputado Pacheco Pereira foi esta terça-feira desafiado a sair do PSD pelo próprio pé pelo dirigente social-democrata Duarte Marques, que considera “incoerente Pacheco Pereira continuar a ser militante do PSD”. "Alguém que passa 95% do tempo a dizer mal do partido, se fosse coerente, saía pelo próprio pé", reafirmou Duarte Marques ao PÚBLICO, insistindo na ideia que defendeu primeiro ao jornal i.

O ex-presidente da JSD não se surpreende, aliás, que Pacheco Pereira vá participar, como o próprio já admitiu, em acções organizadas pelas candidaturas presidenciais de Sampaio da Nóvoa e Marisa Matias. “Acho perfeitamente normal e coerente com tudo o que disse nos últimos cinco anos”, diz Duarte Marques. O problema para os dirigentes do PSD é a continuidade do historiador nas fileiras sociais-democratas. “Se pensasse como ele, teria vergonha de ser militante do PSD”, critica Duarte Marques.

O i diz que a possibilidade de expulsão de Pacheco Pereira já foi discutida “ao mais alto nível” dentro do partido, mas Duarte Marques ignora este debate. "Eu não acredito que alguém com responsabilidades no partido tenha pensado seriamente nesse assunto", afirma ao PÚBLICO.

Também o ex-deputado pelo PSD Ângelo Correia, citado pelo i, é contra uma expulsão de Pacheco Pereira do partido, até porque isso é “a vontade dele: manter-se no PSD e esperar alguma sanção”, “ser provocado e ser mártir”.

Os estatutos do PSD são claros: “Cessa a inscrição no partido dos militantes que se apresentem em qualquer acto eleitoral nacional, regional ou local, na qualidade de candidatos, mandatários ou apoiantes de candidatura adversária da que foi apresentada pelo PPD-PSD.” É permitida oposição interna no partido, mas apoiar uma candidatura que não a de Marcelo Rebelo de Sousa pode constituir “quebra”.

No blogue Abrupto, Pacheco Pereira já disse que participará em debates das candidaturas de Sampaio da Nóvoa e Marisa Matias, mas sem ser “propriedade” de nenhuma candidatura presidencial. O político diz ter sido “convidado” e que não se furta a “discutir Portugal e os portugueses”. “Se entender vir tomar posição pública, tomá-la-ei, até lá interessa-me mais a discussão e o debate público”, conclui Pacheco Pereira.

Esta participação de Pacheco Pereira em acções potencialmente críticas do anterior Governo é a última de uma longa lista de posições desaprovadoras do ex-deputado em relação ao seu próprio partido. Muito crítico de Passos Coelho, Pacheco Pereira tinha intervindo, em 2013, nas reuniões da Aula Magna organizadas por Mário Soares para repudiar a “engenharia cultural, social e política” da direita. Em 2014 disse que não iria votar a favor do Governo PSD-CDS/PP nas eleições europeias, promessa que repetiu para as legislativas deste ano.

Marcelo é "o que o PSD já não é"
Em entrevista à Antena 1 divulgada nesta terça-feira, o historiador foi mais explícito: "Uma coisa é participar em acções programadas, outra coisa é apoiar uma candidatura.” E se Marcelo o convidar para participar nalguma acção? “Depende do contexto”, responde, sem escamotear que vê com bons olhos a candidatura do ex-presidente do PSD.

Pacheco Pereira reconhece “o esforço que Marcelo Rebelo de Sousa está a fazer para colocar a sua candidatura no centro-direita”. Tal não é fácil, afirma, uma vez que “o PSD virou tanto à direita que é inevitável que haja fricções entre a candidatura de Marcelo e os partidos que o vão, inevitavelmente, apoiar”, justifica.

Por seu lado, analisa Pacheco Pereira, Marcelo "não se limita a colocar a sua candidatura numa posição mais centrista, não, ele quer que haja uma fronteira com a direita", e isso diz ser “positivo a prazo”. Porquê? “Marcelo Rebelo de Sousa pode vir a ser – e não tenho dúvidas de que será, de acordo com as circunstâncias – um bom apoio para o governo de esquerda”, tendo em conta o seu entendimento da função presidencial, mas também a sua “preocupação social”, que Pacheco afirma ser “genuína”. “Ele no fundo corresponde àquilo que era o PSD e infelizmente hoje não é.”

A jornalista Maria Flor Pedroso constata, e Pacheco concorda, que o PSD e o CDS vão apoiar um candidato que não defende as suas ideias. “Não estou a dizer que não haja alguma identidade de pontos de vista, mas quanto àquilo que quereriam que acontecesse, há 50 mil sinais de que não o vai fazer.”

Questionado sobre se está confortável nas fileiras do PSD, o antigo dirigente social-democrata reconhece que não. "Por uma razão, provavelmente quixotesca: eu entendo que, para a vida política portuguesa, a existência de um partido reformista com a tradição genética que vem de Sá Carneiro e histórica do PSD é fundamental, o PS não chega. Sem essa tradição não é possível fazer reformas de fundo em Portugal", explica.

Para Pacheco Pereira, o problema está no esvaziamento do centro. "O que eu penso é que é necessário a prazo reconstruir um centro político diferente. Eu exerço a minha actividade cívica tendo preocupação de ser fiel àquilo que é o programa do PSD – quem não fiel é a actual direcção –, evitando qualquer choque com os estatutos do partido. Eu nunca apoiei nenhuma candidatura contra o PSD, mas isso não significa que tenha de apoiar a candidatura do PSD. Sá Carneiro nunca quis que o PSD fosse um partido de direita e há muito mais gente no PSD que concorda comigo", afirma.