Opinião

Le Pen e Lisboa

1. Poucas coisas serão tão graves e perigosas para o futuro dos europeus como a cavalgada do radicalismo e do populismo. Os resultados da Frente Nacional na primeira volta das eleições regionais francesas são uma péssima notícia. Não são, todavia, um fenómeno isolado. Em países tão desenvolvidos e exemplares como a Noruega e a Suíça, a direita radical faz parte das coligações de governo. E na Finlândia os populistas, nacionalistas e eurocépticos Verdadeiros Finlandeses estão no poder. Na Hungria, o Jobbik, autêntica extrema-direita representa mais de 15% dos votos e os conservadores do Fidezs, no Governo com larga maioria, outrora pertencentes a um centro-direita moderado, guinaram largamente à direita, distinguindo-se por uma agenda nacionalista e de sinal quase autoritário. Na Áustria, o Partido da Liberdade, que esteve no Governo com o seu fundador Haider, continua a ter resultados substanciais, na casa dos 20%. Na Holanda, o seu homónimo Partido da Liberdade, liderado pelo carismático Geert Wilders, com avanços e recuos, detém uma grande implantação. Na Suécia, a posição dos Democratas Suecos, de direita radical, não pára de se fortalecer: depois de uns surpreendentes 13% nas últimas legislativas, que obrigaram os partidos centrais a fazer um pacto de exclusão da extrema-direita do Governo por 12 anos, subiram agora nas sondagens para a casa dos 25%-30%. Na Dinamarca, o Partido do Povo, antes claramente situado na direita radical e hoje num aparente processo de moderação em direcção a um conservadorismo de tipo britânico, é, mais uma vez, um partido indispensável ao suporte parlamentar do Gabinete. Na Grécia, conhecemos o êxito dos quase nazistas da Aurora Dourada e da direita radical dos Gregos Independentes, coligada com o Syriza no Governo. Este, por sua vez, fez-se uma incógnita: depois de ter vencido umas eleições com um extremismo de esquerda assumido, que empurrou a Grécia para um novo resgate, acabou por fazer marcha atrás e ganhar novas eleições para executar a agenda do resgate europeu, que é em tudo contrária ao seu código genético. Ninguém pode dizer o que dali sairá. Um caso de radicalismo e populismo de esquerda muito pronunciado, idêntico ao do Syriza na versão original, é o do Podemos espanhol, que, após ter tido resultados exponenciais em sondagens, parece agora registar um resultado forte, mas em nítida queda relativamente às primeiras expectativas. Caso diverso é o do italiano Movimento Cinco Estrelas que persiste em rondar os 25%, com um discurso populista e nacionalista, apologista de uma democracia directa em plataforma virtual, mas difícil de caracterizar como esquerda ou direita – se bem que no Parlamento Europeu se tenha juntado aos movimentos de direita radical. Também mais relapso a qualificações é o UKIP britânico que, no entanto, em razão do seu nacionalismo radical, da sua agenda xenófoba e do carisma populista do líder Nigel Farrage, acaba por ter muito em comum com a extrema-direita europeia. A merecer ainda uma menção está o Lei e Justiça, agora no Governo da Polónia com maioria absoluta, que não é exactamente um movimento radical de direita. Tratar-se-á mais de uma direita conservadora, oriunda de algum fundamentalismo católico, baseada num nacionalismo construído simultaneamente contra os fantasmas da hegemonia russa e alemã. Apesar disso, o Lei e Justiça respeita as regras democráticas e do Estado de Direito, gostando de se ver retratado como o homólogo eslavo do conservadorismo britânico (o que não é propriamente exacto). Importa, aliás, acrescentar que este “nacionalismo” e as desconfianças em relação à Europa perpassam os partidos centrais de países como a República Checa e a Eslováquia, constituindo assim um eixo com a Polónia e a Hungria (precisamente o eixo do Grupo de Visegrado).

           

2. A relevância e proeminência de partidos extremistas, com as suas agendas radicais eivadas de proteccionismo e nacionalismo, quiçá de xenofobia, acaba por influenciar e capturar as posições e os programas dos partidos moderados, puxando-os mais para a direita ou mais para a esquerda, consoante os casos. Em França, é evidente que Os Republicanos de Sarkozy carregam hoje nos temas da segurança e da imigração para poderem competir com a Frente Nacional. E, no Reino Unido, a saga de David Cameron contra a liberdade de circulação e a reclamação da reavaliação das relações com a União Europeia não é senão uma reacção à pujança do UKIP e das suas cruzadas. O sucesso, ainda que temperado, dos radicalismos e extremismos radicaliza e extrema as posições dos moderados que com eles têm de competir.  

3. Esta recensão dos êxitos dos partidos e movimentos políticos extremistas e radicais, de direita e de esquerda, mostra bem que o sucesso de Marine Le Pen e da Frente Nacional não é um problema francês. É e será um problema europeu. Não apenas porque a simples emergência da direita radical na direcção política da França poria em causa a União Europeia, mas porque o fenómeno está longe de ser um exclusivo francês. Mas é também hoje um problema português. Tenho repetido muitas vezes, em escritos e na televisão (ainda o fiz na semana passada): no Parlamento Europeu a extrema-esquerda e a extrema-direita votam quase sempre no mesmo sentido! Não foi, aliás, por acaso que Le Pen rejubilou com a primeira vitória de Tsipras. Sim, o Bloco de Esquerda e o PCP, no Parlamento Europeu, têm uma identidade de posições quase sistemática com a direita radical, nacionalista, proteccionista e anti-europeia. E, por isso, tenho insistido tão veementemente nos perigos de a actual solução governativa portuguesa depender do radicalismo, do extremismo e do populismo do Bloco e do PCP. Mais do que a questão da legitimidade, apoquenta-me o sequestro do PS por este tipo de ideias e de forças políticas.  

SIM. Hilary Benn. O ministro-sombra dos negócios estrangeiros dos trabalhistas ingleses fez um discurso notável a favor dos ataques britânicos ao Daesh. A melhor tradição parlamentar ao serviço dos valores ocidentais.  

NÃO. António Costa. A exibição da vida familiar na imprensa cor-de-rosa e até na posse do Governo contrariam a habitual e salutar discrição dos políticos portugueses e a tão apregoada ética republicana.