Brasil

Quando os heterónimos de Eça e Pessoa se encontram

Bernardo Soares e Carlos Fradique Mendes - ou melhor, Jerónimo Pizarro e Carlos Reis -  encontraram-se para uma conversa na Biblioteca Joanina, para o encerramento dos 725 anos da Universidade de Coimbra (UC). Com um saco de pano vermelho que comprou numa livraria de Madrid que se chama “Tipos Infames”, o especialista em Fernando Pessoa Jerónimo Pizarro apresentou o que se ia passar a seguir. “Somos dois tipos infames a falar de outros dois tipos infames que poderiam ser o Bernardo Soares e o Fradique Mendes ou semi-infames por serem semi-heterónimos e pensemos que esta é uma conversa a dois sobre duas personagens que estamos a tentar aproximar.”

Os académicos Carlos Reis e Jerónimo Pizarro, um a viver em Coimbra e outro a viver em Bogotá, começaram há meses a trocar emails e a fazer uma espécie de esqueleto de guião. “A ideia era dialogar mas de uma forma que permitisse ver que entre o Bernardo Soares e o Fradique Mendes há linha de continuidade”, explica ao PÚBLICO o professor de Coimbra acrescentado que se se olhar para os textos isso verifica-se. “O Eça de fim de século, chamado o último Eça, estava de facto no caminho daquele modernismo que passava pelo desdobramento de personalidades. Fradique Mendes não chega a ser um heterónimo como os de Pessoa mas é uma experiência que aponta nesse sentido.”  

Jerónimo Pizarro, por sua vez, explica que estes dois semi-heterónimos talvez os únicos e mais conhecidos da literatura portuguesa fazem parte da mesma família. “Há grandes afinidades entre o Bernardo Soares de Livro do Desassossego e o Fradique Mendes da Correspondência de Eça de Queirós. Mantivemos um diálogo com quatro temas principais em que pudéssemos sugerir a necessidade de se confrontar muito mais estas duas personagens” da literatura portuguesa. O tema da língua obviamente que tinha de ser abordado, a cidade de Coimbra mais no caso de Fradique, a cidade de Lisboa no caso de Bernardo Soares. A conversa antecedeu fez parte do Tudo Língua, evento organizado pelo PÚBLICO e pela UC, e antecedeu o concerto da cantora brasileira Adriana Calcanhotto que foi escolhida como primeira Embaixadora da Universidade de Coimbra no Brasil.

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