Pingue-pongue entre dois tipos infames e uma embaixadora na Biblioteca Joanina

O PÚBLICO e a Universidade de Coimbra juntaram Fradique Mendes e Bernardo Soares, com a ajuda de dois académicos. No dia em que Adriana Calcanhotto passou a ser embaixadora da universidade e cantou com o retrato de D. João V ao fundo.

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Adriana Calcanhotto é a nova embaixadora da Universidade de Coimbra (UC). O anúncio foi feito pelo reitor, João Gabriel Silva, durante o evento Tudo Língua, concebido pelo PÚBLICO e organizado em parceria com a UC, e que encerrou as comemorações dos 725 anos da Universidade de Coimbra esta sexta-feira, ao final da tarde, na Biblioteca Joanina.

Esta universidade, património mundial desde 2013, quer ser um lugar “onde todo o mundo de expressão de língua portuguesa se sinta em casa e sinta que contribui e que aprende”, vincou o reitor, explicando que, para isso, precisa de embaixadores e que a compositora e cantora brasileira aceitou ser a primeira na área da língua e da cultura.

Este convite, explicou o reitor mais tarde ao PÚBLICO, serve “para reforçar e tornar mais actual” a ligação “profunda e ancestral” da universidade ao Brasil e vice-versa, assumindo que, para já, esta aventura ainda não tem contornos definidos. A embaixadora, por sua vez, disse que o que sabe fazer é cantar: “Coimbra já nos ajudou muito e este é o momento específico em que o Brasil precisa de novo, desesperadamente, da ajuda da universidade. O que eu puder fazer, farei”, garantiu ao PÚBLICO.

Este Tudo Língua, que, além do concerto de Adriana Calcanhotto, com a participação especial de Arthur Nestrovski, incluiu uma conversa entre heterónimos – Carlos Fradique Mendes e Bernardo Soares –, protagonizada pelos académicos Carlos Reis, especialista em Eça de Queirós, e Jerónimo Pizarro, grande conhecedor da obra de Fernando Pessoa, nasceu a partir da expansão do PÚBLICO para o Brasil e de projectos como Minha Língua, Minha Pátria, no campo da literatura, que o jornal tem realizado naquele país e que vai passar a fazer também em Portugal no próximo ano.

Dois tipos infames

A abrir a sessão, e mostrando as palavras “Tipos Infames” impressas num saco de pano vermelho que comprou na livraria de Madrid com o mesmo nome, o especialista em Pessoa descreveu assim o que ali se ia passar: “Somos dois tipos infames a falar de outros dois tipos semi-infames [por serem semi-heterónimos], o Bernardo Soares e o Fradique Mendes. Esta é uma conversa a dois sobre duas personagens que estamos a tentar aproximar.” E foi isso que se passou na hora seguinte, onde foi abordado o tema da língua, a cidade de Coimbra, a cidade de Lisboa, o tédio e a lassidão, a herança dos vencidos da vida no decadentismo de Pessoa, bem como a questão das influências literárias e do satanismo num e no outro.

“Foi um fecho com chave de ouro das comemorações dos 725 anos da Universidade de Coimbra”, disse João Gabriel Silva no final do concerto que se seguiu, “pela plena celebração da língua portuguesa em sabores vários” e porque estabeleceu, “de maneira muito intensa, o carácter alargado desta universidade que continua a ter o mundo da língua portuguesa como o seu aconchego”.

Na sala, há um piano, que mostra que pontualmente se realizam ali espectáculos, mas com “esta envolvência e com esta sofisticação é muito raro”, acrescentou o reitor, que se tem esforçado por aumentar o uso para fins culturais de alguns espaços da universidade, como o da Sala dos Capelos.

A Biblioteca Joanina tem ao centro um gigantesco retrato de D. João V, o rei que ordenou a sua criação, dando indicações claras para que o melhor do conhecimento até ali reunido constasse das suas prateleiras. A biblioteca é, além do mais, o maior monumento barroco não-religioso que se conhece no mundo, lembrou ainda o reitor. “É claro que D. João V nunca imaginaria que à vista do retrato dele haveria de se fazer um espectáculo assim. Mas D. João V está lá no tempo dele e nós estamos no nosso e, com todo o respeito, podemos actualizar a memória do João V”, acrescentou Carlos Reis.

Reportório à medida

Adriana Calcanhotto, de capa e de vestido preto, começou por cantar a capella. Do seu reportório fez parte um tema de um trovador provençal do século XII, Arnaut Daniel, traduzido pelo poeta brasileiro Augusto de Campos, mas também uma cantiga de amor de D. Dinis, “pela ligação com a universidade” e “os pilares da poesia portuguesa”: Camões e Pessoa. Ouviu-se Mário de Sá-Carneiro musicado pela própria, a poesia de Adília Lopes, um canto tradicional português da colheita da azeitona ou Com que Voz, soneto de Camões que Amália imortalizou. Isto porque, ao conversar com o director artístico da Orquestra Sinfónica de São Paulo, Arthur Nestrovski, que pela primeira vez em Coimbra a acompanhou ao violão, chegaram à conclusão de que seria importante no concerto falar sobre o reportório. “Só fazer as canções sem explicar o motivo de elas estarem ali causaria a impressão de que são lindas canções mas poderiam ser outras”, explicou Calcanhotto. E, à medida que foram escolhendo as canções, foram descobrindo mais histórias.

A cantora não se lembrava que o poema Canção do Exílio tinha sido escrito quando o poeta brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864) estudava na Faculdade de Direito de Coimbra. “Minha Terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sábia;/ As aves, que aqui gorjeiam/ Não gorjeiam como lá” foi lido pela cantora, tendo sido feita a ligação com a canção Sabiá, com música de Tom Jobim e letra de Chico Buarque, que escreveu esta canção no Rio de Janeiro em 1968, pouco tempo antes de ele próprio ter passado pela experiência de exilado em Roma, para onde foi nos primeiros dias de 1969. Tem versos como: “Quero deitar à sombra de uma palmeira que já não há/ Colher a flor que já não dá”.

Outra dessas ligações no concerto foi a que misturou a canção Coimbra com a brasileira Chega de Saudade, que Calcanhotto não se lembra de a ter cantado alguma vez em público. Este pingue-pongue entre vários temas e canções foi uma maneira muito inteligente de juntar as duas maneiras de falar a mesma língua e os dois países e encaixou-se perfeitamente no mesmo pingue-pongue que os académicos tinham feito com as personagens literárias. “O espectáculo foi concebido para aqui, e ponto final”, assegurou a cantora ao PÚBLICO.

Essa foi também a graça do evento, que só estava aberto a convidados. Ricardo Pereira, director da TV Globo em Portugal, que foi um dos patrocinadores do evento, realça que “só o lugar” onde se realizou o Tudo Língua “já criou uma liturgia desse encontro da língua”.

Ricardo Pereira, que já vive em Portugal há alguns anos, sentiu o concerto de Calcanhotto como uma coisa mágica e irrepetível. Para o antigo jornalista da Globo, que descobriu Pessoa na juventude, ouvindo os discos de Maria Bethânia, o autor de O Livro do Desassossego, de onde sai Bernardo Soares, era quase um poeta brasileiro. “Hoje, aqui [em Portugal], reconheço músicas que conhecia no Brasil cantadas por Ângela Maria ou por Cauby Peixoto que eram fados, como Foi Deus. Já estivemos muito mais perto, é uma pena que a gente tenha se afastado. Mas, quando se ouve Sabiá desse jeito, naquele lugar, percebe-se que estamos grudados. Há o ‘tanto mar, tanto mar’ [de que fala a canção de Chico Buarque], mas isso nos junta também.”