Doris Salcedo escreve com água os nomes dos que se afogaram ao tentarem chegar à Europa

Palimpsesto, sobre os que morrem afogados ao tentarem chegar à Europa, é uma encomenda do Museu Reina Sofía e chega ao Palácio de Cristal del Retiro (Madrid) a 5 de Outubro de 2017, para ficar até Março de 2018.

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Palimpsesto é uma instalação para o Museu Reina Sofía, Madrid Rui Gaudêncio

Doris Salcedo está de volta: a artista colombiana prepara uma instalação para o Museu Reina Sofía (Madrid), em que homenageia, uma vez mais, vítimas. Desta vez, as vítimas que todos os anos morrem afogadas ao tentarem chegar à Europa.

Palimpsesto chega ao Palácio de Cristal del Retiro (Madrid) a 5 de Outubro de 2017 e ficará até Março de 2018. Em 212 painéis feitos em areia, sobre os quais os visitantes vão poder caminhar, a artista escreverá com água os nomes de centenas de migrantes que morreram afogados no Estreito de Gibraltar, nos últimos anos, numa instalação que vai ocupar 1100 metros quadrados do espaço.

A instalação foi encomendada à artista depois de Salcedo ter sido distinguida com o Prémio Velázquez, em 2010, um galardão atribuído pelo Ministério da Cultura espanhol. Ao diário espanhol El País, o director do museu madrileno, Manuel Borja-Villel, justificou a encomenda: “encomendarmos uma obra a quem ganha [o Prémio Velázquez] não é uma norma escrita, mas pareceu-nos oportuno fazê-lo no seu caso [de Doris Salcedo]”.

O mote do trabalho não causa estranheza: “Os seus temas relacionam-se com o sofrimento e a marginalização dos mais carenciados, dos que não têm voz”, explicou Manuel Borja-Villel ao mesmo jornal. E a artista confirma-o: numa entrevista ao PÚBLICO, em 2011, por altura da exposição Plegaria Muda no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), disse: “[…] a mim interessa-me contar a história do vencido, porque a história do vencedor já está contada”.

E em todo o seu percurso, Doris Salcedo lembra o vencido, que ganha forma nos mortos e naqueles que foram esquecidos. A artista, que não quer falar sobre o último trabalho enquanto não estiver concluído, explicou na mesma entrevista ao PÚBLICO, em 2011, porque trabalha sempre a figura da vítima nas suas obras: “É o mundo que conheço. Venho de um país em que tudo foi violento: a conquista, a colonização, a descolonização. E a história da violência permanece”. Para Salcedo, “a arte pode trazer quem morreu de regresso à vida […]. A arte devolve esse ser à esfera do humano”.

A artista, conhecida por trabalhos como Istanbul, criado para a Bienal de Istambul em 2003, e Shibbolett (2007), que fez para a Tate Gallery, em Londres, já fez trabalhos e exposições um pouco por todo o mundo. Entre Junho e Outubro, o Guggenheim Museum, em Nova Iorque, dedicou-lhe uma retrospectiva, descrevendo o seu trabalho como “profundamente poético”.