Editorial

Esvaziar a caixa registadora do ISIS

Tem aumentado a agressividade verbal com Moscovo, mas o Kremlin toca num ponto sensível.

Os atentados de Paris aceleraram o arregimentar das tropas da coligação contra o autoproclamado Estado Islâmico (EI). Cameron levou a votação uma moção a defender a necessidade de acção militar britânica contra o EI na Síria, tal como no Iraque. E a Alemanha também respondeu ao apelo de Hollande e vai levar ao Bundestag durante esta semana uma proposta para enviar para o Médio Oriente um contingente de 1200 soldados.

Os ataques aéreos contra os jihadistas por parte da coligação liderada pelos EUA não têm tido resultados satisfatórios e dificilmente terão enquanto Barack Obama e Vladimir Putin não se entenderem sobre o futuro de Bashar al-Assad na Síria. Não se põem de acordo sobre os alvos a combater e o abate de um avião russo junto à fronteira da Síria por parte da Turquia acrescentou bastante ruído diplomático onde antes já havia uma grande barulheira.

Aliás, percebeu-se esta quarta-feira, pela reacção exasperada da Rússia em relação ao alargamento da NATO a leste, o clima de crispação entre Vladimir Putin e os países vizinhos da Aliança Atlântica. Moscovo classificou a aprovação da entrada do Montenegro como “uma provocação”.

É neste clima de guerra fria que responsáveis do Ministério da Defesa russo vieram esta quarta-feira fazer uma conferência de imprensa para mostrar imagens de satélite de camiões-cisterna carregados de petróleo que supostamente foram abastecidos em instalações controladas pelo EI na Síria e no Iraque e que atravessam a fronteira rumo à vizinha Turquia. Diz o ministro adjunto da Defesa russo que “a Turquia é o maior consumidor de petróleo roubado à Síria e ao Iraque”. O Kremlin vai mais longe, acusando o próprio Presidente Erdogan e membros da família de estarem envolvidos no contrabando de combustível com origem em territórios controlados pelo EI.

Estas denúncias, que Ancara classifica de “calúnias”, têm naturalmente de ser enquadradas no tal clima de guerrilha verbal entre os dois países, mas não podem ser ignoradas. É uma evidência que uma das principais fontes de financiamento do ISIS é o petróleo das zonas ocupadas, que é vendido a metade do preço de mercado, ajudando a engordar os cofres dos terroristas, que, segundo o Le Monde, terão um orçamento anual de quase três mil milhões de euros.

É uma capacidade financeira tal que permite não só recrutar, armar e treinar jihadistas, mas também construir uma logística e uma rede sofisticada que faz com que a operacionalidade do EI não fique totalmente exposta e dependente das zonas onde estão a acontecer os bombardeamentos. Os EUA dizem que os custos da reconstrução e a destruição do ganha-pão daqueles que dependem desta indústria são argumentos suficientes para não bombardear as infra-estruturas nas mãos do EI. É um argumento plausível, mas que se perde quando se questiona o porquê de não seguir o rasto de camiões-cisterna e perceber quem é que, do lado da compra, anda a financiar o terrorismo em troca de petróleo barato.

A máquina de fazer dinheiro do Estado Islâmico