Entrevista

Mayumi Nishimura: O que cozinha a chef macrobiótica de Madonna?

Durante quase dez anos, a japonesa Mayumi Nishimura cozinhou comida macrobiótica para Madonna, a família e os convidados, entre os quais Sting e Al Gore. “Todos gostavam” desta alimentação que é um caminho para a paz mundial, garante.

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Mayumi Nishimura Miguel Manso

Vegetais, cereais integrais, algas. Nada mais simples. Foi com base nisso que a chef macrobiótica japonesa Mayumi Nishimura preparou recentemente um jantar na Cantina da Estrela, em Lisboa: sopa de miso branco, salada de pepino e rabanete, tempura de taro e arroz, quadrados de cenoura e yuzu, alga hiziki com tofu e gengibre, arroz com badana e cebola, legumes com sésamo tostado. Convidada pelo Instituto Macrobiótico de Portugal, deu ainda um workshop para ensinar a fazer a comida que durante anos cozinhou para Madonna e a família desta.

O que distingue a alimentação macrobiótica da vegetariana ou vegan?
Na macrobiótica não limitamos o consumo de nenhum alimento. O ideal é comer cereais integrais e vegetais que crescem na área onde se vive, de preferência biológicos, e algumas leguminosas, algas, sementes e frutos secos, além das frutas nas suas épocas. Pode-se comer peixe, se se quiser. Tudo se pode comer com moderação. Até carne. Só é importante perceber o que nos faz.

Comemos mecanicamente quando temos fome, mas se percebermos que a comida que estamos a pôr na boca está a fazer o nosso sangue, a criar as nossas células, os nossos órgãos, é natural que queiramos escolhê-la.

Nada é proibido, então?
Não. As pessoas pensam isso, mas não é assim.

É um tipo de alimentação que cada pessoa pode adaptar?
Sim, se tivermos cem pessoas, cada uma tem necessidades diferentes. O que tentamos ensinar na escola [de macrobiótica] é o básico que se pode fazer em qualquer lado, em qualquer país que se visite. Pode-se sempre encontrar cereais, vegetais e leguminosas, não é? Mas em alguns sítios não se encontra peixe, carne ou lacticínios.

É muito mais fácil encontrar cereais refinados do que integrais.
Porque toda a gente quer ganhar dinheiro e preferem fazer a comida refinada. Encorajamos as pessoas a comerem mais comida integral. Se quer saber o que é realmente proibido, é a comida refinada e com químicos ou aditivos. É importante aprender, mas o mais importante é sabermos quem somos e para onde queremos ir. A escolha é de cada um, não é do professor.

É a primeira vez que está em Portugal?
Vim duas vezes com Madonna, cozinhando para ela, mas dessas vezes não vi muito de Lisboa. Hoje saí, comi marisco, não sou contra nada disso, se uma pessoa é saudável pode comer praticamente tudo.

Vai, então, a restaurantes quando viaja?
Normalmente cozinho. Mas se não tiver cozinha, então vou comer fora. Há sempre possibilidades de escolha.

A comida macrobiótica aqui é muito semelhante à que existe nos EUA ou no Japão? Ou é influenciada pelos gostos de cada país?
Vivo nos EUA há muito tempo e cozinhei para pessoas vindas de todos os lugares do mundo. Não acho nada estranho. Sim, podemos usar os mesmos ingredientes mas a forma como os combinamos é o que torna essa cozinha diferente e única em cada país. Quando fui do Japão para os EUA foi um choque, tudo era diferente, agora tudo é muito mais familiar para mim.

No Japão vivia numa pequena ilha?
Sim, com muitos peixes.

Mas houve uma altura em que comia sobretudo junk food.
Totalmente, adorava doces, não conseguia parar de os comer. Estava a ganhar peso, comecei a ter prisão de ventre, o período não estava a funcionar bem, tinha dores no ombro, não me apetecia acordar de manhã.

Comia junk food porque era o que estava disponível e não conhecia nada melhor. Mas comecei a piorar. Tinha eczemas. Os médicos diziam-me que quando tivesse algum problema podia tomar um comprimido ou levar uma injecção. Não concordava, por isso comecei a procurar por mim mesma.

E como descobriu a macrobiótica?
Andava a namorar a ideia de ser vegetariana, mas não era para mim porque os vegetarianos que eu conhecia comiam queijo e produtos lácteos, e eu nunca gostei muito disso. Depois descobri o livro de George Ohsawa [considerado o pai da cozinha macrobiótica] e fez todo o sentido para mim a ideia de comer as coisas do sítio onde estamos.

Eu nasci nessa ilha, por isso sou o mesmo que essa ilha, venho dela. Se vivermos em harmonia com a natureza tornamo-nos mais pacíficos e isso é o princípio da paz mundial. Isso parecia-me mesmo bom. Não tinha que fazer mais nada a não ser eu própria, comer a comida certa e ser feliz. Se isso contribuía para a paz mundial, fantástico.

E foi fácil adaptar-se?
Sim, já comia muito arroz branco, só precisei de mudar para o integral e acrescentar outros cereais. Também já comia vegetais, a minha avó tinha uma horta. E nunca tive problemas em comer algas. A única parte difícil foi abandonar o açúcar branco. Nessa altura, quando eu estava no Japão, os macrobióticos recomendavam como doces apenas uvas, maçãs, batata doce e xarope de arroz. Nada disso satisfazia o meu desejo por doces.

Li o livro de Mishio Kushi [o japonês que ajudou a introduzir a macrobiótica nos Estados Unidos], descobri que ele vivia em Boston e decidi ir estudar com ele. Quando cheguei, as pessoas que seguiam a macrobiótica comiam bolo de chocolate com xarope de ácer, e eu pensei ‘aqui, nos EUA, consigo fazer isto, porque, afinal não preciso de abdicar do bolo de chocolate.’

As mudanças no seu corpo foram rápidas?
Muito rápidas. Bastam dez dias para nos adaptarmos a uma dieta macrobiótica. Durante dez dias comi apenas vegetais, nenhum peixe nem produtos lácteos. Ao fim desse tempo senti-me muito melhor, com a cabeça mais limpa, mais feliz do que alguma vez tinha estado.

Lembrava-me da altura em que era criança – não queria ficar na cama demasiado tempo, queria fazer coisas. Tudo era tão excitante. Quando mudei de alimentação tinha uns 22, 23 anos, e pensei ‘é isto’. Em três ou quatro meses, a minha menstruação ficou regular, a dor no ombro desapareceu, a prisão de ventre também, já não tinha eczema. E pensei que tinha que partilhar isto com outras pessoas.

Quando começou a trabalhar com Madonna?
Foi em 2001. Antes disso estava a cozinhar para doentes com cancro no Kushi Institute. Estava a fazer uma cozinha mais virada para a cura.

Qual é a diferença?
É uma grande diferença. Quando as pessoas estão num processo de cura é porque já se tornaram a soma da comida que não deviam comer. O que a maior parte das pessoas conhece como macrobiótica é essa dieta de cura. Mas se somos activos e não temos nenhum problema de saúde, dá muito mais prazer seguir esta alimentação.

Nessa altura, a maior parte das pessoas procurava uma dieta curativa depois de os médicos terem dito que não podiam fazer mais nada por elas. Tentavam mudar a dieta, mas na maior parte das vezes já não lhes restava a energia suficiente. E eu ficava triste, porque a macrobiótica devia resultar. A comida demora a curar. Na maior parte dos casos eu percebia que era demasiado tarde e sentia-me mal com isso.

Porque não usar antes a comida de forma preventiva? Decidi que queria cozinhar para uma pessoa famosa para que toda a gente ficasse a saber que a cozinha macrobiótica não é apenas para quem está doente. É para quem quer viver profundamente.

E Madonna estava à procura de uma pessoa assim?
Sim, queria alguém que cozinhasse para a família, não apenas os adultos mas também as crianças.

Fazer este tipo de comida para as crianças é um desafio?
Não, porque as crianças seguem o exemplo dos adultos.

Mas são muito bombardeadas por publicidade a junk food.
Os pais podem controlar a informação que os filhos recebem. Com os meus filhos controlei tudo, eles não viam televisão. Disse-lhes sempre: ‘vocês são crianças, não podem viver sem mim, por isso vão fazer o que eu disser e vão comer a comida que eu vos cozinhar’. É por isso que eles são as crianças e eu o adulto. Sou mais crescida, sei um pouco mais. Hoje os adultos não são adultos, não têm esta sensação de estão a fazer algo melhor.

Mas muitos adultos também estão a comer as coisas erradas.
Sim, porque não sabem fazer melhor. Mas hoje em dia há tanta informação. As pessoas devem investigar, não têm que acreditar em tudo o que lhes dizem. Confirmem, procurem e vejam se funciona.

Teve que adaptar a dieta macrobiótica às necessidades de Madonna, que tem uma actividade física intensa?
Apresentei-lhe todos os cereais, vegetais e leguminosas. Se precisava de mais alguma coisa eu podia introduzir algum peixe. Claro que, mais tarde, ela quis fazer algumas alterações, e tudo bem. Eu como chef macrobiótica, o que posso fazer é introduzir mais vegetais, mais leguminosas.

Algumas coisas foram um desafio, para mim e para eles. Mas como ela já lia os livros de macrobiótica, tinha algumas ideias. Depois, claro, as crianças crescem e as coisas mudam.

Cozinhou também para [o músico] Sting ou [a actriz] Gwyneth Paltrow.
Sim, enquanto convidados de Madonna. Cozinhei também para o vice-presidente Al Gore e outros convidados dela. Todos comiam o que ela comia e gostavam.

Mas há outras coisas que fazem parte desta forma de vida.
Sim, o exercício, a meditação. Falamos sobre as relações, a família, os amigos, os nossos companheiros. A espiritualidade não significa que tenha que se acreditar numa das religiões. A partir do momento em que estamos a trabalhar no nosso crescimento pessoal e em que somos capazes de aceitar os outros, isso é espiritualidade. A macrobiótica não é uma dieta, é uma forma de vida.

Aquilo a que chamam terapia tem a ver com essa análise das relações?
Não, a terapia é o início. As pessoas não sabem como fazer isto, por isso vêm à terapia ou ao aconselhamento. Podemos começar por nós mesmos, mas como não podemos viver sozinhos precisamos de uma comunidade. É por isso que eu viajo, para onde quer que vá há pessoas que são macrobióticas e tornamo-nos imediatamente família.

Pode-se ser macrobiótico e seguir apenas essa filosofia na alimentação?
Pode-se começar com a comida e ver como as coisas evoluem. Cada pessoa tem a sua visão sobre a independência da sua vida. Eu preciso de pessoas, neste momento estou solteira e os meus filhos já crescidos, gosto de conhecer pessoas e fazer amigos. Para se começar sozinho são precisos dois livros, um sobre a filosofia e outro sobre a cozinha. Não é preciso ir para uma escola.

As pessoas podem acreditar que se tiverem uma alimentação saudável evitam todas as doenças. É assim?
Nunca disse isso. Quem me dera. Só podemos ensinar o básico. A partir daí, as pessoas procuram o que é melhor para elas, o tipo de exercício, o tipo de espiritualidade ou de relações. É você quem vai decidir. A partir do momento em que sabe as bases é livre para fazer o que quer. E é aí que eu quero estar.