Chocalho: “Uma construção humana que tenta replicar a paisagem”

Associação cultural Binaural/Nodar regista esse som nos projectos que promove em zonas rurais do maciço da Gralheira, em São Pedro do Sul.

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Festival do Chocalho em Alpedrinha Paulo Pimenta

“O som do chocalho é como uma construção humana que tenta replicar a própria paisagem.” É assim que Luís Costa, produtor de arte sonora, pesquisador e arquivador sonoro, define chocalho. Afina a definição logo a seguir. “É a própria emanação da natureza, de tal maneira que no próprio subconsciente reflecte paisagem.” “É um objecto que é paisagem”, acrescenta no dia em que o fabrico de chocalhos foi considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade numa reunião da UNESCO, que teve lugar na Namíbia.

O som é-lhe bastante familiar, regista-o em vários projectos a que se dedica na Binaural – Associação Cultural de Nodar, em São Pedro do Sul, que se dedica ao resgate de sons perdidos, da qual é presidente. Mas nem nas gravações que faz, nem nos textos que escreve sobre pesquisas que vai fazendo no e sobre o território, o chocalho aparece como um elemento isolado. Surge sempre num contexto. “É o nosso modelo de trabalhar, não isolamos elementos”, explica. O chocalho surge então como uma das muitas evidências da paisagem. Está lá, mas é um elemento secundário.

No projecto Aldeias Sonoras, por exemplo, programa educacional que a Binaural desenvolve com escolas e que consiste no mapeamento sonoro de zonas rurais no maciço da Gralheira, em São Pedro do Sul, há som de chocalhos. A abordagem local difere consoante os animais. “O pastoreio de cabras é de montanha, em que os percursos são muito dirigidos pelo pastor, e o chocalho perde sentido. Ouve-se tudo, menos os chocalhos, ouvem-se os passos do pastor, o rolar de pedras. O pastoreio de ovelhas é em campo agrícola e aí nota-se que o chocalho tem uma função de agregação do próprio rebanho, de reconhecimento”, conta. Nas zonas que percorre, ouvem-se também os pequenos sinos das cangas das vacas, semelhantes ao som de uma sineta. “Na Serra da Estrela, em Trás-os-Montes, no Alentejo, o chocalho tem um papel mais relevante. Os rebanhos são maiores, os percursos são mais extensos”.

Luís Costa recorda a analogia antiga dos chocalhos com os sinos das igrejas e que aborda numa das suas pesquisas. “A origem do chocalho é espantar os espíritos maus, o que acaba também por ser a função do sino.” O que acaba também por se aplicar aos animais, como sinal de protecção por, muitas vezes, andarem sozinhos nos campos.

O produtor sonoro tem, no entanto, uma posição crítica em relação às candidaturas que anseiam o selo de património da humanidade. “É extremamente discutível esta vontade de isolar determinada realidade. Estas candidaturas partem de interesses que têm muito a ver com esse desejo de mitificar o mundo rural. O rural não é simples, não se define em três penadas. É na complexidade que o rural se revela e não no isolamento de aspectos individuais”, comenta. Por outro lado, Luís Costa coloca várias questões ao analisar o processo. “Isto vai mudar alguma coisa? Teremos cabras com mais chocalhos? Teremos magotes de turistas a verem chocalhos?” E estamos a falar de que chocalhos e de onde? Há chocalhos em todo o mundo. Os nossos chocalhos não são mais nem menos do que outros chocalhos de outros territórios.”  E remata: “Há aqui alguma falta de mundo e de olhar um bocado para o lado.”

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