Líder socialista espanhol reivindica herança de Zapatero em debate

Debate inédito organizado pelo El País e transmitido pela Internet entre líderes do PSOE, do Cidadãos e do Podemos. Leitores dão vitória a Iglesias.

Albert Rivera, Pedro Sánchez e Pablo Iglesias
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Albert Rivera, Pedro Sánchez e Pablo Iglesias JAVIER SORIANO/AFP

Foi um debate aceso mas onde os candidatos discutiram propostas concretas sobre combate ao terrorismo, economia e emprego, política social, educação, política territorial e reformas políticas. Faltou o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, do PP, estiveram o líder socialista, Pedro Sánchez, o candidato à chefia do governo do Cidadãos, Albert Rivera, e Pablo Iglesias, o principal dirigente do Podemos.

Com as últimas sondagens para as legislativas de 20 de Dezembro a preverem um empate técnico entre o PSOE e o C’s, Sánchez e Rivera entraram em confronto directo mais vezes, interrompendo-se e atacando-se. Iglesias surgiu como “um inesperado conciliador”, como descreveu um jornalista do El País, apelando à calma e ao “bom tom”.

Alguns dos momentos mais vivos aconteceram por causa da Catalunha e da questão do direito dos catalães a realizarem um referendo sobre a sua relação com Espanha. Só o Podemos defende esta possibilidade, mas o catalão Rivera acusou os socialistas de se coligarem com partidos independentistas em municípios e parlamentos regionais da Catalunha. “Albert, tu coligaste-te com um partido de extrema-direita em 2009 e eu não te chamo de extrema-direita, só de direita”, contrapôs Sánchez. “O Cidadãos não é de direita, é do que faça falta”, afirmou, quando chegou a sua vez, Iglesias, arrancando risos da plateia.

O Podemos tem no seu programa “o direito à autodeterminação dos territórios”, algo que Sánchez disse não compreender. “Não está em nenhuma Constituição, de nenhum país. Só esteve numa, sabes qual é esse país, Pablo?”, perguntou. “Sim, da União Soviética, buu, que medo”, respondeu Iglesias, arrancando novos risos. E de novo: “O membro do partido comunista da União Soviética David Cameron aceitou um referendo na Escócia”, disse o líder do Podemos.

A conversa ficou feia sempre que se falaram de nomes de membros dos partidos. Sánchez acusou Rivera de ter entre os seus principais conselheiros económicos um membro do conselho de administração de um banco que foi alvo de uma intervenção pública e perguntou a Iglesias se não pedia desculpas pelo que dissera de Rivera Juan Carlos Monedero, um dos fundadores do Podemos que entretanto se demitiu da direcção; o mesmo Sánchez leu uma sentença judicial onde se diz que um cabeça de lista do Podemos agrediu um eleito socialista.

Iglesias, que recusou comentar directamente a questão da agressão, defendendo “pessoas que lutaram em greves e acções contra os despejos, arriscando a sua liberdade”, ignorou também as referências a Monedero (feitas igualmente por Rivera), mas enumerou nomes de socialistas que serão membros de conselhos de administração de empresas como a Telefónica, uma das maiores empresas de telecomunicações privadas do mundo.

Tanto o Podemos como o C’s propõem leis de incompatibilidades para acabar com o que os espanhóis chamam “portas giratórias”, ex-ministros que integram direcções de empresas de sectores estratégicos, aquilo que Iglesias descreve como “corrupção legal”.

Outro momento mais aceso surgiu após a discussão sobre o financiamento da segurança social. Sánchez afirmou que não quer aumentar as contribuições, pelo que vai “procurar novas formas de financiamento da segurança social”. “Pedro acabou de dizer que vai criar um novo imposto, estamos a aproximar-nos das eleições, não seria bom esclarecer as pessoas?”, perguntou Rivera na réplica.

O analista Luis Arroyo, convidado do El País para as primeiras análises ao debate, notou que “havia muitas expectativas em relação a Rivera e ele esteve menos bem do que se esperava”, ao mesmo tempo que Sanchéz “surpreendeu pela positiva”. “Tem um temperamento que não lhe conhecíamos, talvez por nunca ter debatido com Rivera e Iglesias”, comentou o moderador, Carlos de Vega, veterano jornalista do diário e actual chefe de redacção. Jorge Galindo, outro analista, sublinhou a forma como Sánchez reivindicou a herança dos governos de José Luis Rodríguez Zapatero, primeiro-ministro entre 2004 e 2011.

De facto, Sánchez referiu-se inúmeras vezes aos sucessos socialistas, enumerando a reforma do trabalho ou leis como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a aprovação da interrupção voluntária da gravidez. Quando se discutiu o combate à corrupção, Sánchez defendeu que actualmente há tantos processos por causa “do trabalho da unidade de delitos económicos e fiscais, criada há dez anos, e do aumento de recursos mobilizados para este combate por um governo socialista”.

No fim, no “minuto de ouro”, o momento para cada candidato dirigir uma mensagem aos eleitores, o líder do PSOE repetiu esta ideia. “Se em 1982, defendemos a Espanha dos direitos e em 2004 inaugurámos a Espanha das igualdades, agora queremos governar a Espanha das oportunidades.”

Esquerda, centro, passado
Sánchez não o único a referir-se a Rajoy e ao Partido Popular, no poder desde 2011, mas foi o que o fez mais vezes. “Votar no Partido Socialista e não no PP quer dizer isto”, repetiu, defendendo a revogação de muitas leis dos últimos anos, como a lei da educação dos populares ou a recentralização levada a cabo pelo Governo de Rajoy. “Iglesias assumiu o seu posto, à esquerda, Rivera ao centro, Sánchez olhou para o passado e para um ausente”, Rajoy, comentou Jorge Galindo.

Pelo menos cinco vezes, Iglesias dirigiu-se aos outros dois candidatos, recomendando-lhes “calma e tranquilidade”. “Esse tom é o da velha política, lembra o passado”, repetiu várias vezes o candidato que precisa de recuperar nas sondagens (está com cerca de 17%, enquanto C’s, PSOE e PP surgem entre os 22% e os 23%) e que é visto por muitos espanhóis como radical. Há uns 20% de espanhóis que sabem que vão votar mas ainda não decidiram em que partido, pelo que os que participaram na iniciativa do diário espanhol deram muita importância a este debate.

O momento de maior audiência foi o “minuto de ouro” de Iglesias. Rivera pediu votos para liderar “um novo projecto para Espanha”, enquanto Sánchez lembrou os sucessos do PSOE e defendeu que o seu partido “é mais importante e fundamental do que nunca”. Iglesias recusou apelar ao voto, “isso é da velha política”, e pediu aos espanhóis para lerem os programas e compararem propostas, antes de agradecer ao El País por “organizar um debate histórico”, o primeiro com três candidatos num país onde o poder sempre saltou do PP para o PSOE e vice-versa e onde o multipartidarismo acaba de nascer.

No inquérito realizado pelo diário no seu site sobre quem venceu o confronto, a esmagadora maioria, 47% escolheu Iglesias, seguido de Rivera com 28,9 e Sánchez, com 24%, dados que pouco terão a ver com os resultados das eleições de daqui a três semanas.