A atitude e as vísceras do fado tocadas ao piano

Após gravar reportório de Amália Rodrigues, o pianista Júlio Resende regressa ao universo fadista com Fado & Further. O álbum é apresentado este sábado no CCB, com participações de Silvia Pérez Cruz e Moreno Veloso.

Foto
“Gosto de ser um pianista que toca fado”, diz Júlio Resende , aqui no Grande Auditório da Gulbenkian Márcia Lessa

Para o final dos concertos a solo em que aborda o reportório de Amália por Júlio Resende, primeiro álbum do pianista formado no jazz a mergulhar no universo do fado, Júlio Resende guarda sempre um momento de especial impacto emocional: à sua presença junta-se a voz de Amália Rodrigues, convocada tecnologicamente, para a interpretação de Medo. Mas houve uma noite em que “Amália não quis cantar”. Resende estava sozinho em palco, no auditório da Fundação Gulbenkian, sala esgotada, e a gravação não arrancou. Fez três sinais para a régie, esperou e apenas ouviu silêncio.

Esse momento, rebaptizado Enfrentar o Medo, está documentado em Fado & Further, álbum ao vivo acabado de lançar e em que Resende aprofunda a ligação do seu piano ao reportório fadista. E foi escolhido como tema final precisamente porque na noite em que Amália se recusou a ser accionada pelo botão “play”, o pianista não tinha qualquer alternativa preparada. Pensou em parar ali, mas o concerto permaneceria inacabado. E então tocou o tema, pela primeira vez sem a voz a guiar-lhe as notas, num exercício de absoluta liberdade. “Este é o tema mais livre e mais temeroso que alguma vez fiz”, confessa ao PÚBLICO.

Só que é também um espelho fiel da forma como Júlio Resende se tem acercado do fado, agarrando em melodias de fados tradicionais ou clássicos e improvisando em torno desses motivos. É exactamente por integrar “metamorfoses” constantes na sua interpretação em concerto que o músico escolheu publicar Fado & Further como um disco ao vivo, captado em várias salas, e contando com a participação da cantora Silvia Pérez Cruz, possivelmente a mais extraordinária voz espanhola da actualidade, em três temas. “Agrada-me mostrar esse caminho de cada canção, cheio de contingências, notas falhadas, com público, um som mais cru, toda essa viagem viva e não cristalizada pelo estúdio”, justifica. Aqui, assim como este sábado no Centro Cultural de Belém, poder-se-á perceber estes rumos possíveis da “composição instantânea”, como lhe chama, quando em palco o improviso leva a registos não planeados.

Pérez Cruz, cantora em quem Resende identifica “uma centelha” e uma “força musical” que carregam consigo “a possibilidade de vir a ser a Amália que Espanha ainda não teve”, foi chamada na noite da Gulbenkian para cantar Lágrima (com poema de Amália), Cucurrucucu Paloma (que o pianista começou a tocar no México para exemplificar musicalmente a mesma ideia que aplica ao fado) e Pare Meu (do reportório da catalã), volta a subir ao palco com Resende no CCB. Desta vez, junta-se-lhes também Moreno Veloso, filho de Caetano e músico por direito próprio, numa escolha ainda mais surpreendente para uma noite a cambalear entre o jazz e o fado.

Ninguém é uma ilha
Fado & Further (qualquer coisa como fado e mais além) é um projecto motivado pela vontade de Júlio Resende aprofundar a sua ligação ao fado enquanto “história emocional”. “Está de acordo com aquilo que aprecio na música, porque o fado é uma música cheia de força, de silêncio, de atitude, de vísceras, de expulsar e expressar tudo o que se pode dizer numa só canção, num só momento. Se isso não estivesse de acordo comigo não o fazia.” A sua certeza, aliás, é a de que esta órbita em torno do fado não é coisa de que possa simplesmente desligar-se. A intenção de Júlio Resende é continuar a explorar estas pistas, da mesma maneira que abria o seu álbum de estreia, Da Alma (2007), com o tema Filhos da Revolução, “uma reminiscência da canção de protesto”, que era já um primeiro indício de uma natural integração da música popular portuguesa no seu discurso pianístico.

Foi depois o impulso para gravar a solo e a reflexão sobre que linguagem deveria explorar neste formato um pianista de jazz nascido em Portugal, com raízes na música portuguesa, a levá-lo até ao fado e, em concreto, a Amália Rodrigues. “Amália por ser ela o símbolo perfeito do que é o fado em todo o seu esplendor”, justifica. “Agradou-me pegar em temas que toda a gente conhece e tocá-los nos tons dela”, mas afastando-se de interpretações quebradas por um excesso de respeito e pudor.

A partir de agora, Amália será sobretudo uma figura tutelar e uma fonte de inspiração a que Júlio Resende pretende recorrer com frequência, mas até na apresentação de Fado Loucura / Sou do Fado fica claro que o seu mundo não se esgota aí. O tema foi dedicado em concerto a Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti, em agradecimento ao “contributo de cada um deles” para a sua música e a sua vida. E o certo é que, mesmo que o quisesse, hoje Júlio Resende já não seria capaz de voltar atrás e eliminar da sua linguagem musical a sombra permanente do fado. Está claramente impressa no seu fraseado e manifesta-se sem que o possa agora controlar conscientemente. “Ninguém é uma ilha”, defende. “As influências são importantes e devem ser muito respeitadas. E é no meio delas que temos de saber ou tentar ir descobrindo quem somos.” No seu caso, essa identidade parece já razoavelmente definida: “Gosto de ser um pianista que toca fado”, resume. Tão simples quanto isto.