Na miséria de Nairobi, Papa denunciou "injustiça atroz" imposta ao excluídos

Francisco foi ao bairro de lata de Kangemi repudiar as expropriações de terra e as condições em que vivem milhões de pessoas. "“Todas as famílias têm direito a uma casa decente."

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“Como não denunciar as injustiças a que sois submetidos?”, questionou-se Francisco Tony KARUMBA/AFP
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Em Kangemi vivem cerca de cem mil pessoas Goran Tomasevic/Reuters
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Foram muitos os que quiserem saudar o Papa na visita ao bairro Goran Tomasevic/Reuters
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Goran Tomasevic/Reuters
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O Papa foi recebido depois em festa por milhares de jovens num estádio da capital Giuseppe Cacace/AFP
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Jennifer Huxta/AFP

Na “ferida aberta” de um dos grandes bairros de lata de Nairobi, o Papa condenou nesta sexta-feira a expropriação de terras e outras injustiças cometidas por elites corruptas que condenam milhões de pessoas a viver na mais abjecta das pobrezas.

“Na verdade, sinto-me como se estivesse em casa”, disse Francisco na Igreja de S. José Trabalhador, um templo com telhado pré-fabricado erguido pelos jesuítas no meio de Kangemi, bairro-cidade com mais de cem mil habitantes na capital queniana, que nesta sexta-feira acolheu em festa o Papa. Dali vêem-se apartamentos e os condomínios fechados, lá dentro há barracas feitas de chapa de zinco, rios de lama, esgotos a céu aberto e pobreza sem fim.

“Como não denunciar as injustiças a que sois submetidos?”, questionou-se Francisco, que em Buenos Aires era conhecido como o “bispo dos bairros de lata” pelas visitas frequentes aos lugares mais pobres da capital argentina. “A atroz injustiça da marginalização urbana manifesta-se nas feridas infligidas por minorias que se agarram ao poder e à riqueza, que esbanjam de forma egoísta, enquanto uma maioria cada vez maior é obrigada a refugiar-se em periferias abandonadas, contaminadas, marginalizadas.”

O Quénia é considerado um dos países mais desenvolvidos da África Oriental, mas 45% da população vive abaixo da linha de pobreza, o desemprego rondará os 40% e o êxodo dos campos para as cidades lotou as periferias pobres. Só em Nairobi, mais de metade da população vive em bairros onde falta luz e água e abundam as doenças.

“Todas as famílias têm direito a uma casa decente, a água potável e saneamento, a luz”, sublinhou o Papa, que apontou também o dedo às expropriações ilegais – “um problema grave criado por empreiteiros privados sem rosto que se apoderam de terras e que tentam até roubar os recreios da escola das vossas crianças.” Francisco referia-se aos protestos, em Janeiro, contra a expropriação de terrenos pertencentes a uma escola primária de Nairobi para a expansão de um hotel ligado ao vice-presidente queniano, William Ruto, recorda o jornal The Star. A polícia usou gás lacrimogéneo contra crianças que participavam na manifesta~ção.

O Papa, que na véspera defendeu na representação da ONU em Nairobi a luta contra as alterações climáticas como parte de um esforço para combater a pobreza, reafirmou que “o mundo tem uma grande dívida social para com os pobres que não têm acesso a água potável” e disse que “sob nenhum pretexto burocrático” pode este direito ser posto em causa. Um apelo repetido por Musonde Kivuva, arcebispo de Mombaça e presidente da Caritas queniana, que acompanhou Francisco na visita a Kangemi, onde as ruas foram arranjadas para a passagem do papamóvel. “Mais deveria ser feito pelos nossos bairros de lata. Não deveríamos precisar que o santo padre aqui viesse”, observou.

Depois de ter ouvido uma religiosa lamentar que apenas 4% do clero da capital trabalhe nos bairros pobres, Francisco repetiu ser obrigação de “todos os cristãos, em particular os pastores, envolver-se” na luta contra a pobreza. Repudiou também “as organizações criminosas, ao serviço de interesses económicos ou políticos, usam crianças e jovens como carne para canhão nos seus assuntos manchados de sangue”.

Antes de partir para o Uganda, segunda etapa da viagem, Francisco foi ao encontro dos milhares de jovens que o esperavam num estádio lotado. Na despedida, pediu-lhes que não sucumbam à corrupção “que é como o açúcar,  doce e fácil de se gostar”. “Cada vez que enchemos os bolsos destruímos os nossos corações, as nossas personalidades, o nosso país”, avisou, numa intervenção feita de improviso e muito aplaudida. Desafiou-os também a recusarem as divisões tribais e étnicas que alimentam a corrupção e a violência. “O espírito do mal leva-nos à desunião [...], à destruição que resulta do fanatismo”, disse, antes de convidar todos os que o rodeavam “a unirem as mãos e erguerem-se contra o mau tribalismo”. “Somos todos uma nação.”