Entrevista

Os Real Estate estão entre eles – e entre nós

Matt Mondanile é Ducktails e editou St. Catherine, que apresentará no Vodafone Mexefest. Martin Courtney lançou o óptimo Many Moons. Matt e Martin pertencem aos Real Estate, banda que é um ícone indie do nosso tempo. Dois homens sob a influência desse projecto comum.

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Matt Mondanile e Martin Courtney, companheiros de banda nos Real Estate. Dois homens sob a influência de um projecto comum DR

Matt Mondanile acaba de lançar uma nova canção, Don’t want to let you know, e aproveitou a passagem recente pela cidade suíça de St. Gallen, pausa na digressão que o trará, esta sexta-feira, ao Vodafone Mexefest, em Lisboa (Teatro Tivoli, 23h), para gravar um vídeo para ela. Linha de baixo de funk descontraído rodeado por um mar de sintetizadores, voz a soltar as palavras com descontracção, tudo a “chillar” como Matt Mondanile, nome de guerra Ducktails, também guitarrista dos magníficos Real Estate, “chillava” nos primeiros tempos, quando gravava em casa dos pais discos alinhados com esse subgénero de vida breve a que se chamou hypnagogic pop ou, não por acaso, chillwave.

A nova canção pode representar o que será o futuro dos Ducktails num novo disco que, diz Mondanile, já está preparado. Não é certamente o presente que trará ao Vodafone Mexefest. Esse pertence a St. Catherine, o seu quinto álbum, o segundo desde que pôs para trás das costas as paisagens sonoras abstractas, envolventes, da primeira fase da carreira em favor de “um estilo mais tradicional de composição”, como refere ao Ípsilon em trânsito algures no coração da Europa.

St Catherine é realmente, verdadeiramente, um álbum de canções. Composições de um homem que decidiu tornar-se “mais compositor do que autor de improvisos”: “Se fazes música durante vários anos, tens de definir uma direcção em que caminhar, não podes passar o tempo a repetir-te, tens, talvez, de te obrigar a fazer a arte que gostarias de ver." Esse é o mote: “Faço sempre a música que gostaria de ouvir." E nós sabemos do que gosta Matt Mondanile.

“Não tenho necessariamente saudades dos velhos tempos, estou feliz no presente, mas musicalmente os gostos das pessoas continuam a evoluir e eu não sei se alguma vez saberei fazer outro tipo de música além desta, grandemente influenciada pelo passado. Ainda estou a fazer pop de guitarras enquanto tantos e tantos já deixaram de o fazer." Já não é o senhor Ducktails quem o diz, mas sim Martin Courtney, seu companheiro de banda nos Real Estate, onde é guitarrista e vocalista, e que editou muito recentemente um primeiro álbum a solo, o inspirado, recomendadíssimo Many Moons. Falará em seguida do indispensável Village Green Preservation Society, o álbum em que os Kinks elevaram as saudades de uns “good old days” mitificados a obra de arte. “Sinto-me mais próximo de música que ou é mais antiga, ou soa mais tradicional, no sentido sentido pop e rock’n’roll do termo. Basicamente, mantenho-me na minha zona de conforto”, atira como (meia) piada.

Courtney gravou Many Moons por insistência do amigo Jarvis Tavaniere, dos Woods. Inicialmente, iriam apenas meter-se em estúdio para ver o que daí resultaria. Depois, a ideia de gravar um single transformou-se na de gravar um EP, e por fim, enquanto Courtney começava a sentir como libertadora a experiência de ocupar os tempos mortos dos concertos em que os Real Estate promoviam Atlas, o terceiro álbum, tornou-se óbvio que o processo só acabaria com um álbum inteiro gravado – “o processo deu-me algo em que me focar, mais criativo do que era habitual nas digressões anteriores”.

O antiquado e o boémio
Martin Courtney é um rapaz discreto, de voz tímida. Pai recente, o que acaba reflectido no disco (Awake e Asleep são resultado directo da nova condição), descreve-se como “um tipo caseiro e meio antiquado”, que não sai tanto quanto os companheiros de geração e que, talvez por isso, se sente “um pouco mais velho” do que é realmente. Matt Mondanile, por outro lado, é o tipo despachado, de resposta pronta e apreciador da boa boémia, que, no final do concerto que os Ducktails deram no festival de Paredes de Coura há um par de anos, não demorou muito entre a saída do palco e o post que publicou no Instagram, procurando quem lhe recomendasse roteiros para rambóia no Porto. Não surpreende, portanto, que, no dia seguinte ao concerto no Mexefest, sábado, suba até à Galeria Zé dos Bois para animar as gentes com um DJ set (0h30, entrada gratuita).

PÚBLICO -
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No entanto, ouvimos Many Moons e ouvimos St. Catherine e Martin Courtney e Matt Mondanile surgem como que unidos – os Real Estate estão entre eles (e entre nós). Courtney segue a trilha aberta pelos Byrds lá muito atrás, cobre ocasionalmente as melodias de secção de cordas para que se revele uma terna majestosidade, e embala-nos com graciosidade. Mondanile, por sua vez, reduz as rotações para tratar as canções como matéria onírica (guitarra eléctrica em estado líquido, acústica como tapete sonoro, teclados e sintetizadores a cobrirem as melodias e voz a sobrevoar a música como brisa discreta).

Martin Courtney ressalva que, se ouvirmos o primeiro álbum dos Real Estate e, de seguida, Many Moons, serão evidentes “grandes diferenças”: “Com o passar dos anos, à medida que aprendo mais sobre composição, as coisas mudam." Nunca radicalmente. “Não sinto uma necessidade desesperada de mudar. Tem de acontecer naturalmente. Prefiro isso a procurar novos sons só porque sim, para me forçar a fazer diferente” – talvez por isso, a sua marca enquanto compositor e cantor dos Real Estate esteja tão presente no álbum a solo.

Matt Mondanile, tal como Courtney nascido em Nova Iorque mas que, ao contrário deste, se mudou há dois anos para Los Angeles – “É muito mais livre e mais barato para trabalhar em música do que Nova Iorque, onde toda a gente está sempre demasiado atarefada” , gravou um álbum em que abundam imagens apontando aos céus. Esses, os divinos: St. Catherine, Into the sky, Heaven’s room, Church, composta e gravada com Julia Holter, são alguns dos títulos. Foi o resultado de uma ressaca. “Quando me mudei para L.A. estava numa relação que era, ao mesmo tempo, muito bonita e muito difícil, porque as nossas agendas eram demasiado preenchidas para que estivéssemos verdadeiramente juntos." Enquanto compunha, criava “uma fantasia” na sua cabeça. “Um lugar medieval, um espaço religioso, um museu, um jardim botânico. Queria que o álbum evocasse esses sentimentos. É sobre amor num sítio bonito. Simplesmente um sítio bonito." É um discreto álbum de pop clássica escorreita, imediata e de movimentos lentos, atravessada por uma nostalgia indefinível. Lembra-vos algo?

Esta sexta, os Ducktails deste Matt Mondanile que evoluiu “para um estilo tradicional de composição” estarão no meio de nós. Martin Courtney estreou-se a solo. Os Real Estate são um universo em expansão.