Crítica

Para quem é, bacalhau basta

Depois de O Pátio das Cantigas, Leonel Vieira assassina O Leão da Estrela, tornado num chorrilho de disparates filmado às três pancadas a fazer-se passar pelo que não é.

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Por duas vezes, O Leão da Estrela põe as suas personagens a dizerem que “isto parece uma daquelas comédias antigas a preto e branco”. E, já próximo do final, o filme literalmente pára para um pedido de casamento que tem lugar numa estação de correios (patrocínio dos CTT oblige) onde alguém diz “O meu marido pediu-me em casamento enquanto estávamos a ver o Big Brother” e recebe a resposta “e não são menos felizes por isso”.

Num mesmo movimento, O Leão da Estrela revela o seu descabelado oportunismo e a sua labreguice demagógica. Nominalmente remake de uma das comédias mais queridas da suposta “época de ouro” do cinema português que, na verdade, nunca existiu (e segunda de três após o êxito inexplicável de O Pátio das Cantigas, há poucos meses, e antes de A Canção de Lisboa), a nova versão não o é de todo. Para lá da personagem central do “maluco do futebol” (Miguel Guilherme) e da ideia de uma família a fazer-se passar por rica numa viagem para ver um jogo, desaparecem o Sporting e o Porto, trocados por clubes de terceira divisão de Alcochete e do Alentejo. A graça revisteira e teatral da comédia de enganos que Arthur Duarte dirigiu em 1947 é substituída pelo humor de traço grosso das anedotas filmadas dos Malucos do Riso e dos Batanetes e pela trama básica dos ricos e dos pobres das novelas de linha de montagem de horário nobre da televisão.

Nesse processo, esta “coisa” de Leonel Vieira quer fazer valer os “direitos” do público popular que não se revê no que se entende ser o snobismo condescendente dos comentadores culturais (com o qual o realizador parece, aliás, ter um problema mal resolvido de longa data). Um dos gagues recorrentes do filme consiste na aldrabice desmiolada de Joana, a filha mais velha do senhor Anastácio e exemplo perfeito da saloia deslumbrada pelos famosos da televisão e das revistas, desprezar o facto de a irmã “ler livros, que horror, que chatice” (porque, como todos sabemos, “os ricos não lêem livros, não precisam”).

O Leão da Estrela revela aí também a sua pobreza conceptual, o seu cinismo hipócrita e merceeiro, pondo a nu sofrer da mesma condescendência que pretende criticar: em vez de tratar o público com o respeito que ele merece, com uma história que faça sentido e personagens com quem se possa relacionar, dá-lhe um chorrilho de disparates e lugares-comuns colados com cuspo, filmados a despachar e montados às três pancadas, como quem diz “para quem é bacalhau basta”, para terminar num final inacreditável de chico-espertice que dá vontade de pedir o dinheiro do bilhete de volta. O Leão da Estrela finge defender o público popular ao mesmo tempo que, alegando dar-lhe “o que ele quer”, o trata como uma massa informe de pategos ingénuos que engolem qualquer coisa que se lhes ponha à frente desde que os faça rir.

A verdadeira tragédia deste triunfo da mediocridade? O facto de toda a gente envolvida neste projecto, dos actores à equipa técnica, ser capaz de muito melhor. Exemplo: uma surpreendente, e belíssima, cena de discussão conjugal entre Miguel Guilherme e Manuela Couto, sensível e inteligente, que parece pertencer a outro filme. Esse outro filme não foi o que Leonel Vieira fez. E que não faz lembrar uma comédia portuguesa a preto e branco dos anos 1940. Aliás, nem faz lembrar um filme. Cinema é outra coisa — como poderiam dizer António-Pedro Vasconcelos, Luís Filipe Rocha, Luís Galvão Teles ou o falecido José Fonseca e Costa, para apenas falarmos de cineastas que souberam falar ao público sem o tomarem por parvo.

Notícia corrigida: onde se lia O Pai Tirano lê-se A Canção de Lisboa