Crítica

Darmstadt em perspectiva

O Remix Ensemble encerrou o ciclo À Volta do Barroco com um concerto que evocou a importância musical da cidade de Darmstadt no período barroco e na segunda metade do século XX.

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Remix Ensemble dr

O concerto Darmstadt, passado e futuro estabeleceu uma ponte entre a música barroca e a música contemporânea através de compositores que de algum modo estão relacionados com a cidade de Darmstadt. Neste sentido o concerto evocou a música de Georg Phillip Telemann (que trabalhou em Darmstadt), cuja suite orquestral intitulada Abertura Darmstadt inspirou a composição de Darmstadt X de Wolfgang Mitterer.

O concerto incluiu ainda obras de Karlheinz Stockhausen e Pierre Boulez (dois dos mais importantes representantes da denominada Escola de Darmstadt do pós Segunda Grande Guerra) e também duas peças de Wolfgang Rihm, que participou enquanto aluno e professor nos famosos Cursos de Darmstadt.

Darmstadt X de Wolfgang Mitterer foi um dos elementos atractivos deste concerto por se tratar da estreia absoluta de uma encomenda da Casa da Música, mas também pelo facto de Mitterer ser habitualmente um compositor surpreendente nas suas propostas.

Esta obra, para grande ensemble e electrónica, consiste na citação e na manipulação de fragmentos da suite de Telemann, originando um discurso musical novo e híbrido. A electrónica foi tratada como um instrumento musical diluído no seio do discurso sonoro instrumental, raramente assumindo um papel de relevo. Trata-se de uma obra de carácter ligeiro, tal como a própria suite de Telemann que por isso contrastou com as restantes obras do concerto.

Stop de Stockhausen é uma obra representativa das tendências pós-seriais da década de sessenta, nomeadamente pela integração dos conceitos de abertura e de indeterminação, mas também pela divisão do ensemble instrumental em pequenos grupos distribuídos pelo palco.

A execução da obra deixou transparecer apenas parcialmente a poética da “obra aberta”, parecendo faltar um maior espaço de autonomia e de poder de decisão aos intérpretes, que pudesse contribuir para tornar o discurso musical mais flexível e imprevisível.

Talvez tal se deva ao facto de ter sido apresentada a “versão de Paris” (uma estruturação realizada em 1969 a partir das instruções primárias do compositor, consequentemente menos aberta que a partitura original). Teria sido provavelmente mais interessante assistir a uma nova versão, realizada pelo maestro Peter Rundel e pelos membros do Remix Ensemble.

A orquestração das Douze Notations realizada pelo compositor alemão Johannes Schöllhorn respeitou o espírito original da obra de Boulez, afastando-se totalmente das orquestrações que o próprio Boulez realizou de algumas destas peças a partir da década de setenta.

Schöllhorn respeitou o texto original das doze peças e soube realçar as características particulares de cada uma delas, através de uma cuidadosa combinação dos timbres instrumentais que demonstrou a influência da Segunda Escola de Viena. O resultado não soou em momento algum a um mero exercício de orquestração estilística, mas antes a uma interessante releitura camerística do original de Boulez, excelentemente interpretada pelo Remix Ensemble.

As duas peças finais, Chiffre III e Chiffre V, de Rihm são excelentes exemplos da integração de materiais musicais típicos da vanguarda do pós Segunda Grande Guerra (nomeadamente harmonias muito dissonantes) num discurso musical despojado, sem o exagero formalista que caracterizou essa mesma vanguarda.

Deste modo Rihm valoriza a expressão e a comunicação directa com o público. O conceito de “som organizado” tão caro a Edgard Varèse é também marcante nestas peças, cujo discurso musical recorre ao som como elemento expressivo fundamental - através do timbre instrumental, da densidade harmónica e da energia sonora.

A interpretação foi excelente, aliando o virtuosismo individual dos músicos ao sentido do colectivo e indo totalmente ao encontro da intenção expressiva de cada peça. Sem querer menosprezar os restantes instrumentistas destaco o pianista Jonathan Ayerst, solista em Chiffre V, assim como a secção de metais em ambas as peças, cuja execução exemplar e plena de energia em muito contribuiu para a excelente interpretação do ensemble.