A cibersegurança passa pelos electrodomésticos

Um quotidiano com múltiplos dispositivos conectados e enormes quantidades de dados são “uma oportunidade e um problema”

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O painel de cibersegurança debateu o desafio de analisar enormes quantidades de dados Guilherme Marques

A porta de casa pode ser um alvo para intrusos e não da forma convencional. Quando pensam em cibersegurança, a maioria das pessoas preocupa-se com os dados bancários ou a privacidade do email. Mas, num mundo em que os telemóveis, os computadores e as televisões serão apenas uma pequena parte dos aparelhos inteligentes, a panóplia de equipamentos ligados à rede (das janelas das casas ao automóvel), bem como o gigantesco manancial de dados que tudo isto põe a circular, representam um desafio para as empresas do sector.

“A Internet das Coisas é claramente um dos principais temas” na área da cibersegurança, observou nesta terça-feira, em Lisboa, Francisco Fonseca, presidente executivo da AnubisNetworks, uma empresa de segurança informática, durante uma conferência sobre “big data” organizada pela EDP em parceria com o PÚBLICO. “Big data” é a expressão usada para designar gigantescas quantidades de dados – o tipo de dados que, por exemplo, são gerados no quotidiano digital por todos os utilizadores que navegam, comunicam e fazem compras na Internet. São dados que podem ser analisados por supermercados, bancos, operadores de comunicações e, eventualmente, alvo de assaltos. “Já é possível ter ligados à Internet o alarme, as luzes, a temperatura, a água, a televisão. No futuro vamos ter muito mais. Vai ser uma oportunidade e um problema. Vamos perceber quão criativos vão ser [os ataques informáticos]”, completou Francisco Fonseca.

A chamada Internet das Coisas – em que os objectos e estruturas físicas estão ligados à Internet, comunicam entre si e podem ser dotados de alguma inteligência artificial – não é um cenário de um futuro distante. É certo que os frigoríficos ainda não detectam se acabou o leite e fazem encomendas online sozinhos. Mas já há no mercado vários equipamentos domésticos inteligentes, que se adequam aos hábitos dos utilizadores (por exemplo, ligando o aquecimento a tempo de a casa estar na temperatura certa quando a pessoa chegar) e que podem ser controlados remotamente, através de um telemóvel ou tablet.

Também os novos modelos de automóveis são cada vez mais conectados, integrando sistemas de navegação e funcionalidades autónomas de segurança, como travões que se accionam automaticamente. Este ano, a revista Wired narrou uma experiência em que duas pessoas usaram um portátil para acederem ao sistema informático de um jipe e controlarem várias funções do veículo, incluindo os travões e a direcção. E este ainda não era um carro autónomo, uma das grandes promessas do sector para o futuro próximo. A analista de mercado Gartner antecipa que, para o ano, o número de equipamentos conectados, carros incluídos, aumente 30%. Por outro lado, o mercado do software de cibersegurança rondou no ano passado os 20 mil milhões de euros e vai continuar a crescer.

Nesta era de avalanche de dados - emails, telefonemas, compras, viagens - um dos desafios é “trazer mais inteligência à forma como se processam estas coisas”, afirmou Paulo Marques, co-fundador da Feedzai, uma startup portuguesa de cibersegurança no sector do comércio. “O ponto importante não são os dados, é o que se faz com a informação. [É preciso] ter o computador a olhar automaticamente para os dados e perceber como pode agir. E em tempo real”, argumentou.

A Feedzay tem actualmente sede nos EUA e, segundo Marques, processa quatro mil milhões de transacções por ano. A empresa recorre a técnicas de “machine learning”, em que os computadores aprendem e tomam decisões a partir da análise de dados, em vez de seguirem apenas instruções pré-definidas. Entre as múltiplas variáveis analisadas pela tecnologia da Feedzai está, por exemplo, o gasto típico de uma pessoa com um determinado comerciante, exemplificou Paulo Marques. Um desvio nos comportamentos habituais poderá significar que algo de errado se está a passar.

Já José Alegria, director de cibersegurança e privacidade na PT, subiu ao palco para se debruçar sobre os desafios para as empresas e avisou que as mudanças vão ser rápidas. “O futuro está a chegar muito depressa”, disse, referindo-se uma combinação entre a Lei de Moore (uma previsão de crescimento exponencial da capacidade de processamento) e do efeito em rede. “Tudo está ficar mais rápido e mais complexo. Talvez não entendamos sequer o que vai acontecer dentro de três ou quatro anos.”