João Soares, uma surpresa na Cultura com peso político

Ex-presidente da Câmara de Lisboa será o novo ministro da Cultura.

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João Soares Enric Vives-Rubio

O nome de João Soares para ministro da Cultura foi uma surpresa. Depois da morte recente de Paulo Cunha e Silva, vereador da Cultura do Porto, ter afastado aquela que era apontada como a solução mais evidente para a pasta, António Costa faz regressar este socialista de 66 anos a um passado longínquo. No currículo do filho de Mário Soares e de Maria Barroso na área da gestão da cultura destaca-se, entre 1990 e 1995, a vereação desse pelouro na Câmara de Lisboa, que depois veio a presidir (1995-2002). Como vereador, deve-se a João Soares a criação da Videoteca de Lisboa, em 1991, da Casa Fernando Pessoa, em 1993, ou a abertura ao público do Arquivo Fotográfico Municipal em 1994. Foi durante o período em que foi vereador que se deu Lisboa Capital Europeia da Cultura em 1994, na altura presidida por Vítor Constâncio, numa sociedade de capitais públicos que juntava a autarquia e a Secretaria de Estado da Cultura.

“Não percebo” foi a primeira reacção que o PÚBLICO ouviu quando começou a testar esta escolha de António Costa junto dos meios culturais. Mas também houve quem observasse que a aposta não era assim tão surpreendente: um gestor cultural de Lisboa reconheceu que a expectativa das pessoas da área é que “dentro do padrão que conhecem, seja nomeado um agente cultural”, mas notou que isso não tem resultado nas últimas experiências, quer as da coligação de direita, quer as do PS. “O que é importante é que seja alguém com peso no Governo e no partido”, acrescenta, lembrando que João Soares – ex-candidato a líder do partido e ex-presidente da Câmara de Lisboa – é, além do mais, “uma pessoa combativa”.

De facto, João Soares foi o primeiro dos apoiantes de António José Seguro que saiu em defesa do actual líder do PS, quando se começava a desenhar o acordo à esquerda. Foi Costa, aliás, que o repescou para as listas do PS. Uma leitura possível é também a de que Soares não chegou ao Ministério da Defesa porque o futuro primeiro-ministro deu prioridade à pasta da Cultura, onde precisava de um peso pesado para substituir a malograda hipótese de Cunha e Silva. E João Soares terá sido a solução.

A par do seu trajecto no PS, João Soares nunca escondeu a sua ligação à Maçonaria, à qual aderiu em 1974, e que vê como um corolário natural da "tradição republicana e laica" em que se enquadra. Di-lo numa entrevista de 1999 ao Expresso, acrescentando que é "muito pouco assíduo" e que não aprecia os rituais maçónicos.

Mas é com a profissão de editor que aparece registado na página do grupo parlamentar do PS. Foi no final de 1975 que João Soares lançou, com Victor Cunha Rego, a editora Perspectivas & Realidades, da qual ainda hoje é proprietário, e que inaugurou a sua actividade com a publicação de O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, uma sátira à União Soviética de Estaline.

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