Alessandro Garofalo/Reuters
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Megafone

Uma cópia nunca será um original

Não sou o primeiro nem o último a dizer que o valor que damos às coisas já não é o mesmo de outros tempos, mas ainda há quem goste a bom gostar

Parte das minhas percepções humanísticas vêm da ficção e por lá, na terra do terceiro acto e dos beijos técnicos, dizem sempre que mudar é uma coisa boa. Eu concordo parcialmente, porque existem algumas mudanças que me deixaram mal disposto ultimamente. Essas mudanças têm pouco a ver com coisas citadinas como mudar de casa, de país ou de trabalho, estão mais relacionadas com contrafacção de gostos, tráfico de opiniões e branqueamento de personalidades.

O ser humano tem uma resistência natural à mudança, que faz com que a alteração ou adopção de uma rotina ou de um vício demore o seu tempo. Mudar é um processo paulatino e empírico que passa muito pela experimentação e pelo contacto com as coisas. Eu gosto de voleibol e de poesia, mas foi preciso muitas entorses nos dedos e algumas rimas pobres para perceber isso. Chamem-me ingénuo, mas nos últimos tempos tenho notado uma tendência que tem tanto de triste como de degradante: algumas pessoas “gostam” interesseiramente.

Falo daqueles abelhudos que ouvem alguém dizer uma coisa e contam-na de seguida como se percebessem do assunto. São cérebros que, dependendo da companhia, vão do trance ao rock progressivo em segundos, não percebem nada dos dois, mas sabem que em certas ocasiões é bom “gostar” de um e noutras é melhor “gostar” do outro. São espertos na sua burrice e esta consciência científica de “saber o que se deve gostar” provoca-me um sentimento forte de vergonha alheia.

Ainda assim, é óbvio que gostar a sério não é letra morta. Isto é coisa de alguns e não de todos. Não sou o primeiro nem o último a dizer que o valor que damos às coisas já não é o mesmo de outros tempos, mas ainda há quem goste a bom gostar. Por entre mudanças tecnológicas e uma facilidade de acesso assustadora, sinto falta daquela malta que quando questionada acerca do género musical favorito, respondia “Queen!” ou “U2!” ao invés do ensaiado “ouço um pouco de tudo”. Eu sei a diferença entre bandas e géneros, mas no campeonato do gostar verdadeiramente, não me lembro de nada que bata isto.

Este fenómeno de gosto postiço é um processo social. Se antes as classes baixas imitavam as classes altas nos seus hábitos e rituais, hoje há quem faça o mesmo numa vertente cultural, porque afinal os gostos discutem-se. Há gostos melhores que outros e todos o sabemos, deixemo-nos de tretas. Os gostos induzidos fazem parte de um comportamento de afirmação e construção social, em que todos querem ter aquilo que Thorstein Veblen denominou de “bom gosto”.

Infelizmente para mim, até as percepções da ficção têm de ser revisitadas e actualizadas. Se de filme em filme fui ouvindo que as coisas têm o valor que lhes damos, hoje arrisco dizer que as coisas têm o valor que os outros lhes dão. Se gostar do desconhecido até tem algo de poético, jogar ao faz de conta tem o seu quê de humilhante. Se a virtude realmente se cultiva com a prática, seguir o rebanho nunca fará de alguém uma ovelha e, por isso, vocês, cópias, nunca serão um original.

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