Hollande obtém apoio de Cameron, mas juntar EUA e Rússia anuncia-se impossível

Washington teme aproximação de Paris a Moscovo. De visita ao Irão, Putin reafirma que "ninguém pode impor ao povo sírio a forma como deve ser governado"

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Os primeiros aviões franceses descolaram do Charles de Gaulle para missões em solo sírio Anne-Christine Poujoulat/AFP

Lado a lado, o primeiro-ministro britânico e o Presidente francês homenagearam, frente à sala de espectáculos Bataclan, os 130 mortos nos atentados de Paris. Logo depois, David Cameron abriu as portas de uma base aérea em Chipre aos caças franceses que combatem o Estado Islâmico (EI) na Síria. Foi a primeira resposta à chamada às armas que François Hollande tem feito desde os ataques de dia 13 e que o leva esta semana a Washington e Moscovo, mas a grande coligação que o chefe de Estado francês procura esbarra nas estratégias divergentes dos seus interlocutores.

“Apoio firmemente a acção determinada do Presidente Hollande de atacar o Isil [um dos acrónimos do Estado Islâmico] e é a minha firme convicção de que também nós o deveríamos fazer”, disse Cameron, no Eliseu, horas antes de anunciar que vai quinta-feira ao Parlamento pedir autorização para estender à Síria as operações que a Força Aérea britânica tem desde 2014 em curso no Iraque.

Escaldado pela derrota sofrida no Verão de 2013 – quando Westminster lhe recusou aval para alinhar na ofensiva que os EUA então planeavam contra o regime sírio –, Cameron decidiu adiar a decisão até ter garantias de que consegue o apoio da maioria dos deputados. E o momento parece ter chegado: uma sondagem do jornal The Times revela que 58% dos britânicos aprovam os bombardeamentos na Síria, e o Governo entende que a resolução aprovada sexta-feira no Conselho de Segurança da ONU, autorizando “todas as medidas necessárias” contra o Estado Islâmico, legitima a intervenção. Há ainda 20 deputados conservadores que planeiam votar contra, mas Downing Street acredita que terá o apoio de um número suficiente de trabalhistas que se rebelam contra a oposição assumida pelo seu líder, Jeremy Corbyn. Não há ainda data para a votação, mas Cameron espera que antes do Natal os aviões britânicos estejam a sobrevoar a Síria.

Antes disso, a participação britânica pode passar pela base de Akrotiri, que serviria de alternativa às mais distantes bases na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos de onde têm descolado até agora os caças franceses. Ao Mediterrâneo oriental chegou, entretanto, o porta-aviões Charles de Gaulle, de onde descolaram já nesta segunda-feira os primeiros Rafale armados com mísseis para missões em solo sírio. “Vamos intensificar os nossos ataques, escolhendo os alvos que façam os maiores estragos possíveis a este exército de terroristas”, repetiu Hollande no  encontro com Cameron.

A aviação francesa está a bombardear os jihadistas integrada na coligação liderada pelos Estados Unidos, mas Paris entende que Washington não está a usar todo o seu poder de fogo – David Kilcullen, perito australiano em contra-terrorismo, disse à AFP que os caças americanos estão a efectuar “10 a 15 saídas por dia contra o EI”, muito aquém das 250 realizadas durante a guerra no Kosovo. Na visita a Washington, nesta terça-feira, Hollande vai tentar convencer o Presidente norte-americano, Barack Obama, a intensificar os ataques, o que segundo o Financial Times passa por flexibilizar as normas definidas no início da intervenção para limitar o número de vítimas civis.

Mais difícil será persuadir os EUA a cooperarem militarmente com a Rússia, formando, se não uma coligação única, pelo menos dando mostras de que há uma união internacional contra os jihadistas. Washington insiste, porém, que tal cooperação só faz sentido se Moscovo assumir um papel “construtivo” numa solução política para a Síria (aceitando o afastamento do Presidente Bashar al-Assad) e deixar de bombardear os rebeldes apoiados pelos ocidentais – condições repetidamente rejeitadas pelo Kremlin. Fontes da Administração norte-americana admitiram à agência Bloomberg que os EUA não podem, no entanto, ignorar os apelos franceses de união, admitindo que Obama possa, no mínimo, mostrar-se menos crítico da intervenção russa.

Os EUA temem também que a aproximação de Hollande a Moscovo, onde se desloca na quinta-feira, seja usada pelo Kremlin para contrariar o isolamento a que foi votado após a anexação da Crimeia – as sanções europeias expiram em Janeiro e têm de ser renovadas em breve – e quebrar o consenso entre ocidentais sobre o afastamento de Assad. “Independentemente do que pensemos dos russos, o facto é que eles são os únicos capazes e disponíveis para accionar um número significativo de meios para esta luta”, respondeu Simond de Galbert, antigo diplomata francês ouvido pelo jornal Politico. Paris insiste também que Moscovo tem dado sinais de abertura em relação ao futuro de Assad, em parte por causa da incapacidade do Exército sírio para avançar tanto como seria de esperar desde que conta com o apoio aéreo russo, escreve o FT.

Mas o Presidente russo, de visita a Teerão, fez um rombo nas expectativas francesas. “Ninguém pode nem deve impor ao povo sírio a forma como deve ser governado o seu Estado ou quem o deve dirigir”, disse Vladimir Putin, após ser recebido pelo Líder Supremo do Irão, no primeiro encontro em oito anos entre os dois principais apoiantes de Damasco. Em total sintonia, o ayatollah Ali Khamenei afirmou que Assad “é o presidente legal e eleito pelo povo sírio” e elogiou Putin por ter “neutralizado as conspirações de Washington” para “dominar a Síria e toda a região do Médio Oriente”, planos que, diz, “são uma ameaça para todos os países, em especial a Rússia e o Irão”.