Entrevista

A doce violência dos Beach House

No espaço de dois meses os americanos Beach House lançaram dois álbuns que agora vêm apresentar a Lisboa e Porto. Não é de esperar uma produção à Las Vegas, diz-nos a cantora Victoria Legrand, mas sim uma experiência intensa.

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No dia 23, no Armazém F em Lisboa, e a 24, no Teatro Sá da Bandeira do Porto, virão apresentar não um, mais dois álbuns: Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars

A maior parte das canções de Victoria Legrand e Alex Scally, os Beach House, começa com um motivo instrumental – um som de guitarra, a caixa de ritmos em câmara lenta ou o soar roufenho dos teclados – que depois se vai expandindo langorosamente por entre melodias precisas, cadências preguiçosas e uma voz límpida. Como é evidente ao longo dos anos, existiram desvios a esta norma, mas parte do fascínio reside na forma como em seis álbuns foram propondo pequenas variações a este roteiro inicial, sem nunca o desvirtuar.

Hoje estão mais universais que nunca. Longe vão os tempos em que eram daquelas duplas que eram sussurradas de ouvido em ouvido como se fossem um segredo que importava guardar. No dia 23 de Novembro, no Armazém F em Lisboa, e a 24, no Teatro Sá da Bandeira do Porto, virão apresentar não um, mais dois álbuns, lançados de surpresa no curto intervalo de dois meses – Depression Cherry saiu em Agosto e Thank Your Lucky Stars seguiu-se em Outubro.  Victoria Legrand diz-nos que são dois álbuns obviamente diferentes. E é verdade. Mas a intensidade emocional das canções, os ambientes sonhadores e a procura de uma certa transcendência, presente nas letras e na música, são as mesmas de sempre, o que bem vistas as coisas, e no seu caso, não são propriamente más notícias.

Apesar de continuarem a existir modelos predominantes de funcionamento da indústria da música, a verdade é que nos últimos anos se assiste a uma grande dispersão. Existem inúmeras formas de operar, com consequências positivas e também negativas. De alguma forma é isso que justifica o facto de terem lançado dois álbuns num tão curto espaço de tempo?
Em parte é isso, sim. Claro que esta opção tem a ver com estes tempos loucos que estamos a viver na indústria da música em que ninguém sabe muito bem qual é a melhor estratégia comercial. Por outro lado não tem nada a ver com isso, porque foi uma decisão artística. Pode parecer inusitado editar dois álbuns um a seguir ao outro, mas também nos podemos interrogar e pensar: “porque não?” E foi isso que fizemos. Antes mesmo de entrarmos em estúdio já sabíamos que tínhamos dois discos. Foram registados ao mesmo tempo, mas eram álbuns muito diferentes para nós e resolvemos separá-los. Por outro lado, não queríamos esperar mais doze meses – como acontece normalmente – para pôr cá fora aquelas canções. Queríamos tocar aquelas canções ao vivo agora, porque é neste momento que elas fazem parte da nossa vida e nos fazem sentido.

Eram discos separados à nascença ou foi no decorrer das gravações que perceberam que havia provavelmente canções que apontavam para conceitos distintos entre si?
Já tínhamos a noção prévia de que eram dois discos diferentes. Acabamos as gravações de Depression Cherry em Julho de 2014 e foi só depois que passamos ao outro disco de imediato. Ou seja, tínhamos a noção perfeita de que eram mundos separados, ao nível dos ambientes, das canções, das histórias, do imaginário. São discos com energias diversas. Thank Your Lucky Stars é mais punk, mais politizado, é um disco de confronto, violento até de alguma forma, com alusões feministas contundentes e com predominância da guitarra, enquanto Depression Cherry é mais pastoral e abstracto.

Não é comum fazerem-se alusões ao punk ou utilizar palavras como “violento” para tentar expressar estados de espírito a partir da vossa música, mas você fá-lo bastante.
É verdade. Talvez tenha a ver com alguma reacção ao facto de traduzirem sempre a nossa música como algo de etéreo, como se a violência não estivesse em todos os domínios da vida, inclusive no amor. A vida às vezes é lixada, dolorosa e estranha. E violenta. Sempre me revi nessa ideia do punk de qualquer pessoa poder subir a um palco e poder expressar-se. Acho que os Beach House continuam a ser isso. E sim, expomos violência, à nossa maneira. Uma violência lenta, romântica, desconfortável e por vezes também doce.

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Numa entrevista recente dizia que se não fosse cantora, provavelmente escreveria romances. Suponho, então, que escrever as letras das canções seja uma das componentes que mais prazer lhe dão quando parte para a feitura de um disco.
Sim, de alguma forma, a partir dessa dimensão, olho para mim própria como sendo escritora também. Gosto muito do processo de escrever. Criar música ou letras pode ser algo muito difícil ou muito fácil. Depende. É trabalho e é também prazer. Gosto de tingir as canções com um imaginário próprio, que tanto pode vir de mim, como de situações que me são exteriores. Não tenho propriamente um método organizativo a escrever. Posso escrever no aeroporto ou até quando vou a conduzir, apesar de a polícia não gostar muito...[risos]. Quando estou disponível para criar – seja escrevendo ou tocando – é qualquer coisa de único. Acho que posso dizer sem dificuldade que alguns dos momentos mais felizes da minha vida foram passados a criar. Quando se sente que tudo à nossa volta faz sentido, não queremos estar em mais nenhum sítio. É ali, é aquele momento, que faz sentido e nada à nossa volta interessa mais. Às vezes nem percebemos de onde aquilo, a inspiração, provém, mas quando estamos disponíveis para a receber pode ser transcendente. Depois trata-se de comunicar com os outros, alimentando o mundo interno, sem esquecer de universalizar essas experiências pessoais. 

Alimentar esse mundo interno e partilhar com os ouvintes experiências que possam ser comuns implica ter também uma existência diversa para além dos palcos. Isso é muitas vezes difícil de alcançar na vida de uma músico. Como é com vocês?
Nem sempre é fácil, é verdade, para quem, como nós, passa muito tempo em viagens. Não é de forma nenhuma uma vida comum à maioria das pessoas, mas a forma como nos relacionamos com a realidade acaba por não ser assim tão diferente.  Quer dizer, andar em digressão, não é uma coisa chata e pode ser uma experiência muito intensa, mas ao mesmo tempo pode ser muito desumano. Gosto de digressões, apesar de poderem ser muito extenuantes, mas sim preciso de passar por fases em que estou distante disso tudo. Mas percebo o que diz: é como se estivéssemos sempre numa situação excepcional, como são os ambientes de concerto, onde acabamos por dar tudo de nós, ou então estamos num contexto em que reagimos a isso, tentando descansar o mais possível. É como se nunca desligássemos totalmente desse mundo onde submergimos. Por outro lado, uma vez, estivemos seis meses sem fazer nada – é o nosso recorde – e foi extremamente angustiante. No fim de contas gosto da excitação e da pressão que aquilo que fazemos nos provoca.

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Sendo estes dois álbuns diferentes é de crer que os concertos que agora estão a dar tenham partes distintas?
Temos tanto material que eu diria que os nossos concertos têm hoje partes que nunca mais acabam...[risos]. Tocamos canções dos dois álbuns mais recentes, mas como é evidente também há outros temas mais antigos, fazendo com que os nossos concertos sejam cada vez mais diversos, embora a identidade se mantenha. Diria que este novo espectáculo é como o jogo de luzes que agora estamos a experimentar: simples, eficaz e bonito. Não é evidentemente uma produção à Las Vegas, o que seria ridículo, mas qualquer coisa focada na música, com quatro músicos em palco a tentarem proporcionar uma experiência intensa. Ao longo dos anos fomos mudando e é interessante perceber isso quando tocamos canções do início, porque as apresentamos com a energia do presente e com arranjos renovados. Aprendemos imenso nos últimos dez anos e sentimos que essa vontade de aprendizagem ainda está presente o que é fantástico.

Há dois anos entrevistei Alex Scally que se recordava com nitidez do primeiro concerto que deram em Lisboa, em 2008, num espaço chamado Maxime. Ainda se lembra dessa noite?
Recordo-me perfeitamente. Aliás durante muito tempo falávamos com regularidade desse concerto porque foi numa fase relacional entre nós muito importante e também porque marcou uma viragem na nossa relação com os palcos europeus. De alguma forma foi a partir daí que começamos a crescer. Foi muito especial, aliás a cidade de Lisboa, e Portugal em geral, do que conhecemos, são dos nossos locais favoritos por esse mundo fora. É sempre um prazer regressar.