Entrevista

Cédric Villani: “Nós, cientistas, somos muito populares, desde que consigamos afirmar a nossa individualidade”

O matemático francês Cédric Villani, distinguido com a Medalha Fields, o Nobel da matemática, é uma estrela da ciência. O PÚBLICO pediu a outro matemático, o português Jorge Buescu – autor de livros de divulgação como “O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias” –, para o entrevistar.

Jorge Buescu (à esquerda) e Cédric Villani (à direita)
Jorge Buescu (à esquerda) e Cédric Villani (à direita) Miguel Manso
Cédric Villani recebeu a Medalha Fields em 2010
Cédric Villani recebeu a Medalha Fields em 2010 Miguel Manso
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Cédric Villani tornou-se uma figura pública quando foi galardoado com Medalha Fields de 2010, pela demonstração matemática de um fenómeno previsto nos anos 40 pelo físico russo Lev Landau (o amortecimento em plasmas). Desenvolveu este trabalho na École Normale Supérieure de Lyon, onde foi professor entre 2000 e 2010. Desde 2009, é o director do Instituto Henri Poincaré, em Paris, além de professor na Universidade de Lyon. Recentemente, esteve em Portugal para várias iniciativas, incluindo o lançamento da edição portuguesa do seu livro Teorema Vivo, pela Gradiva. Nesta entrevista, Villani, agora com 42 anos, fala do “estado obsessivo” para fazer matemática, de como a Medalha Fields mudou a sua vida e até da forma original como se veste.

PÚBLICO: Para fazer matemática ao mais alto nível, é preciso perseguir uma ideia em regime de obsessão. Podes descrever este processo?
É muito simples: começa-se pela curiosidade; fazemo-nos uma pergunta simples… depois reflecte-se muito sobre ela… depois pensa-se no assunto dia e noite, torna-se uma obsessão, investimos nela todas as nossas forças, e cada nova ideia vem reforçar o projecto; escrevemos, reescrevemos, recomeçamos… Acabamos por desenvolver sobre ela um interesse vital. É muito importante conseguir entrar no tal “estado obsessivo”, mesmo que temporariamente. No Teorema Vivo, esta escalada da obsessão é traduzida, em parte, pela invasão progressiva do texto por fórmulas matemáticas.

É claro no teu livro Teorema Vivo que, antes de seres galardoado com a Medalha Fields, a matemática ocupava todo o teu tempo. Como é que a Medalha Fields mudou a tua vida?
Os anos antes da Medalha Fields estavam, de facto, completamente preenchidos pela matemática, mas nem sempre foi assim. O início da minha tese de doutoramento foi marcado pela minha propensão para fazer todo o tipo de coisas: ia ao cinema, a concertos, fui mesmo eleito presidente da Associação de Estudantes da École Normale Supérieure [de Paris]. Os meus dias estavam, nessa altura, preenchidos por tudo menos matemática, e corri o sério risco de a minha carreira terminar mesmo antes de ter começado! A Medalha Fields fez-me regressar a este estado, ao orientar-me para todo o tipo de missões públicas – representação, discurso, administração, cooperação, concepção de projectos… Tornei-me presidente de associações, autor, figura pública, etc. É uma nova vida, ou talvez várias novas vidas, aquela que se me abriu.

Sentes falta do envolvimento diário com a matemática? Achas que vais voltar à tua antiga vida ou os novos desafios são demasiado sedutores?
Sim, sinto falta do envolvimento diário, mas não podemos fazer tudo na vida! Sinto falta do piano, sinto falta das idas regulares ao cinema… Podíamos prolongar a lista, mas é assim. O mais grave não é quando nos falta o tempo, mas quando nos falta a vontade. Por outro lado, continuo a dar aulas e a aperfeiçoar os meus apontamentos para as disciplinas; isso é muito importante para mim. E, sobre o futuro, não me dedico totalmente a nada: nunca pensei no meu futuro a longo prazo, e não conto começar agora! Por enquanto tenho desafios a cumprir daqui até ao fim do meu mandato de director do Instituto Henri Poincaré, isso é uma prioridade.

Como explicas a excelência da escola matemática francesa?
É em primeiro lugar uma questão de história: uma tradição que remonta às Luzes, a instituições fecundas, a uma herança da Revolução Francesa. Mas é também uma questão de espírito: os franceses são tão afeiçoados ao universalismo, à abstracção, ao absoluto… Aos meus colegas estrangeiros digo por vezes a brincar que “a matemática é a arte de descobrir as leis absolutas do mundo e de as explicar à Terra inteira; não é precisamente isto que os franceses fazem sempre sobre todos os assuntos?”

Em 2014, depois de mais de 70 anos, pela primeira vez uma mulher [a iraniana Maryam Mirzhakani] foi galardoada com a Medalha Fields. Por que razão foi preciso tanto tempo? As mulheres não fazem boa matemática?
Algumas razões são históricas: durante muito tempo não era permitido que as mulheres estudassem (pensa em Hipátia de Alexandria, ou em Sophie Germain, que se fazia passar por homem para comunicar com Gauss). A falta de modelos contribuiu para alimentar a ideia de que as raparigas teriam uma falta de disposição para as ciências fundamentais; é por isso que a medalha de Maryam Mirzhakani, quebrando esta fatalidade, constitui um acontecimento muito importante.

Mas há outras questões mais subtis e que vão para além dos estereótipos mais simples: questões de comportamento face à competição, de capacidade de mergulhar num ambiente altamente selectivo e competitivo. Na minha experiência isso repele as jovens raparigas, e está também relacionado com a falta de auto-confiança que muitas delas revelam. No entanto, as carreiras nas ciências fundamentais, pela relativa liberdade que proporcionam, são bastante favoráveis às jovens, e eu recomendo vivamente àquelas que têm gosto por estas disciplinas que as considerem como opções de carreira. Repara finalmente que em certas culturas (Próximo Oriente, Médio Oriente) são estatisticamente as mulheres que estão mais motivadas por estes assuntos; de resto, o facto de ser precisamente uma iraniana a primeira a ser premiada com a Medalha Fields faz-nos pensar imediatamente nisso. Isto mostra bem que a questão é eminentemente cultural.

Tens algum conselho a deixar aos matemáticos portugueses?
É muito importante viajar e apanhar ideias à direita e à esquerda, mesmo se desejamos estar a viver no nosso país. Em Portugal, vem-me logo à cabeça o caso do meu colega Jean-Claude Zambrini, professor na Faculdade de Ciências de Lisboa: foi no estrangeiro e com o jogo dos encontros que ele descobriu os temas da sua predilecção.

E que conselho deixarias aos jovens aprendizes de matemáticos?
Em primeiro lugar, ter orgulho e confiança por trabalhar numa disciplina que está a desenvolver-se como nunca antes. Em seguida, nunca hesitar em especializar-se numa primeira fase, mantendo contudo a curiosidade sobre tudo e a vontade de aprofundar novos assuntos no futuro. E também deixar espaço para o jogo da sorte e do acaso modelar a carreira.

A que projectos profissionais te dedicas hoje em dia?
A muitos – a demasiados! A ampliação do Instituto Henri Poincaré é um deles; passa por grandes obras de renovação (para as quais obtive grandes apoios públicos), pela criação de um fundo de dotação, por parcerias privadas, pela construção de um museu dedicado à matemática para todos os públicos. É o grande projecto do meu segundo mandato como director. Desenvolvo também acções de cooperação com África: todos os anos ensino lá cursos de mestrado, e integro um sem-número de conselhos científicos. Finalmente, continuo a ser editor de revistas matemáticas e membro de numerosos conselhos editoriais.

Porque sentiste o apelo da divulgação científica depois da Medalha Fields?
Era algo natural no ambiente científico de Lyon – sobretudo em matemática, por influência de Étienne Ghys, que tinha dado o exemplo. Tinha mesmo frequentado uma formação no CNRS [Centro Nacional de Investigação Científica francês] sobre a comunicação com os media. Mas, acima de tudo, foi o mundo exterior – toda a sociedade – que mo solicitou. Fui contactado por escolas, cadeias de televisão, rádios, jornais… Quando te convidam e as coisas correm bem, és convidado de novo, e de novo, e de novo. Todos os anos recebo centenas de convites para realizar conferências públicas ou participar em emissões, debates, entrevistas, etc. Apenas respondendo a uma pequena proporção destes convites, tenho um programa de conferências completo.

E o que reténs mais distintamente destes cinco anos de grande exposição pública?
Primeira lição: nós – investigadores, cientistas – somos muito populares, desde que consigamos afirmar a nossa individualidade e tomar a palavra. Segunda lição: o contacto com o grande público é muito enriquecedor, desde que levado a sério. Terceira lição: o contacto com o público é algo que se trabalha e se melhora; existem dificuldades e armadilhas, mas aprende-se a contorná-las. Quarta lição: demora anos a tecer os laços e as experiências necessários para conseguir um impacto consequente. Quinta lição: é com as emoções (riso, deslumbramento, sentido trágico) que se estabelecem os laços fortes.

Tens uma experiência única. Queres contar-nos alguns episódios particularmente marcantes?
Houve episódios fortes. A publicação dos meus livros foi um deles: em primeiro lugar, Teorema Vivo (mais de 100.000 exemplares, traduzido em 12 línguas); mas também Les rêveurs lunaires, um romance gráfico original [banda desenhada sobre quatro génios que mudaram a história, Werner Heisenberg, Alan Turing, Leo Szilard, e Hugh Dowding] que me proporcionou 18 meses de colaboração extraordinária com um enorme desenhador [Baudoin], que se tornou um amigo próximo.

A minha experiência associativa foi muito marcante: fui presidente da associação Musaiques, fundada pelo músico e engenheiro Partice Moullet; trata-se de conceber novos instrumentos musicais para fazer tocar, alternadamente, músicos profissionais e jovens deficientes. A visita do centro de polideficientes com o qual trabalhamos foi um dos momentos mais comoventes da minha vida. As visitas organizadas nas minhas “tournées” são muitas vezes impressionantes, desde o deserto da Arábia ao Museu de História Natural do Minnesota (onde segurei nas mãos ossos fossilizados muito raros de dinossauros), passando pela Biblioteca de Coimbra e pelas escavações arqueológicas do Líbano.

E as passagens pelos media também me proporcionaram experiências fortes. Um dia, numa cadeia de televisão, num programa muito popular, sabia que teria exactamente um minuto para evocar a minha disciplina. Levei três objectos ilustrativos: uma edição dos Elementos de Euclides, um Gomboc (uma forma matemática fascinante descoberta recentemente por investigadores húngaros) e um telemóvel, para ilustrar toda a gama daquilo que a matemática representa. Foi um grande sucesso!

Acaba de se saber que foste escolhido, tal como a investigadora portuguesa Elvira Fortunato, para integrar o mais importante conselho científico da União Europeia. Pensas dedicar-te também à política?
Já me aconteceu estar envolvido em algumas eleições em França; em particular fui presidente do comité de apoio a Anne Hidalgo para as eleições para a Câmara de Paris. Mas o meu envolvimento político duradouro é enquanto europeu federalista: retomo assim uma bandeira que, no seu tempo, era transportada por Henri Cartan [matemático francês]. A minha nomeação para o conselho científico inscreve-se neste compromisso. Julgo que é importante que nós, cientistas, estejamos envolvidos na vida política. Temos a nossa palavra a dizer.

Quais são os teus interesses para lá da matemática?
A música, a leitura, o cinema, a banda desenhada, as viagens… Um pouco de tudo! Em Portugal tive o privilégio de participar no júri do notável Festival de Cinema de Lisboa e Estoril [na edição deste ano], organizado pelo Paulo Branco; foi uma experiência apaixonante.

Vestes-te de forma muito original. Fato de três peças, relógio de bolso, laço ou plastron ao pescoço, na lapela um alfinete em forma de aranha… Não é exactamente o look de um matemático! Porquê?
Porque sou eu. A sério, não há nenhuma razão especial. Adoptei o meu look por volta dos 20 anos; era uma necessidade, era instintivo. Procurei o visual que melhor correspondia a mim próprio.

Disseste que eras tímido em criança. É bem difícil imaginar isso, vendo-te hoje… Queres comentar?
“Um monumento humano à glória da timidez”: foi assim que me descreveu um jornalista num artigo de jornal, quando eu tinha 17 anos (fui entrevistado pelos meus bons resultados no secundário). Passei a infância a ouvir que era demasiado tímido: os meus pais, os professores, os colegas… Sofri mais com esta lengalenga do que com a timidez. Quanto à evolução para o meu carácter actual, mais extrovertido, deu-se naturalmente: os seres humanos evoluem à medida que vão mudando de ambiente.

Tens filhos, e no teu livro transparece bem que és um pai muito afectuoso. Eles têm a noção de que o papá é um dos maiores cientistas do mundo e uma estrela planetária? Como reagem a isso?
Uma estrela planetária? Também não é preciso exagerar. Tenho a certeza de que alguém como o Justin Bieber, seja o que for que se pense da sua música, tem muito mais sucesso mediático do que eu! Quanto aos meus filhos, acho que eles ficam orgulhosos em me ver aparecer um pouco em toda a parte, e lêem os meus livros com atenção; ao mesmo tempo, gostam de zombar educadamente de mim; e, acima de tudo, tenho a certeza de que ficam felizes quando estou em casa!