Reportagem

"A cidade é bonita, mas está tudo fechado"

Coração da capital belga praticamente vazio. Donos de restaurantes queixam-se da falta de turistas. Esperam que a situação acalme rapidamente.

Duas turistas na Grand-Place, este domingo
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Duas turistas na Grand-Place, este domingo Francois Lenoir/Reuters

Vinte e quatro horas depois de as autoridades belgas terem elevado para o nível máximo o risco de ataque terrorista, o coração de Bruxelas está praticamente vazio. Este não é um domingo como tantos outros.

Nas ruas para a Grand-Place não se ouve o tradicional misto de línguas. Não há encontrões. A maior parte das lojas da zona, que ao domingo têm as portas abertas, está fechada. Jornalistas, soldados e alguns, poucos, turistas compõem o fraco movimento que se faz sentir no centro de Bruxelas.

"Não temos ninguém", queixa-se Salim, dono de um restaurante na típica rua de Bouchers onde, porta sim, porta sim, é hábito ver turistas a degustar moules. Não neste domingo. As esplanadas estão vazias. E os empregados não têm ninguém para convidar a entrar nos seus estabelecimentos, os que estão a funcionar.

"Ontem fechámos mais cedo, cerca de duas horas antes do normal," explica Salim, frustrado com o mau negócio este fim-de-semana. "Não temos turistas", queixa-se também Souhael, dono de um restaurante algumas portas mais abaixo. "Ontem fechámos pelas onze da noite. Hoje não creio que fiquemos abertos para lá das nove."

"Só espero que as coisas mudem", diz Souhael, também desanimado pelo impacto no negócio e pela ameaça de ataque à sua cidade natal. O alerta máximo, porém, vai manter-se, anunciou o Governo ao fim da tarde.

A ordem do Governo belga para fechar grandes centros comerciais, salas de espectáculos e museus é "frustrante" para todos. Se de um lado donos de restaurantes, pastelarias e lojas de recordações sentem um impacto negativo no negócio, do outro turistas lamentam estar em Bruxelas e não poderem fazer nada.

"É frustrante. É irritante", diz Steven, um turista australiano que compra chocolate belga a poucos metros da Grand-Place. "Eu não queria viver aqui. Parece-me que a situação só vai piorar e não melhorar."

Crónica de um fim-de-semana em casa: O dentro e o fora

"A cidade é bonita, mas está tudo fechado", lamenta Sunny Kim, uma sul-coreana de visita à capital belga com a mãe. "Há imensos polícias e a atmosfera é tensa", diz a estudante que ainda assim gostava de um dia voltar a Bruxelas e poder ver os museus que este fim-de-semana não pôde.

Apesar de as ruas estarem mais vazias, de a maior parte das lojas estar fechada e de a amostra de pessoas que normalmente frequentam esta zona da cidade estar diferente, Bruxelas não pára. Prova disso: este domingo prosseguia a construção do presépio de Natal em plena Grand-Place — a árvore de Natal já lá está.

E Peter, o músico de rua, de voz rouca e olho azul, continua a cantar ainda que poucos o ouçam. "Eu estava em casa e decidi vir na mesma. Tenho de me exprimir."

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