Crítica

Foi um sonho americano feliz

O notável programa que celebrava uma frutífera carreira e se anunciava como última vez foi aclamado com felicidade e reverência. E não era para menos.

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A Trisha Brown Dance Company veio a Lisboa com um notável programa que celebrava uma frutífera carreira singular e se anunciava como última vez. O público efusivo aplaudiu Trisha Brown com felicidade e reverência, e não era para menos.

O prazer começou com a leveza encantadora de Son of Gone Fishin’ (1981), um quinteto em tons brilhantes de cinza, castanho e cor de pele, que segue uma lógica molecular. Num vaivém natural, como células do mesmo corpo transmitindo a energia entre si, três mulheres e dois homens ora convergiam em breves formações de conjunto ora se espalhavam em duetos, solos ou trios, sempre dinâmicos. Em cada órgão desta dança o movimento implode numa cabeça que descai e desperta a rotação da anca, que dispara o alongar de uma perna para o céu, mas que um braço recolhe com uma curva, para dar esse ar ao outro braço, que se estica para o vazio, elevando todo o corpo num ágil salto subtil. Com influências perceptíveis de Cunningham e Halprin, Brown deu asas à sua dança que investiga a Física da coreografia com tanto rigor mas que é tão livre.

A exaustão de possibilidades de variações e distribuição de uma frase-tema é, em boa parte, o motivo de Rogues (2011), um dueto masculino e azul. Sem mímicas descritivas de relacionamento há, entre os dois homens, um diálogo constante e um jogo nítido e delicioso - eles estão sempre a entrar e a sair do uníssono, ora tomando caminhos diferentes da mesma frase ora reunindo-se com ‘palavras’ comuns. Fazem-no numa boa junção de um percurso horizontal – caminhando no palco – mas também vertical – pelas frases que trespassam todos os níveis (do chão ao ar) de uma só vez.

Com o icónico If you couldn’t see me (1994), originalmente dançado por Trisha Brown e feito com Robert Raushenberg, proporciona-se um momento afectivo alto, provocado pela memória estimulada e pela presença destes dois criadores, sentida através da peça diante de nós. Neste solo a bailarina, sempre virada para o fundo negro, de vestido claro e iluminada de vermelho, crepita como uma chama; enquanto se define como pessoa através da coreografia depurada e em resposta à sonoridade enigmática, ela guia-nos para  uma contemplação do incógnito.

A intimidade de Brown com outras artes - como a música o desenho e o cinema – é conhecida e visível na sua obra, apesar da valorização da dança como arte independente. Present Tense (2003), a peça que num brilharete encerrou a noite, é uma construção exímia de relações entre forças e da sua potência visual. O grupo misto de seis bailarinos dispõe-se em espelhos e estátuas num encontro onde a lógica arquitectónica é predominante; eles alternam funções de suporte, elo, objecto de plinto ou imagem de moldura e montam e desmontam formações com uma eficácia surpreendentes; conseguem assim um desenrolar de cores vivas que se entendem, na perfeição, com a cenografia de Elizabeth Murray e a composição de John Cage.

O trabalho de Brown tem uma dimensão formal que nos encaminha a percepção e o juízo para a qualidade das energias e construções abstractas; mas a forma como esta dança implica as pessoas e os seus papéis tem um significado residual relevante. Sendo a coreógrafa da geração americana pós-modernista, que nos anos 1960 aboliu estereótipos de representação e hierarquia nas artes, não é de estranhar nesta energia eficaz o reflexo  de um sonho democrático, sem disputas de género e contra a guerra. É uma bonita sociedade, cooperante e criativa, que avança. Foi maravilhoso.