Reportagem

O tempo ajudou e o beaujolais nouveau também — Paris prestou homenagem às vítimas dos terroristas

A noite estava fria, mas uma semana depois dos ataques, Paris cumprir uma difícil, mas necessária, homenagem e comemoração. "Respondemos às balas deles erguendo os nossos copos”.

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Praça da República, em Paris, sexta-feira à noite Philippe Wojazer/Reuters
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Pessoas foram o "logo" "reze por Paris" junto ao Belle Equipe, um dos restaurantes alvejados na sexta-feira 13 ALAIN JOCARD/AFP
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Mãos dadas na Praça da República, em Paris, sexta-feira à noite KENZO TRIBOUILLARD/AFP
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Velas formam um coração num memorial junto ao Bataclan BERTRAND GUAY/AFP
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Homenagem às vitimas de Paris em Nantes JEAN-SEBASTIEN EVRARD/AFP

O tempo ajudou, e o beaujolais nouveau também: a chuva que caiu sem trégua durante todo o dia, finalmente cedeu com o pôr do sol, e à porta dos bares, bistrots e cafés parisienses, penduraram-se as placas de louza marcadas a giz, anunciando a chegada da nova colheita do famoso vinho da região do Rhone — a 3,5 euros o copo.

Sexta-feira, e ao cair da noite, Paris preparava-se para sair à rua e cumprir uma difícil, mas necessária, homenagem e comemoração: a da primeira semana de vida depois dos brutais ataques terroristas que mataram 130 pessoas que se divertiam nos mais movimentados bairros do centro da cidade, e também no suburbano Stade de France, em Saint-Denis, onde a selecção nacional de futebol se batia contra a Alemanha. “Se beber uns copos, ir ao concerto ou ao jogo se vai tornar um combate, podem tremer, terroristas, porque nós estamos bem treinados!”, diz um cartaz colado à grade do jardim do Boulevard Richard Lenoir, que é agora um gigantesco altar, um memorial espontâneo a céu aberto.

Mesmo em frente fica o colorido edifício de traça oriental ocupado pelo Bataclan, a sala de espectáculos que registava lotação esgotada (1600 pessoas) para o concerto dos norte-americanos Eagles of Death Metal, na semana passada. Num café a cerca de 200 metros, rodeada por câmaras de televisão, Alice conta que revendeu o seu bilhete, porque o marido viajou e acabou por não lhe apetecer ir sozinha. Entregou-o a um rapaz cujo nome desconhece: “Jamais saberei o que lhe aconteceu, se foi uma das [89] vítimas mortais ou se conseguiu escapar aos terroristas”, lamenta.

Esta noite, Alice tem o marido ao lado, e os dois, como tantos dos seus vizinhos do 11.º bairro (arrondissement), foram ao seu bistrot favorito para brindar a abertura do beaujolais nouveau, como sempre, na terceira quinta-feira de Novembro (é sexta, mas enfim). As suas palavras são um eco das dos milhares de convivas franceses, na rua à mesma hora — é preciso continuar a viver e a fazer a festa, apesar da imensa tristeza que ainda abafa a capital. “Não posso dizer que não tenho medo porque tenho, essa é a verdade. O que posso é não ceder ao medo. O que nos resta é viver uma vida normal”, considera.

Talvez por isso, a única coisa verdadeiramente fora do normal que os parisienses fizeram na noite de sexta-feira foi parar o que estavam a fazer, às 21h20 em ponto, a hora do primeiro tiroteio, na esquina que divide a Rue Alibert da Rue Bichat e separa o restaurante Petit Cambodge do bar Le Carillon. Pelo passeio, à porta dos dois estabelecimentos, estende-se agora um tapete de flores e velas, depositados ao longo da semana por vizinhos e amigos — “todos os nossos amigos e clientes habituais e que há mais de quarenta anos são a alma deste lugar”, como diz a mensagem de agradecimento manuscrita colada à porta pela família Amokrane, que detém o bar — e também por desconhecidos, emocionados pelos acontecimentos. A atmosfera é solene; o momento da tragédia é assinalado em silêncio, com lágrimas e abraços.

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A Praça da República na sexta-feira à noite Charles Platiau/Reuters

Pelo contrário, na Place de la République, e por sugestão (e apelo) de um grupo de artistas e intelectuais, a homenagem às vítimas dos atentados terroristas de 13 de Novembro fez-se com aplausos, gritos, música e brindes, com latas de cerveja, garrafas de vinho e outros líquidos ainda mais espirituosos. “Os assassinos podem querer calar-nos mas nunca vão conseguir. Respondemos às balas deles erguendo os nossos copos, desafiamos o seu ódio com beijos e abraços, cantando todos juntos. Não quero dizer que sinto orgulho, mas vendo o que que se está a passar aqui esta noite, quero dizer que me sinto muito feliz por ser francês”, dizia Jerome, que minutos antes era um dos elos da cadeia humana que se formou em torno da estátua da República para cantar o hino nacional.

Vista à distância, a animação da praça, onde pessoas de todas as idades e origens, roupas negras ou casacos coloridos, colunas de música, guitarras e acordeões, conversavam, bebiam, dançavam e se abraçavam (o grupo de jovens com cartazes a prometer “Free Hugs” não tinha um segundo de sossego) era a imagem acabada, a ilustração perfeita do joie de vivre francês, e da vontade de zombar e desafiar de quem quer pô-lo em causa.

O que os parisienses mostraram, na noite fria de sexta-feira, naquela praça que simboliza o país que quiseram construir, foi que é nas coisas banais do quotidiano que sentem representados os princípios da liberdade e da democracia — os tais valores republicanos que defendem e prezam. “Para mim, não são preciso palavras caras para explicar o que é a liberdade: é simplesmente ir ao café, comer e beber o que entender, ler os livros e os jornais e ouvir a música que quiser, viver num bairro que tanto pode ter igrejas como mesquitas como bibliotecas, discotecas e sex-shops”, explicava Nathalie.

Na esplanada do café-restaurant Chacun fait…, três amigos que fumam um cigarro discutem animadamente. “Claro que íamos sair de casa, nem era preciso fazer uma campanha nos media a pedir”, respondem ao PÚBLICO, acrescentando que a discussão tem a ver com os actuais bombardeamentos franceses de alvos associados ao Estado Islâmico (ou Daesh, como designam os franceses) na Síria. “Todos concordamos que é preciso resolver o problema da guerra da Síria”, informa um dos amigos, mas esse parece ser o único ponto em comum: com os nervos à flor da pele, a conversa provavelmente vai acabar mal, e esse não é o intuito da noite. “Mais vale entrevistar aqueles adolescentes que estão ali a beber e ouvir rap nos bancos atrás da igreja de Jourdain”, sugere.

Mesmo se nem todos responderam ao apelo para ocupar as ruas e as esplanadas com “barulho e luzes”, muitos não deixaram de fazer da noite de sexta-feira uma ocasião especial. Ao fim da tarde, o casal Guillaume e Colette fazia compras para receber amigos em casa: vinho, ostras, queijos, enchidos, frutas e chocolates, “tudo o que a França tem de melhor” para celebrar a vida. Guillaume, que trabalha no 11ème, não muito longe do restaurante italiano Casa Nostra, um dos alvos dos terroristas, diz que durante a semana acordou diversas vezes a meio da noite, perturbado, a pensar nas vítimas, “pessoas que sei que são tal e qual como eu”. Neste dia de homenagem, as televisões francesas passavam os seus nomes no ecrã —Stéphane, Thomas, Claire, Alban, Émilie, Roman, Anne, Cédric, Marie, Isabelle, Fany, Bertrand, Caroline, Thibault, Madeleine, Valeria, Salah, Kheireddine, Djamila, as irmãs Halita e Hodda — letras brancas que iluminavam um fundo preto e não deixavam ninguém indiferente. Guillaume pensa reconhecer o nome de um conhecido, mas “não pode ser possível, não quero acreditar que ele conste na lista dos mortos…"

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Tributo às vítimas dos atentados, Praça da República, Paris LOIC VENANCE/AFP

Benjamim e o seu grupo de amigos e amigas universitários, como ele, reuniram-se como habitualmente fazem às sextas-feiras, para beber uns copos e pôr a conversa da semana em dia, mas decidiram evitar o seu ponto de encontro do costume, junto ao canal de Saint-Martin, e rumaram para o Beaubourg. Na fachada do Centro Pompidou fora pendurada, logo pela manhã, uma enorme tarja com o célebre verso do poeta Paul Eduard, “Liberté, j’écris ton nom”, ilustrado pelo pintor Fernand Léger. “Os acontecimentos da semana passada lembram-nos que a vida pode ser fugaz e que não devemos desperdiçar nenhuma oportunidade. Hoje, quando nos abraçamos, dissemos uns aos outros como a nossa amizade é importante”, confessa. “Não sei o que me pode acontecer quando sair daqui e for para casa, e quero que eles saibam”, justifica.