O “retorno” foi há 40 anos mas volta a ser agora

Nos anos 1970, os caixotes de madeira dos “retornados” subiam alto junto ao Padrão dos Descobrimentos. Agora, no mesmo local, uma fotografia reactiva o passado. Há muito trabalho a fazer na digestão de um dos maiores traumas nacionais

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Fotografia dos contentores dos "retornados" feita em 1975 pelo fotojornalista Alfredo Cunha DR
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Perspectiva da instalação documental de Manuel Santos Maia José Frade
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Retratos de ex habitantes das províncias ultramarinas portuguesas por Bruno Simões Castanheira José Frade

A 25 de Julho de 1977 o jornal O Dia publicava um pequeno anúncio de canto de página emitido pelo IARN. O Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais fazia saber que nos armazéns da Standard Eléctrica, em Lisboa, se encontrava por reclamar bagagem chegada das antigas colónias ao longo dos anos de 1975 e 1976.

“Ficam os respectivos proprietários avisados de que devem proceder ao seu levantamento, com a maior brevidade possível, chamando-se a atenção para o facto de que a longa permanência dos volumes em armazém poderá ocasionar a sua danificação e deterioração, pelas quais o IARN não pode responsabilizar-se”, lê-se no aviso.

Quem abandonaria os seus poucos bens ao longo de mais de dois anos? Na maioria dos casos, provavelmente, nacionais a viver em hotéis, pensões, quartos em casa de familiares e amigos, em camaratas de colónias de férias e parques de campismo.

Eram aos milhares os que dois anos volvidos sobre o êxodo dos antigos territórios ultramarinos não tinham conseguido começar a reconstruir as suas vidas, mergulhados no desenraizamento e precaridade simbolizados pelas centenas de contentores de madeira deixados a apodrecer à chuva junto ao Padrão dos Descobrimentos.

Mobílias e electrodomésticos, livros, roupas, loiças, brinquedos, fotografias de família – vidas inteiras: as torres de caixotes abandonados e alguns esventrados e pilhados no porto de Lisboa tornaram-se na imagem emblema do chamado “retorno” que a partir do 25 de Abril de 1974 fez entrar em Portugal mais de meio milhão de nacionais até ali residentes em África. É a imagem invocada pela intervenção que Retornar – Traços da Memória tem agora no mesmo local junto ao rio – uma série de contentores com uma grande fotografia ampliada tirada ali mesmo, em 1975, pelo fotojornalista Alfredo Cunha.

Iniciativa da EGEAC, a empresa de equipamentos e animação cultural de Lisboa, Retornar é um evento transdisciplinar com actividades a decorrer ao longo dos próximos quatro meses. A intervenção junto ao Padrão dos Descobrimentos faz parte da exposição com que, dentro desse programa, a EGEAC inaugura uma nova galeria municipal – a Galeria Avenida da Índia (no número 170, em Belém).

O aviso publicado no jornal O Dia é um entre muitos recortes de imprensa que, nessa exposição documental, ajudam a compor o complexo puzzle da narrativa social por detrás de um dos maiores traumas nacionais.

Comissariada pela antropóloga Elsa Peralta, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a mostra formaliza parte do trabalho desta investigadora sobre a representação do Portugal pós-colonial e a constituição de uma pós-colonialidade a partir da década de 1980, no quadro europeu. Dentro da investigação geral para a exposição, a investigação de media – em centenas de notícias de jornais nacionais e das antigas colónias – foi feita por um dos doutorando do instituto, Bruno Góis.

É a secção através da qual mais facilmente acedemos hoje à psicologia colectiva da época – à forma como os diversos acontecimentos sociopolíticos foram integrados no discurso público e, através dele, na opinião pública.

“Uma das preocupações era tentar perceber como tantas pessoas diferentes nunca tinham pensado que acabariam por ter de voltar”, explica o investigador. Refere-se à precipitação da Ponte Aérea que nos breves meses do Verão Quente de 1975 terá feito aterrar em Portugal mais de 200 mil pessoas em cerca de 900 voos de emergência. A maior parte não trazendo nada ou muito pouco da sua vida anterior.

Através de testemunhos directos, sabe-se como em Angola e Moçambique, por exemplo, a maior parte dos residentes ultramarinos urbanos viviam, em grande medida, alheios à guerra em volta, acontecimentos das distantes províncias interiores que a vastidão territorial, na maior parte dos casos, transformava em ecos minorados ou distorcidos. Grande parte dessa faixa populacional não estava também especialmente informada sobre a realidade política metropolitana e acreditava na possibilidade de uma transição de regime, tanto na metrópole como nas colónias. Por outro lado, através da documentação oficial, sabe-se também como a deslocação dessas populações para Lisboa era desincentivada e em muitos casos dificultada pelo Governo. De acordo com a investigação feita para Retornar a comunicação social contribuía para essa névoa.

 “Nos jornais, as guerras de libertação eram apresentadas em linguagem de crime. Eventos importantes eram retratados como distúrbios organizados por estrangeiros, episódios que o exército português conseguia sempre aplacar”, explica Bruno Góis.

Os jornais “falavam mais do restabelecimento da ordem” do que dos acontecimentos de guerra, propriamente ditos. E mesmo movimentos de libertação como a Frelimo, em Moçambique, acorriam a esses meios de comunicação de massas para apelar à permanência dos portugueses. Conclusão: “A compreensão do processo político em Portugal e do processo de descolonização não era óbvia para quem lia imprensa.” Não podia ser.

Depois, há o momento da chegada deste enorme contingente social, estimado num total de cerca de 550 mil pessoas. Isto num pequeno país. Há muito fechado. Houve solidariedade. Mas também desconfiança, medo e repúdio. Foi um momento de perplexidades e paradoxos.

Um dos objectivos da exposição, diz Elsa Peralta, foi desmontar a ideia homogeneizada do “retornado” que tem vingado até hoje. O que se verificou com a investigação, nomeadamente com dados do IARN, é que os “retornados” não compõem um grupo homogéneo, explica a antropóloga. “Não há um ‘retornado’. Existem pessoas que fazem parte de grupos migratórios muito diferentes e que se estabeleceram em regiões muito diferentes e detendo posições sociais igualmente muito distintas.”

Havia, naturalmente, os exploradores de grandes fazendas agrícolas que ocuparam o imaginário europeu. Mas havia uma grande massa de migrantes trabalhadores. De serviços públicos, por exemplo. Uma classe média colonial não necessariamente apoiante da perpetuação do regime.

Elsa Peralta tem vindo a recolher testemunhos directos. E sublinha como ainda hoje “há umas pessoas mais críticas do que outras na sua forma de recordar, grupos com posições ideológicas opostas, pessoas que evidenciam paradoxos interiores e que desestabilizam o conceito fixo do ‘retornado’”.

Da mesma forma, a recepção dos residentes na metrópole foi também diferenciada e cheia de contradições. Uma notícia do Diário de Coimbra, em Outubro de 1975, denuncia como um taxista se recusou a transportar uma família por saber serem “retornados”. Já crónica do Jornal da Madeira, em Dezembro seguinte, conta como um “retornado”, desesperado, pediu a um desconhecido que lhe trocasse 10 angolares por 50 centavos para apanhar um comboio – e como o desconhecido lhe deu o dinheiro a troco de nada.

Num momento de grande eventos e numa sociedade em luta contra o caos social, político e económico, o equilíbrio não era evidente. A 16 de Setembro de 1977 A Capital noticiava a resolução do conselho de ministros que decretou o prazo, até ao fim desse mês, para os “retornados” abandonarem os hotéis em que tinha até então estado a viver. “Na difícil situação em que o país se encontra e em que há que procurar, em permanência, o justo equilíbrio entre os direitos e deveres dos desalojados e a situação real do povo português”, dizia o comunicado citado pelo jornal.

Foi há 40 anos. Mas, como a generalidade dos especialista a trabalhar o tema, Elsa Peralta identifica muito por fazer no trabalho sobre um dos grandes tabus portugueses – talvez o maior. Em geral, o que vê é “um tratamento cosmético” de temas antigos – uma relativização de linguagens, em vez de uma verdadeira negociação simbólica.

A discussão que em certos contextos internacionais foi alargada, em Portugal foi “ausente”, diz a antropóloga. E, assim, o “retorno” foi “silenciado”, mantido na “invisibilidade”.

Intervenções como a actualmente junto ao Padrão dos Descobrimentos não são gestos nostálgicos ou simples rememorações. Procuram a reactivação do passado a partir do presente. De forma a podermos voltar a trabalhá-lo.

O retorno foi há 40 anos mas é também agora.