Sim, é Dia Mundial da Sanita e o assunto é sério

“Dia mundial da sanita? O que vai este povo inventar mais?” A performance causa estranheza, a primeira reacção é o riso. Mas o assunto é tudo menos uma brincadeira: um terço da população mundial não tem acesso a saneamento básico.

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A companhia Visões Úteis fez uma performance no centro do Porto para chamar a atenção para o problema Marco Duarte

Às 14h, uma sanita chega ao centro da Praça Carlos Alberto. Cristóvão Carvalheiros baixa as calças e senta-se. À sua volta, outros distribuem panfletos. Não, não estão a vender louças sanitárias mas sim a chamar a atenção para os riscos para a saúde que decorrem da falta de saneamento básico, um problema que afecta ainda muitas populações no mundo e que condena muitos à morte por doenças como a cólera. Por isso, esta quinta-feira, era Dia Mundial da Sanita, uma efeméride instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2013. A campanha de sensibilização que decorreu no Porto foi uma iniciativa da companhia de teatro Visões Úteis.

Apesar da chacota inicial, os números que são apresentados causam consternação em quem pára para os ouvir. Margarida Jacinto, de 39 anos, afirma: “Não fazia ideia que era o Dia Mundial da Sanita”. Os números também a chocam, pelo que considera a acção “positiva”. Sobre o evento, lamenta: “As pessoas deviam parar mais e ouvir aquilo que têm para lhes dizer”. Também o filho Rafael, apesar de ter quatro anos, já reconhece a importância de saneamento: “ É muito importante termos sanitas porque sem casas de banho as pessoas ficam doentes”.

Nos 45 minutos que a performance durou, vários foram os que pararam para tirar fotografias, para ouvir as informações e para receber os panfletos, mas também foram muitos os que não quiseram saber mais. Alguma preocupação com outras questões mundiais levam a que não se dê tanta importância a assuntos que não são tão levados a sério. Isabel Monteiro, de 60 anos, quando questionada acerca da pertinência da performance, exclama: “Com estes atentados… e há tantas crianças a morrer à fome!”  Mas há também 1000 crianças que morrem por dia por doenças associadas à falta de água potável, saneamento e higiene básica.

Por seu lado, Hélio Teixeira, de 35 anos, defende ser “importante” este tipo de iniciativas, e sustenta: “ [Estes eventos] são ao mesmo tempo pedagógicos e uma forma de quebrar tabus”. Quando observa os números distribuídos, desabafa: “Isto é preocupante!”.

A companhia de Teatro Visões Úteis terá também em cena uma peça de Teatro,  Yuck Factor, onde, como se pode ler em comunicado, “o saneamento e a influência da repugnância na (falta de) tomada de decisões são temas centrais”. Foi também por este motivo que decidiram associar-se às celebrações do Dia Mundial da Sanita. Para além da acção de sensibilização, ficou a cargo da companhia o logotipo português para assinalar a data.

O Dia Mundial da sanita vem assim colocar um maior foco num assunto muitas vezes relegado para segundo plano. Csaba Manif, estudante húngaro de 23 anos, quando se depara com os números, afirma: “A partir de agora, vou respeitar muito mais a sanita”. 

Texto editado por Ana Fernandes