Crítica

O príncipe da escuridão

Nos filmes de Salaviza os rapazes partem à conquista da luz e da cidade. Mas em Montanha David transporta a sua escuridão. É esse o habitat de um jovem em busca do sopro épico que nunca lhe acontece.

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Entre mãe e filho, no início de Montanha, no escuro de um quarto:
– Onde é que andaste ontem à noite?
– Por aí.
Entre mãe e filho, no fim de Montanha, no escruro de um quarto:
– Que horas são?
– Ainda é cedo. Dorme.

Nos filmes de João Salaviza, os rapazes partem dos quartos para conquistar a cidade, para tomar o que acham que lhes pertence. Carloto Cota, na curta-metragem Arena (2009, Palma de Ouro de Cannes), foi, talvez, o mais olímpico desses corredores de fundo (no seu caso, era mais um gladiador): parecia romper as grades para ter direito, enfim, à luz – “parecia”, porque era duro, acre, o final dessa potente estreia cinematográfica de Salaviza, não sendo claro, por serem tão agressivamente claras essas sequências, se Carloto, mesmo dominando do alto a cidade, atingira de facto algum pódio.

Em Rafa (2012, Urso de Ouro em Berlim), as luzes e as sombras iam deixando marcas, à vez, no percurso de Rodrigo Perdigão – parecia mais claro que o jovem, que acabava com o peso de um bebé nos braços, não ia nunca conseguir soltar-se para afrontar uma narrativa épica.

Em Montanha, o habitat já é mesmo a sombra – é o que fere menos, a luz define de forma implacável, cruel, as linhas modernas do bairro dos Olivais.

Montanha é a estreia de João Salaviza na longa-metragem. Começa logo por ser singular o facto de o filme não abrir para uma etapa diferente – como podia acontecer, se fosse necessário marcar de algum modo uma “promoção”, a duração maior como uma conquista. Não, Montanha segue-se naturalmente aos filmes anteriores e fecha-os. Em Setembro, numa entrevista ao Ípsilon à beira da participação no Festival de Veneza, o realizador dizia: “Se calhar filmei pela última vez esse desejo de cruzar adolescência e Lisboa. Assinalava, então, como que um paralelismo entre dois finais de adolescência: o das personagens dos filmes que fez até aqui e o seu próprio como realizador.

Salaviza pode até voltar a fazê-lo — isto é, pode voltar a filmar a adolescência. Dificilmente o fará na linha de continuidade que se estabelece entre as anteriores “curtas” e a presente “longa” (entre aspas, porque se trata, afinal, do mesmo filme; porque se pode dizer que cada curta já continha um desejo de longa, não de a fazer no futuro, mas fazendo-a já cada uma à sua maneira – Montanha confirma-o, aliás, retrospectivamente).

É que Montanha traz em si uma síntese final – para àquele território não mais voltar. Momento de elevação, coisa abstracta – não é de ter medo da palavra – que transcende os circunstancialismos que, por exemplo, definiam socialmente as personagens dos filmes anteriores (até podemos não encontrar sinais de uma qualquer “actualidade” neste filme), é uma obra de um esplendor muito rarefeito. É um filme que se respira, mais do que se agarra. Que faz do seu plot minimal, o momento na vida de David/David Mourato, mãe ausente, avô a morrer, as possibilidades a esgotarem-se, matéria a experimentar e moldar através da luz e das sombras. É, de todos, o filme de Salaviza com coração mais expressionista – e não é para acusar o peso da palavra ou recear por um qualquer exercício árido.

David é de novo um (anti-)herói de um épico que nunca (lhe) acontece, um desses jovens que viajam dos quartos para o exterior, para se descobrirem já derrotados: ficaram adultos sem o saberem. Não é por acaso que o filme abre e fecha no quarto, da vaga promessa de uma aventura pela(s) cidade(s) restando o recolhimento, a sombra, apenas um suspiro – como no final. Talvez seja a diferença entre a personagem de David Mourato face às de Carloto Cota e de Rodrigo Perdigão: David já prefere caminhar acompanhado e confortado pela sua derrota. Nenhum movimento leva a algum sítio – todos os travellings em que as personagens andam de mota, aliás, são experimentados como impossibilidade de deslocação, falso movimento, como se nunca conseguissem, nunca quisessem, nunca pudessem, abandonar o seu casulo (a câmara de facto não os deixa descolarem-se, ao contrário do que ainda fazia em Rafa). A excepção é a cavalgada de David pelos Olivais: um resquício de uma potência olímpica (como em Arena, do qual sobra também uma ventoinha...). Sendo a mais fulgurante sequência do filme, corresponde sobretudo a uma projecção, a um desejo que não se concretiza, mais do que a uma verdade da personagens. Porque é nas zonas de sombra que David se conforta. É aí que mãe e filho comunicam. Relação profunda, e tão profundamente escondida, em Rafa, é retomada em Montanha, dando-se a ver, mas mantendo-se na zona dos não-ditos. Em mais uma prova do sereno esplendor com que este filme se nos entrega, tudo entre David Mourato e Maria João Pinho, filho e mãe, acontece dentro de carros, dentro de quartos: o desejo dele de ser continuamente embalado, a dificuldade dela em fazê-lo – tudo literal, como na sequência em que David se embala sozinho..., e tudo muito sereno, serenando-nos.

Há memória adquirida no cinema de Salaviza, não acumulação cinéfila. É uma capacidade de respirar os tempos e as formas do classicismo – e há conforto em poder habitar esse mundo. Este filme parece olhar para cima, para os picos que foram as sínteses do cinema mudo. Aos 31 anos, este prince of darkness já é dos mais “antigos” dos cineastas.