Evolução das bactérias nos intestinos vale prémio a equipa portuguesa

Revista científica distingue artigo de cientistas do Instituto Gulbenkian de Ciência como o melhor do ano.

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Os investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência premiados IGC

A revista científica PLOS Genetics anunciou esta quinta-feira a atribuição do melhor artigo científico que publicou em 2014 ao trabalho de investigação de uma equipa do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras. No valor de 5000 dólares (cerca de 4600 euros), o dinheiro do prémio será aplicado em investigação científica.

Criado no 10º aniversário da revista internacional, o prémio distingue o nível de excelência científica e o impacto na comunidade de um artigo científico que tenha sido publicado.

O trabalho vencedor é um contributo para o conhecimento da evolução das bactérias intestinais dentro dos intestinos e resultou de uma colaboração entre grupos de investigação em evolução, microbiologia e imunologia do Instituto Gulbenkian da Ciência, coordenadas respectivamente por Isabel Gordo, Karina Xavier e Jocelyne Demengeot.

Neste artigo, os oito cientistas agora premiados utilizaram uma metodologia original para estudar a colonização dos intestinos de ratinhos pelas bactérias intestinais Escherichia coli e analisarem a sua adaptação e evolução a este ecossistema complexo, onde coexistem milhares de bactérias de diferentes espécies, explicou ao PÚBLICO Isabel Gordo, que coordenou todo o projecto.

“Pela primeira vez, este trabalho mostra que é possível estudar a evolução bacteriana, de forma detalhada e quantitativa, no ecossistema onde estas bactérias vivem [o intestino].” Geralmente, as experiências de evolução de bactérias são feitas em condições laboratoriais controladas, mas, como salienta Isabel Gordo, “o intestino é um sistema complexo e muito diferente de um tubo de ensaio”.

Para a cientista, este trabalho tem outro importante contributo: “Além disso, pela primeira vez, observámos que os caminhos evolutivos [as alterações genéticas observadas nas bactérias estudadas ao longo de um mês de experiências] foram semelhantes entre ratos: houve um paralelismo na evolução. Foi surpreendente observar isto num ecossistema com esta complexidade e de um modo muito rápido — esta foi para nós a descoberta mais surpreendente.”

Isabel Gordo ressalta que esta última descoberta tem implicações práticas importantes, por exemplo para estudos sobre os efeitos de genes específicos em animais, que deverão ter em conta esta rápida evolução.

A colaboração que se estabeleceu entre os grupos de Isabel Gordo, Karina Xavier e Jocelyne Demengeot, de áreas científicas distintas, mas interrelacionadas, foi a chave que permitiu desenvolver este trabalho inovador. “Temos de olhar para o sistema nas suas várias vertentes: a microbiologia e o estudo das relações entre os micróbios; o sistema imunitário e o estudo da interacção entre os micróbios e a o hospedeiro; e a evolução e as alterações genéticas que ocorrem em todas as espécies.”

A investigação que deu origem ao artigo científico foi um começo. As colaborações entre os grupos do IGC e os projectos de investigação nesta área não terminaram aqui. Os três grupos têm continuado os seus trabalhos de investigação usando este novo modelo para estudar a evolução bacteriana nos ratos. “Este artigo foi pioneiro. Com este modelo, podemos agora responder a outras perguntas”, conclui Isabel Gordo.

Texto editado por Teresa Firmino