Opinião

A morte da morte

Será o martírio dos jihadistas o fim da política? Apenas eliminável sob a forma do extermínio total, o extermínio dos loucos?

Numa amena noite de sexta-feira (por acaso ou talvez não, uma sexta-feira 13, que é 13 e de azar por causa da prisão, também em massa, dos cavaleiros da ordem dos templários em 13 Setembro de 1307), aos locais agradáveis do descanso do modo de vida ocidentalizado, chegam grupos de homens armados e disparam indiscriminadamente sobre cidadãos anónimos. Como interpretar este teatro do absurdo? O terror de que um desconhecido passe por nós e sem motivo comece a disparar? A primeira ponta solta que se oferece à interpretação é que seis dos assassinos fizeram-se explodir. Iam preparados para o martírio. O que é o mártir? É alguém para quem a morte não é um limite, apenas uma passagem para uma outra condição de existência que acredita ser mais forte que a vida actual. Para a doutrina política, legada por Thomas Hobbes o medo de morrer é a condição da política. A morte em todas as suas circunstâncias funciona como o real terminal que conduzindo ao medo, conduz à razão, à negociação, ao compromisso, ao social, à lei e ao Estado.

Sabemos que os mártires acreditam em algo, numa utopia. Mas como pensar que a crença seja mais forte que o medo da morte? Nós os racionalistas temos dificuldade em entender e aceitar isto. Mas a crença numa utopia também é uma forma de medo. O medo de não serem merecedores da sociedade perfeita ou do reino dos céus.

Como entender então esta prevalência de utopias e suas crenças consumadas em mortes em massa para o espectáculo do medo? Curiosamente este tipo de massacres vimo-los recentemente onde menos se espera, nos EUA e não têm sido suficientemente metabolizados. Começaram de forma rotineira mas crescente depois do chamado Caso Columbine. O que liga o massacre de Columbine (12 jovens mortos e 21 feridos em disparos no liceu daquela cidade de Ohio, EUA, em 20 em Abril de 1999) ao jihadismo suicida é não só a crença num certo tipo de utopia, mas também a forma como armadilham os media ocidentais. Desde 1999 que o efeito Columbine se repete de forma cada vez mais violenta. No dia 1 de Outubro de 2015 noticiou-se um ataque que aconteceu no Umpqua Comunity College do Oregon e que fez 10 mortos e sete feridos. O impressionante é que foi na altura o 45º caso registado só este ano em escolas americanas. Chamo a estes ataques, réplicas de Columbine e claro o mais violento de todos foi o massacre protagonizado por Anders Breivik na Noruega em e que provocou 77 mortos no dia 22 de Julho de 2011. Qual a utopia dos jovens de Columbine? Não eram pobres, nem eram excluídos, nem marginais de outras categorias. A sua utopia é uma forma radicalizada da mesma aspiração que têm milhões de jovens no mundo inteiro, o desejo de celebridade. Não a celebridade física do reconhecimento dos vizinhos, mas a celebridade mediática que em Portugal significa devirem Cristanos Ronaldos e Cristinas Ferreiras. Mas porque não fizeram Eric e Dylan o mesmo que a massa de excluídos da visibilidade mediática que se colam em filas intermináveis como candidatos a um reality show? Porque os jovens de Columbine queriam mais que os 15 minutos de fama passageira, queriam a fama eterna de Heróstrato o pastor que ficou famoso em Éfeso por queimar o templo de Artemísia, uma das sete maravilhas do mundo antigo, decorria o ano de 356 AC. Os vilões, apesar de demonizados pelo estigma, preservam a imortalidade através de fascinantes lendas negras. Salazar, Hitler e Estaline ainda por aí estão para o testemunhar. Os jihadistas suicidas também buscam a sua utopia e trocam a vida pelo feito da visibilidade mediática. Sabem que o crime só se consumará definitivamente quando as mortes em massa encherem as páginas dos jornais de imagens de terror cénico. É inevitável os media caírem nesta armadilha.

Mas será o martírio dos jihadistas o fim da política? Apenas eliminável sob a forma do extermínio total, o extermínio dos loucos?

O Estado islâmico mata em massa para atacar os símbolos. Mas por mais que se queira matar Paris, Paris não morre. Só morrem pessoas. Mas não é essa a jogada política do Estádio Islâmico. O ES infiltrou-se na matriz do tabloidismo ocidental que há muito faz mercadoria com o medo (if it bleads its leads). Ao que parece o espectáculo do terror tem capital para seduzir. Tal como o massacre de Columbine produziu uma multidão de seguidores e réplicas imparáveis de mortes sem porquê, também os espectáculos de terror dos jihadistas suicidas, tem capacidade para capturar fiéis no bairro aqui mesmo ao nosso lado. O Estado Islâmico está a roubar o palco da produção do visível a Hollywood com espectáculos que retiram o real da ficção e dos efeitos especiais e o devolve com violência aos corpos reais, à dor à carne e ao sangue. As páginas dos jornais são os pósteres das suas produções, os novos cartazes do espectáculo do real onde a morte morre deixando de contar como fronteira limite da razão e da humanidade.

Não tenho resposta, mas a questão é: quem consegue parar esta destruidora máquina do espectáculo?

Jornalista da RTP e professor universitário