Análise

Como resistir ao unilateralismo

O pior é o efeito do medo nas democracias europeias. E o medo é o pior inimigo da razão.

1. A Europa acaba de receber um brutal murro num dos seus pontos mais vulneráveis. A França está no coração da integração europeia. A França continua à procura do seu lugar na Europa que emergiu da reunificação alemã e europeia. Ainda está a tentar retomar a respiração. Não tem muito tempo para encaixar o ultraje e começar a pensar globalmente a teia complexa de desafios vitais que enfrenta no longo prazo. A dimensão dos acontecimentos de Paris não é dada apenas pelo terror vivido na cidade-luz. Antes do 13 de Novembro, as forças de segurança francesas tinham conseguido impedir cinco atentados. No Reino Unido ou na Alemanha a média dos atentados evitados é sensivelmente a mesma. Sabe-se hoje que os terroristas prepararam a operação na Bélgica e na Alemanha. E já se sabia desde os atentados de Londres em 2005 que a maioria dos terroristas eram cidadãos europeus, da segunda ou terceira geração de imigrantes muçulmanos. Também se sabia que as acções dos “lobos solitários” rapidamente se poderiam transformar numa rede melhor organizada e mais directamente dependente do autoproclamado Estado Islâmico. Em Setembro, o editor de Segurança do Financial Times escrevia um artigo a antecipar esta mudança. O Daesh “está a dar forma a uma política para expandir a sua influência, conquistar novos territórios, desestabilizar os seus vizinhos e exportar terror para os seus inimigos mais distantes”. Paris comprova esta nova estratégia e exige muito mais do que gigantescas manifestações nas ruas da capital francesa ou o gesto solidário que cobriu os mais emblemáticos monumentos europeus e norte-americanos com as cores da bandeira francesa ou a redescoberta da Marselhesa, que David Cameron prometeu cantar no encontro amigável de futebol entre o Reino Unido e a França, perto de Londres, que se realizou ontem, também com a presença de Angela Merkel.

2. Para lá das emoções que ainda estamos a viver, houve em Paris uma mudança de página. Ficar tudo na mesma deixou de ser opção. A resposta não pode ser apenas francesa, terá de ser europeia. Exige, de uma vez por todas, aos europeus que definam uma estratégia comum para sobreviver no mundo que os rodeia. Da economia à segurança. Cada gesto e cada decisão política de Hollande terão de ser pensados nesta perspectiva ou significarão muito pouco. Cada gesto ou cada decisão dos seus principais parceiros tem de ter este objectivo em vista. As feridas abertas pela crise do euro ainda não sararam. O desafio que enfrenta é mil vezes mais exigente. Terá de perceber, como diz Joscka Fischer, que ou se salva em conjunto ou ninguém, pequeno ou grande, se salvará.  No site do European Coucil on Foreign Relations, Mark Leonard lembrava que a Europa deixou de conseguir exportar a democracia para passar a importar o caos. Há dois anos teve de enfrentar a crise ucraniana.

3.O brutal murro no estômago aconteceu no exacto momento em que a Europa enfrentava uma outra consequência dramática da instabilidade e da violência instalada nas suas fronteiras. A vaga de refugiados que lhe entrou pela porta dentro fugindo da mesma barbárie que agora atingiu o coração da França era, em si mesma, um desafio aos valores europeus, tocando no mais fundo da sua identidade política. Como sabemos a resposta não foi animadora. Angela Merkel viu-se alvo de um forte ataque interno (e de variadíssimas críticas externas), apenas porque disse que não ia fechar as portas aos refugiados porque não era essa a Europa que desejava. O regresso “temporário” das fronteiras já era um sinal preocupante. Os atentados de Paris vieram dar um novo contexto a esta crise, oferecem de bandeja aos partidos xenófobos e antieuropeus matéria para reforçar a sua ideologia do medo e do nacionalismo. Também neste capítulo a França é um elo fraco, perante a Frente Nacional de Marine Le Pen, que será o pesadelo das próximas eleições presidenciais. O pior é o efeito corrosivo do medo nas democracias europeias. E o medo é o pior inimigo da razão. Saber o que fazer não será fácil. Saber o que não fazer remete-nos para as consequências do 11 de Setembro.

4. As primeiras palavras do Presidente francês foram o eco de outras que já muita gente tinha esquecido: aquelas que George W. Bush pronunciou depois dos atentados de Nova Iorque e de Washington quando decretou a guerra à guerra da Al-Qaeda. O que aconteceu depois foi uma alteração radical e unilateral da política externa americana com consequências profundamente negativas para o sistema internacional, que hoje já quase toda a gente reconhece. Fraca e de mal consigo própria, a França continua a ser um dos raros países europeus capazes de projectar o seu poder militar. Hollande já o tinha comprovado no Mali, na República Centro-Africana, quando liderou a guerra na Líbia com os ingleses ou na sua disponibilidade imediata de apoiar Obama na retaliação contra o regime sírio, quando Assad ultrapassou a linha vermelha do recurso às armas químicas. A sua declaração de guerra não é apenas retórica, destinada a tranquilizar os franceses. A decisão de accionar o artigo do Tratado de Lisboa que define a chamada “cláusula de solidariedade” em caso de ataque a um dos membros da União, vai no mesmo sentido. A resposta foi unânime e veio em primeiro lugar de Berlim. Percebe-se a urgência de Paris. Mas nada disto chega para enfrentar os desafios estratégicos que a Europa tem pela frente.

5. Merkel não poupou um só gesto de solidariedade quando Paris sofreu os atentados contra o Charlie Hebdo. Emendou os seus erros no Mali e na Líbia, porque percebeu que havia um problema sério de segurança europeia. Qualquer resposta francesa que seja séria tem de envolver Berlim. Ir a Moscovo e a Washington para criar uma grande coligação internacional contra o Estado islâmico talvez não fosse a sua melhor opção. Bertrand Badie diz à AFP que, na verdade, a França “não tem grande margem de manobra” para lançar uma resposta imediata e forte. “As coisas jogam-se entre russos e americanos e nós tentamos estar presentes ”. O risco óbvio é dar a Putin aquilo que ele quer, ou seja, o reconhecimento da sua política agressiva de alteração das fronteiras na Europa, esquecendo a ameaça à segurança europeia que constitui a sua doutrina revisionista. Ironicamente, a França era a potência ocidental mais crítica de qualquer cedência a Putin no que diz respeito ao destino de Assad. Qual é a prioridade? “Acabar com Assad ou esmagar o Daesh”, pergunta o antigo primeiro-ministro francês Alain Juppé, inclinando-se para a segunda opção. Infelizmente as coisas não são assim tão simples. Hollande devia ir a Moscovo e a Washington com a chanceler e com o beneplácito da própria União Europeia. Merkel, que liderou a resposta a Putin na crise ucraniana, conquistou o direito a estar presente quando se trata de segurança e defesa. Putin pode ser essencial na resposta à guerra na Síria mas a Europa e os EUA não lhe podem oferecer de mão beijada um regresso triunfal ao estatuto de grande potência. 

David Cameron seria naturalmente outro dos actores principais do que poderá ser uma estratégia europeia. Mas as mudanças e os cortes que está a fazer na política externa e de defesa britânicas colocam muitas dúvidas sobre o seu comportamento, ao ponto de parecer por em causa a “relação especial” com os EUA que marcou a política britânica desde o pós-guerra. Deu agora sinais de que está disponível para ajudar a França, reforçando a sua participação simbólica nos bombardeamentos no Iraque e na Síria mas tem estado estranhamento ausente do palco europeu, incluindo nas questões de segurança.

A Europa enfrenta um tremendo desafio que determinará provavelmente o seu futuro. O problema é se ainda vai encontrar forças para sobreviver unida num mundo do qual se esqueceu durante demasiado tempo.