Cada uma em seu assento, duas araras voaram como passageiras da TAP para o Brasil

O tráfico de espécies é uma mina de ouro – até o Boko Haram explora este manancial. Nas alfândegas tenta-se deter os piratas e há histórias felizes: duas aves encontradas em Portugal vão poder voltar a voar nos céus brasileiros.

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As duas araras de Lear antes do voo
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No voo que esta quarta-feira de manhã descolou de Lisboa em direcção a São Paulo, dois lugares do avião estavam ocupados apenas por duas caixas cobertas por panos. Em cada uma, um ser raríssimo: a arara de Lear (Anodorhynchus leari). Chegaram a Portugal pela mão de contrabandistas, que as pretendiam vender por valores que poderiam atingir os 80 mil euros cada uma. Apanhadas pela Polícia Judiciária, regressaram a casa de forma a serem reintroduzidas na natureza. É a primeira vez que no âmbito do combate à pirataria de espécies é possível reenviá-las para o Brasil.

O tráfico de ovos de papagaios é uma mina de ouros para os traficantes de animais. Depois de eclodirem, valem milhares de euros, sobretudos os espécimes de espécies protegidas, que são extremamente valiosas no mercado negro (muitas entre 3000 a 10.000 euros cada exemplar, podendo atingir outras até 75.000 a 90.000 euros), explica João Loureiro, chefe da Divisão de Gestão de Espécies de Flora e Fauna do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

É ele que se senta ao lado das aves no avião rumo ao Brasil, uma viagem oferecida pela TAP. São dez horas de viagem e João Loureiro espera que as araras não queiram, repetidamente, vocalizar angústias ou expectativas. “Vão cobertas com um pano para ver se vão sossegadas”, diz, esperançoso. Já não são uns bebés, têm nove ou dez meses, mas talvez por isso se sintam com mais vontade de dar o ar da sua graça.

Não há certezas sobre a sua entrada em Portugal mas, segundo João Loureiro, terão vindo num voo a 18 de Janeiro, altura em que foram apreendidos no aeroporto de Lisboa 18 ovos da Amazona autumnalis diadema, uma subespécie do papagaio-diadema. Na altura, os ovos da arara-azul-de-Lear terão passado desapercebidos na alfândega. Terá sido mais tarde, já com três meses, que a Polícia Judiciárias as apreendeu quando já estavam à venda. “A idade dos juvenis parece coincidir com a apreensão dos ovos de papagaio-diadema, em Janeiro”, avança o responsável do ICNF.

Daí para cá, as duas araras passaram para a guarda de um especialista na criação de psitacídeos. A sua identidade não foi divulgada por razões de segurança, dado o extraordinário valor que estas aves alcançam no mercado negro. Agora, já estão de regresso ao local de origem. Como sublinha João Loureiro, é a primeira vez que tal acontece com as espécies apreendidas, que na maioria das vezes acabam em zoológicos nacionais. Só que se está perante uma espécie muito rara e o Brasil tem feito um imenso esforço para defendê-la e dar-lhe condições para que a sua população aumente. Não haverá mais de mil em meio natural. Daí o seu interesse para os contrabandistas.

As apreensões regulares de espécies ameaçadas em Portugal – desde 1999 já foram detectadas pelas polícias e autoridade aduaneira milhares de espécimes de aves, alguns sob a forma de ovos – são feitas ao abrigo da CITES, a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Ameaçadas de Extinção, de que o ICNF é a autoridade nacional.

“O tráfico de espécimes de vida selvagem é considerado, de forma unânime, o terceiro a nível mundial, logo atrás do tráfico de armas e de drogas. Por exemplo, os dados mais recentes parecem indicar que a principal fonte de financiamento do grupo Boko Haram seja o tráfico de vida selvagem”, adianta João Loureiro. “Portugal é uma porta de entrada ilegal de espécimes de espécies listadas nos anexos da CITES e do Regulamento (CE) n.º 338/97, situação facilmente justificável pela situação geográfica do nosso país na Europa e na União Europeia, principal destino do tráfico de espécimes vivos de espécies de fauna e flora protegidos, e pelo facto de sermos um dos Estados-membros com mais voos directos do Brasil, um dos países com maior biodiversidade do mundo e onde estão as espécies mais ameaçadas de papagaios, araras e tucanos, entre outras”, acrescenta.

Quanto aos traficantes, decorrem ainda investigações criminais e o caso está entregue ao Ministério Público. Em casos anteriores, foram aplicadas penas de prisão a alguns dos intervenientes.