Editorial

Decididamente, a vida não é um filme

Depois dos atentados terroristas, Paris olha a cultura e, por pudor, já está a remover os “excessos”.

Aconteceu na América, após os terríveis atentados do 11 de Setembro de 2001, e acontece agora em Paris depois do 13 de Novembro. O terrorismo e a violência insana e absurda dos seus métodos atingem as civilizações com golpes que demoraram a sarar, e isso leva a cuidados e até a exageros censórios, por pudor, receio de associação indirecta, medos. Em tempos ditos “normais”, as sociedades lidam com a violência ficcionada com total normalidade e desenvoltura. Assistem a filmes-catástrofe com baldes de pipocas, vêem criaturas serem “mutiladas” em películas de terror criadas para entretenimento, assistem a “tiroteios”, “explosões” de prédios, “mortes” em massa em “catástrofes naturais”. Tudo falso, tudo espectáculo. Mas quando a vida “imita” a ficção, tudo desaba. E olha-se em roda, a ver se os filmes também “imitam” essa nova e terrível realidade, sem pensar um segundo sequer que sempre o fizeram e toda a gente se divertiu com isso. Por essa razão, Paris adiou agora a estreia de Made In France (o tema é o terrorismo, com atentados em Paris, por isso entende-se o adiamento) mas também o filme A Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg (sobre a Guerra Fria!), Jane Got a Gun, um western de Gavin O’Connor, com Natalie Portman, e Louder Than Bombs, do dinamarquês Joachim Trier, um drama familiar que, além de adiado para Dezembro, muda de nome: o Plus Fort Que Les Bombes original dará lugar a qualquer coisa como Back Home! É certo que o filme gira em torno de uma morte, a de uma mulher, fotógrafa, e de uma exposição em sua memória que reúne marido e filhos, mas a alteração do nome soa patética. Mais Forte Que as Bombas devia ser sigla de qualquer parisiense que se preze, neste momento de dor e de revolta. Porquê alterar o título de filme, adocicando-o?

O que se passou nos Estados Unidos depois do 11 de Setembro foi muito mais longe (embora em Paris tal processo ainda possa estar no início). Dos filmes que estavam para estrear na altura dos atentados terroristas às Torres Gémeas, houve cancelamentos (entre os quais um filme de Schwarzenegger e duas temporadas da série televisiva Law & Order, esta por se centrar numa investigação a um atentado terrorista em Nova Iorque), adiamentos de estreias e várias remodelações, que atingiram até desenhos animados como The Incredibles (o desmoronamento de um prédio) ou Lilo & Stich (as cenas de avião). Isto para não ferir susceptibilidades.

Além disso, aparições do World Trade Center foram removidas digitalmente de vários filmes em fase de acabamento e banidas das rádios mais de cem canções que podiam lembrar torres, aviões, tiros, mortes ou mesmo um dia particular na vida de qualquer cidadão. Foi assim que deixou de se ouvir, nesses dias, nos EUA, A day in a life, dos Beatles, mas também I’m on fire, de Springsteen, Stairway to heaven, dos Led Zeppelin, Safe in New York City, dos AC/DC, Leavin’ on a jet plane, dos Peter Paul and Mary, A sign of the times, de Petula Clark e até New York, New York, de Frank Sinatra. O que fará Paris, ferida, com as suas lendárias canções?