Entrevista

“Devia ser impossível ser cristão sem ter compromisso político”

Edgar Silva candidata-se à Presidência da República tendo a justiça social como lema. O candidato do PCP afirma que se chegar a Belém não se intimidará com nenhum governo, mesmo que seja de esquerda.

Edgar Silva denunciou o caso dos "meninos das caixinhas" na década de 90, e passou a ser um "herói" para as crianças.
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Edgar Silva denunciou o caso dos "meninos das caixinhas" na década de 90, e passou a ser um "herói" para as crianças. Daniel Rocha

Aos 53 anos, o ex-padre rebelde da Madeira que ficou conhecido no início dos anos 90 pela denúncia dos casos de pedofilia com os meninos de rua do Funchal, admite que já só vai à missa em ocasiões especiais e prefere as caminhadas para reflectir. Cita S. Paulo para defender que a intervenção cívica é também política porque a fé sem obra é morta, e vê vantagem na proliferação de candidatos à esquerda - para impedir a vitória da direita à primeira volta. Se Cavaco recusar um Governo de esquerda será um colapso democrático e constitucional.

Alguma vez pensou ser candidato a PR?
Não, não. Eu preparei-me para tudo, menos para intervir na vida política partidária. Há um fio condutor de uma intervenção consequente, desde ir para o seminário, ser padre, na forma como assumi o compromisso com os mais pobres – e era muito nesse sentido do envolvimento público e político. Cheguei mesmo a ponderar ser missionário, ir para África - aquela ideia quase romântica de querer ajudar os mais carenciados. O compromisso político nasce neste contexto. Mas longe de mim a hipótese de ser deputado (isso surgiu num convite em 1996), e muito menos a ideia de ser candidato a Presidente da República (PR).

Acabou de dizer que a sua intervenção cívica tinha já um sentido político…
O ser sensível à situação dos mais pobres implica também, num primeiro patamar, uma intervenção cívica mas num sentido consequente. Não naquela ideia de esmolar, da caridadezinha, de sossegar a própria consciência; mas antes encarando a pobreza como um problema político, que o é, e sendo consequente, intervindo. O ganhar de consciência política foi também o percurso de aprender a ser cristão e católico. É impossível – ou não deveria ser possível – ser cristão sem ter compromisso político. Ou o viver da fé tem profundas consequências políticas e é um compromisso ou é mentirosa. A ideia de que a fé sem obra é morta é bíblica, de São Paulo. Sem esse agir consequente e transformador, a fé é uma mentira.

Quando percebeu que os ideais do PCP eram os que se enquadravam nessa sua concepção de intervenção política?
A minha candidatura, no Funchal, em 1996, nas listas da CDU, foi como independente. Era ainda padre católico. Não era o primeiro – o padre Mário Tavares já era deputado independente. Eu estava na paróquia dos Álamos, e fui muito confrontado. As pessoas diziam-me que compreendiam a intervenção política e partidária, que é para ajudar. Diziam-me ‘Mas logo na CDU, com o PCP, mas como é que é possível?, se ainda fosse…’ e davam outros partidos.

O que respondia?
‘Acham que nesta opção de estar do lado de quem é mais explorado fazia sentido eu estar no partido chefiado pelos vossos patrões, por aqueles que vos exploram?’ Então as pessoas diziam ‘bem, na verdade…’

Como deputado da CDU e mesmo no percurso com os meninos de rua sentia que estava do lado mais fraco da barricada?
Sim, então com as crianças de rua muito mais. As crianças de rua são o lado mais extensivo da ultra-periferia da sociedade, estão nas margens da cidade, embora vivendo e procurando lutar pela vida no centro, bem no coração da cidade. São exploradas pela cidade, vivem da mendicidade. E são crianças, são aqueles que menos poder e menos voz têm. Então elas estavam no silêncio mais ultra-periférico.

O problema das crianças de rua está resolvido no Funchal?
O contexto é diferente, mas ainda não está resolvido. Entretanto, hoje existem problemas de outra expressão, no Funchal e noutras cidades, como em Lisboa. As crianças que são usadas no consumo e tráfico de droga como pequenos dealers, servem como pombo-correio, servem para angariar dinheiro. Ou são obrigadas à prostituição, no tráfico de crianças. O problema da criança explorada neste universo que é também do mundo do trabalho reduziu-se mas mantém-se. Esse não é um problema só da Madeira, é um problema nacional. O primeiro mergulho nessa realidade das crianças foi aqui em Lisboa, no bairro da Curraleira, no Prior Velho. Foi aí que que essa aprendizagem aconteceu, que se abriu a minha consciência social e política.

Voltando à candidatura. Mostrou-se disponível ou foi convidado?
Foi uma completa surpresa. Foi-me feita uma primeira abordagem para ver se havia abertura para considerar todas as implicações - porque isto tem implicações políticas, pessoais, familiares. A minha família vive na Madeira. Tive um tempo para reflectir, para que depois pudesse ser considerado de forma mais colectiva.

Candidata-se porquê e para quê?
Esta candidatura é indissociável de um vasto movimento que nos precede, de exigência de um novo rumo para Portugal, um vasto movimento social de luta e de resistência face a uma trajectória que o país tem vindo a conhecer de empobrecimento, intensificação da exploração, subjugação dos interesses nacionais a interesses estranhos e estrangeiros, um rumo de destruição e desastre. É também um clamor de esperança.

Consegue reduzir a campanha a uma só ideia?
Gostava muito que o ideário da justiça social estivesse no centro da candidatura.

Na apresentação disse querer voltar aos valores de Abril. Que valores foram corrompidos ou abandonados nestes 41 anos?
Por incrível que pareça, os 3 Ds de Abril estão por cumprir. O de desenvolvimento: confirmou-se à exaustão que se agudiza o empobrecimento, as grandes desigualdades. O da democracia: enquanto Abril apontava para democratização, hoje há um desacreditar na democracia, que deixou de ser libertadora. Exige-se mais e melhor democracia. O de descolonizar – e já não em a ver com as antigas colónias, mas estamos num tempo em que precisamos de libertação dos jugos que nos colonizam. O direito é agora à autodeterminação do país, para que possa ser senhor da sua história. Então é uma descolonização em relação ao jugo dos agiotas e especuladores. Portugal soçobrou. Os grandes valores de Abril continuam a ter toda a actualidade.

É nesse sentido que tem falado na existência de violações grosseiras da Constituição?
Essa ofensiva contra os valores de Abril corresponde a um conjunto de práticas, opções e orientações do Governo que são contrárias à Constituição da República Portuguesa (CRP). Houve uma ofensiva política e ideológica que num primeiro momento tentou desfigurar a CRP e as sete alterações constitucionais correspondem a uma meticulosa estratégia contra-revolucionária de desvitalizar Abril e retirar da Constituição algumas dessas grandes conquistas. Depois optaram por tentar ignorá-la e agora decidem mesmo à sua revelia.

Tendo em conta a maioria parlamentar de esquerda, enquanto PR como poderá influenciar uma revisão para voltar a ter a CRP que Abril queria?
Não considero que a questão central neste momento seja alterar a CRP. A actual Constituição, com os seus valores fundamentais, é uma base programática, uma matriz e um ideário político capaz de garantir opções para gerar mais desenvolvimento, progresso e justiça social. Ela tem é que ser respeitada. Devíamos, isso sim, era ter um PR capaz de assumir o que jurou: cumpri-la e fazê-la cumprir – que é algo que não tem acontecido.

Já disse que no lugar de Cavaco Silva daria posse a um Governo de esquerda
Não necessariamente de esquerda, tem de ser no sentido da decisão dos deputados. Ao PR compete respeitar a decisão do Parlamento. Neste momento há quatro partidos que assumem haver condições e razões para dar sustentabilidade a uma solução de Governo e ao PR cabe respeitar essa decisão. O Presidente tomou uma primeira decisão que foi rejeitada pelo Parlamento. A sua margem agora é tão curta que estaríamos num quadro de colapso constitucional se o PR desrespeitasse a decisão soberana de outro órgão de soberania e não indigitasse um Governo da iniciativa do PS.

Se o PR entender não dar posse a um Governo da iniciativa do PS, o que fará se chegar a Belém: tenta resolver no quadro parlamentar ou convoca eleições?
Isso entra na ciência oculta da futurologia. O que é possível dizer é que há uma decisão do Parlamento agora, com consequências significantes a curto prazo. Seria incorrecto ou prematuro estar a tecer considerações sobre decisões que o actual PR ainda não assumiu. Penso que não terá outra alternativa que não respeitar a CRP.

Não coloca como hipótese receber um Governo de gestão?
É de tal forma inverosímil, seria tão escabrosa…

Ou de iniciativa presidencial?
Neste momento é difícil. Um Presidente em fim de mandato, depois de toda uma trajectória de incumprimentos grosseiros da CRP, tomar uma decisão que desrespeitasse esta vontade do Parlamento e contrária ao sentir dos portugueses… Criaria uma situação inédita no país, na democracia. Seria um PR que se remetia a uma torre de marfim distante do país real para impor a sua subjectividade. Estaríamos não só perante um colapso político, democrático, constitucional mas numa situação até de negação da identidade e da essência democrática.

Como vê a multiplicação de candidatos à esquerda? Não é sinal de falta de união?
Não é. Há uma candidatura claramente assumida como do campo da direita, umbilicalmente identificada com as políticas de desastre e destruição impostas a Portugal nas últimas décadas, que é a de Marcelo Rebelo de Sousa - foi presidente do PSD, é militante do PSD. E o pior que poderia acontecer era facilitar essa candidatura. E facilitar era diminuir o espaço de confronto e de mobilização dos portugueses e do seu voto.

Tantos não pulverizam o eleitorado?
É o contrário: nesta eleição, no conjunto das candidaturas apresentadas, para alguém ganhar à primeira volta tem que ter mais de 50% dos votos expressos. A multiplicação dificulta a vitória [da direita] à primeira volta.

Pediu que o deixassem sonhar passar à segunda volta. Com quem gostaria de a disputar?
Com quem o povo português decidir (risos). Não tenho qualquer candidato pelo qual nutra especial predilecção [para o confronto]. O que eu gostaria mesmo era de passar logo à primeira e de não haver segunda volta. Se isso não for possível, qualquer um dos outros será um bom adversário.

Os partidos da esquerda já propuseram diplomas sobre co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo. Se isso lhe chegar a Belém, o que irá fazer?
Depende do conteúdo, depende dos termos materiais do diploma. Terei que estudar, analisar o teor, a sua conformidade constitucional e em função do texto que viesse a ser proposto, decidir. Há o dever do PR de respeitar a decisão dos parlamentares, analisar da sua conformidade político-constitucional, independentemente da sua vontade. O PR não pode considerar que os seus valores morais, éticos, políticos, se possam sobrepor ao que está na CRP.

Mas é a favor?
Como objectivo, como valor, sim. Aceito e compreendo as pessoas que, justamente, têm vindo a colocar essa reivindicação na sociedade portuguesa. Do ponto de vista do objectivo, não tenho qualquer relutância ou objecção nem ética nem moral. São questões novas no plano ético e político.

Tem a percepção de que o acordo entre PCP e PS, num cenário de um Governo de iniciativa do PS, pode coarctar a sua acção enquanto PR?
Não, absolutamente,de modo nenhum. Um Governo da responsabilidade do PS ou que tivesse outra base de apoio parlamentar, não se alteraria minimamente a atitude enquanto Presidente.

Ou facilitar-lhe-ia a sua acção enquanto PR?
Considero que no acordo há um conjunto de compromissos que, ao serem assumidos por quatro partidos, garantem que o país não seja adiado, que saia do impasse, e garante soluções de governo.

No Patriarcado, num tapete lia-se 'pela obediência à liberdade'; disse que não é uma contradição. Sendo o PCP um partido em que o sentido de obediência à estrutura é mais vincado, onde é que se enquadra a sua liberdade enquanto deputado e candidato apoiado pelo PCP?
Eu não tenho uma história de partido tão longa quanto outros. Há relativamente poucos anos que tenho vinculação partidária. Mas até como deputado - e sou-o desde 1996, primeiro como independente -, nunca senti qualquer problema quanto ao exercício da liberdade.

Mas admite que o seu discurso, que era mais radical, progressista, irreverente quando era padre, se vem moderando como deputado?
Acha? (risos) Há quem diga que não! Eu tenho ouvido a reclamação contrária, que tenho que ter cuidado com o discurso. Nunca fiz nada por ser irreverente, nem mais nem menos; procurei sempre ser fiel aos desafios que a vida vai colocando.

Quando pediu para deixar de exercer o sacerdócio justificou dizendo que já não se identificava com a instituição Igreja. Como olha para a Igreja do Papa Francisco?
Acompanho com muita atenção e tenho amigos com grandes responsabilidades na Igreja. Acho que se vive hoje uma grande esperança na Igreja; um tempo outra vez de um aggiornamento grande, é todo um ambiente que se assemelha muito ao do Concílio Vaticano II, em 1962, quando João XXIII o convocou: é um tempo de renovação, de grande esperança.

É mais inclusiva? Mais adaptada aos tempos modernos?
É sobretudo uma Igreja que vive esse tempo de vontade de renovação, vamos aguardar. Para já existe esse sinal. A última encíclica do Papa Francisco comporta uma reflexão muito importante na comunicação com o mundo. Agora, há também – e temos que estar muito atentos a essa realidade – dinâmicas obstaculizantes, existem resistências e inércias que se têm vindo a revelar. Temos que estar atentos, porque elas não serão inócuas.

Que hábitos da Igreja ainda mantém?
Marcou-me profundamente em tanta coisa…

Vai à missa?
Vou à só missa quando alguns acontecimentos ou momentos mais relevantes o justificam. Mas no dia-a-dia não. Todos os ritmos que tinha a esse nível alteraram-se profundamente. Mas não é a esse nível que os hábitos ficaram, é mais a outro nível. Faço muitas caminhadas, como no seminário, para pensar, interiorizar valores.

Já não fala com Deus?
Falar com Deus eu nunca falei, acho que nenhum de nós nunca falou, ninguém tem esse privilégio, não há uma linha directa de comunicação. Nesse sentido de colocar muitos porquês, de querer perceber e não ter tantas respostas para tantas perguntas, essa inquietação e esse dessossego perseguem-me.