Não existem garantias absolutas de que Portugal não será alvo, avisa MNE

"Há razões para tomar medidas cuidadosas de segurança", diz Rui Machete. O presidente do OSCOT sublinha o mesmo aviso e defende ser "perfeitamente legítima" uma resposta pelas armas contra o Estado Islâmico.

Rui Machete defendeu-se ontem na comissão parlamentar invocando "propósito de apaziguamento"
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Rui Machete defendeu-se ontem na comissão parlamentar invocando "propósito de apaziguamento" miguel manso

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, avisou esta segunda-feira que, embora Portugal até agora tenha sido "poupado" a ataques terroristas, "não existem garantias absolutas" de que não seja alvo, justificando-se assim "medidas cuidadosas de segurança".

Falando em Bruxelas após uma reunião dos chefes de diplomacia da União Europeia, realizada três dias após Paris ter sido palco dos mais sangrentos ataques terroristas na Europa nos últimos dez anos, que se saldaram em pelo menos 129 mortos, entre os quais dois portugueses, Rui Machete considerou que não há motivo para alarme em Portugal, mas admitiu haver razões para estar vigilante.

"Há razões para tomar medidas cuidadosas de segurança. Não há razões para todos os dias temermos que exista um ataque, mas evidentemente que é uma situação delicada e não pode ser encarada de ânimo leve. Portugal, por razões geográficas, por um lado, e sociológicas, por outro, felizmente tem sido poupado e há esperança que continue a sê-lo, mas garantias absolutas não existem", disse.

Salientando que a discussão entre os 28 para "tratar especificamente de medidas do ponto de vista policial e dos serviços de informação" está reservada para a reunião de emergência de ministros do Interior da UE agendada para a próxima sexta-feira, pois os chefes de diplomacia “abordam mais a questão a nível de política externa", Rui Machete comentou ainda assim que considera que o reforço da troca de informação entre os Estados-membros "é fundamental", e já serviu para desmantelar "muitas células terroristas" em solo europeu.

"Em relação ao Magrebe os serviços de intelligence (informações) portugueses devem cooperar de uma maneira estreita, e já estão a cooperar. Isso é fundamental porque o ISIS (o grupo extremista Estado Islâmico) não pára numa fronteira, considera que todo o ocidente e alguns países muçulmanos e outras opções religiosas maioritárias são terras que devem ser punidas por essa circunstância", observou o ministro.

Na sequência de um pedido da França nesse sentido, a presidência luxemburguesa da União Europeia convocou no passado domingo uma reunião extraordinária dos ministros do Interior da União Europeia, para a próxima sexta-feira em Bruxelas, para reforçar a luta antiterrorista.

Presidente do OSCOT defende ataque ao Estado Islâmico
A mesma opinião tem o presidente do Observatório de Segurança, Terrorismo e Crime Organizado (OSCOT): Rui Pereira defenda que Portugal "não pode, de maneira nenhuma, descurar a ameaça de um atentado" terrorista, apesar de esta ser "tendencialmente maior" na França ou na Bélgica “por causa dos bombardeamentos”.

O antigo ministro da Administração Interna considera que o terrorismo "não pode impor uma lógica de coacção", não podendo os Estados ocidentais "ser paralisados pelo medo" ao terem que reagir à ameaça do grupo radical Estado Islâmico (EI).

Rui Pereira afirma que os atentados de sexta-feira em Paris "evidenciam a necessidade de haver uma luta contra o terrorismo" nos países europeus e "no território que está ilegitimamente ocupado por essa organização chamada Estado Islâmico", numa referência a zonas do Iraque e da Síria controladas por aquela organização extremista. "A resposta, quer da prevenção dos atentados, quer de ataque ao chamado EI, é perfeitamente legítima à luz das leis de Direito internacional porque é uma ocupação abusiva de um território", realça.

O presidente do OSCOT defende também que os atentados de sexta-feira mostram a necessidade de se “reforçar” a cooperação internacional e a capacidade dos serviços de informações, dos órgãos de polícia criminal e das autoridades judiciária na prevenção e repressão do terrorismo.

Provedor de Justiça condena "actos de violência gratuita"
O provedor de Justiça, José de Faria Costa, condenou as “atrocidades” e o "terror criado pelos actos de violência gratuita” ocorridos em Paris.

"Para muitos, um acto normal da sua vida quotidiana, como um jogo de futebol, um jantar ou um concerto, foi, simplesmente, fatídico", lastima o provedor em comunicado. "Como defensor dos direitos humanos - e é um direito fundamental da Humanidade o poder viver sem medo", o Provedor de Justiça "condena de um jeito forte, incondicional e o mais veemente possível as atrocidades cometidas, para as quais não existe qualquer motivo", afirma.

O provedor de Justiça lembra ainda no comunicado "o número de vidas que foram, de maneira aleatória e sem qualquer sentido, ceifadas", e que "supera largamente a centena", e as mais de 300 pessoas que "sobreviveram a balas e bombas." "São incontáveis, porém, todas as pessoas que, em Paris, em França e no mundo, vivem hoje com medo. Medo de que as suas vidas, e daquelas que amam, possam ser - em qualquer lugar ou a qualquer momento -- de forma indiscriminada destruídas", sublinha José de Faria Costa.