Chegada de refugiados desperta extrema-direita na Suécia e da Alemanha

Os dois países europeus que mais estão a receber os que fogem da guerra no Médio Oriente debatem-se com o crescimento de partidos e movimentos anti-imigração.

Manifestação do Pegida contra os imigrantes muçulmanos em Dresden
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Manifestação do Pegida contra os imigrantes muçulmanos em Dresden ROBERT MICHAEL/AFP

“Não há dinheiro, não há empregos, não há casas”, dizem os folhetos que o partido de extrema-direita Democratas Suecos está a distribuir na ilha grega de Lesbos e em dezenas de outros locais na Europa onde se aglomeram refugiados do Médio Oriente, à espera de passar a próxima fronteira. “A Suécia está a desfazer-se. Temos de pedir dinheiro emprestado para garantir a educação e a saúde aos nossos cidadãos. A nossa riqueza acabou-se. Só podemos oferecer tendas e camas de campismo. Será enviado de volta ao seu país.”

“Queremos acabar com a ilusão de que há uma vida de luxo na Suécia”, explicou Joakim Wallerstein, o responsável pela comunicação do partido ferozmente anti-imigração — o seu objectivo é reduzi-la em 90%. Os Democratas Suecos (DS) estão a pensar ainda em fazer um anúncio televisivo para passar nas televisões na Síria e no Afeganistão.

O ministro da Imigração sueco, Morgan Johansson, disse aos jornalistas em Bruxelas que o DS “está a pintar uma imagem da Suécia que não é verdadeira”. Corresponde, no entanto, às incertezas e angústias que muitos suecos sentem neste momento, e que têm feito disparar o apoio eleitoral do partido nacionalista — nas eleições de final de 2014 tiveram 12,9%, e agora as sondagens dão-lhes entre 20% e 25%.

O consenso de décadas sobre a política de portas abertas aos refugiados e aos imigrantes começa a ruir na Suécia. Uma sondagem Ipsos publicada pelo jornal Dagens Nyheter esta semana revela que 26% dos suecos considera que o seu país deve continuar a acolher refugiados — em Setembro eram 44%. Outra, da Sifo, publicada no jornal Svenska Dagbladet, mostra que 41% querem que sejam dadas menos autorizações de residência a refugiados — em Setembro, apenas 29% assumia a vontade de começar a fechar a porta.

Falta capacidade
Muito mudou nestes dois meses. Neste momento, este país de dez milhões de habitantes, tantos como Portugal, está a receber dez mil pedidos de asilo por semana. Mais de um quarto desses refugiados são menores que viajam sem os pais ou outro guardião — a maior parte são rapazes entre os 14 e os 16 anos, só 15% são raparigas, diz o jornal The Guardian. Só este ano, chegaram mais de 12 mil adolescentes desacompanhados à Suécia.

A integração dos refugiados e imigrantes nem sempre é bem-sucedida — a taxa de desemprego entre os suecos nascidos no estrangeiro é superior a 16%, enquanto a dos nascidos na Suécia é inferior a 6,5% e é uma das mais discrepantes na UE, frisa a Bloomberg — mas a Suécia teve a ambição de se definir como uma “superpotência humanitária”, nas palavras de Fredrik Reinfeldt, o anterior primeiro-ministro conservador. Até ao fim do ano, o país conta receber 190 mil refugiados. E no ano que vem, outros 190 mil. Mesmo para um país que é a 17.ª maior economia do mundo por habitante (segundo dados de 2014 do Banco Mundial), é demais.

O sucessor de Reinfeldt, o social-democrata Stefan Löfven, já não tem meios para garantir esta generosidade. E aponta o dedo aos seus parceiros na União Europeia, pedindo-lhes que cumpram a sua parte. E que fiquem com alguns dos refugiados que já recebeu.

Tal como na Alemanha, o outro país da UE que tem aberto as portas aos refugiados — pelo menos um milhão é esperado até ao final do ano — a capacidade para gerir o rio de gente que está a chegar está a quebrar, apesar da boa vontade. A Suécia viu-se obrigada a impor controlos fronteiriços esta semana, a Alemanha já o fez antes. As dificuldades logísticas tornam-se gigantescas.

Falta capacidade para gerir a entrada de tanta gente nas fronteiras, não se consegue processar os pedidos de asilo, faltam casas para dar um tecto a toda a gente. Dormem pessoas em tendas, em antigas prisões, fazendo do betão colchão em edifícios desocupados, como velhos hangares.

Para alojar tanta gente, de repente, só recorrendo ao sector privado — e são muitas as acusações de que as grandes empresas de imobiliário e arrendamento suecas se estão a aproveitar, cobrando preços exorbitantes ao Estado. A agência de imigração da Suécia prevê gastar com alojamento de refugiados mais de 320 mil euros até ao fim do ano.

Uma empresa da poderosa família Wallenberg recusou-se a comentar notícias publicadas nos media de que cobraria 84 mil coroas suecas (cerca de 9000 euros) por colocar uma criança refugiada com uma família de acolhimento. E Bert Karlsson, o fundador de um partido nacionalista e anti-imigração, a Nova Democracia, que entrou no Parlamento no início da década de 1990 — uma altura negra de violência contra imigrantes — é, curiosamente, um dos que está agora a beneficiar com a urgência do Estado. A sua empresa Jokarjo aloja pelo menos cinco mil pessoas em 30 locais, diz a Reuters, e ele espera duplicar os negócios com o Estado até ao fim do ano.

O primeiro-ministro sueco chegou ao ponto de perguntar aos empresários se “se sentem bem quando se olham ao espelho” por estarem a obter lucros tão grandes quando o país está a tentar organizar-se face à enorme crise de refugiados. O ministro da Imigração criticou os empresários por “estarem a forrar os bolsos”.

Bert Karlsson ri-se: “Se querem que os Democratas Suecos cheguem aos 50%, devem continuar a fazer o que estão fazer”.

“Pensar nos nossos”
“Em vez de continuarmos a receber mais pessoas, devíamos tomar melhor conta das que já cá estão”, disse ao Guardian Ragna, uma mulher polícia que foi assistir a um comício de Verão dos DS. “Temos falta de casas, o que quer dizer que os jovens ficam encurralados a viver com os pais. Se os tempos são difíceis e o Estado não tem dinheiro, temos de pensar na nossa gente”, afirmou.

São eleitores com estas preocupações que o partido de Jimmie Akesson procura captar e incutir neles que a culpa é dos refugiados. Tem tido sucesso, pois em menos de um ano duplicou o número as intenções de voto. “Não gosto do que os outros partidos dizem. Os SD são os únicos que dizem a verdade”, disse ao Financial Times Elisabeth, uma professora reformada em Hasselby Strand, um subúrbio de Estocolmo onde o partido de extrema-direita teve a mais alta percentagem de votos nas últimas eleições. “Não sou desumana. Não gosto de ver pessoas a sofrer. Mas as coisas estão difíceis. O meu filho não tem emprego”, interrompe a amiga, Anneli.

As origens do partido estão no fascismo sueco, mas o líder, que se apresenta de fato e gravata, como um jovem burocrata ou empresário, esforçou-se para limpar os DS dessas conotações, e aposta nas preocupações sociais para captar eleitores. Fez uma limpeza de imagem semelhante à que Marine Le Pen realizou em França com a Frente Nacional e, como ela, encoraja a desconfiança em todos os outros partidos. Fala muito em garantir as reformas dos mais velhos e uma boa educação aos mais novos — mas só para os suecos que não precisem de hífen para definir as suas origens.

“Nós somos o povo”
Na Alemanha, o nível de violência é bem maior — seja ela verbal ou real. As manifestações em Dresden do movimento Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente, vulgarmente conhecido como Pegida, são o ponto mais visível da ampla mobilização de extrema-direita que tem como uma das principais bandeiras a luta contra o islão na Europa (via imigrantes). O tema dos refugiados e a chanceler Angela Merkel tornaram-se os seus alvos, enquanto gritam “Nós somos o povo” — o slogan adoptado nos protestos na Alemanha de Leste no Outono de 1989, antes da queda do Muro de Berlim.

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que começou por ser eurocéptico, transformou-se antes de mais numa formação anti-imigração, com canais de comunicação com o Pegida, e está a subir nas sondagens. Há uma semana, a sondagem Emnid para o jornal Bild deu-lhe 9% das intenções de voto, quando nas últimas legislativas não conseguiu o mínimo para entrar no Parlamento. Na Alemanha de Leste, onde têm sido mais violentos os protestos contra os refugiados e imigrantes, chega até a 14%.

“O AfD é o único partido alemão que explora sem qualquer vergonha os preconceitos que parte da população tem em relação aos estrangeiros”, comentou no Bild o analista político Ultrich von Alemann. Responsabiliza Merkel pelo “caos no asilo”.

Mas muitas outras formações, pequenos partidos e publicações, actuam e alimentam tanto o AfD como o Pegida e, fornecendo-lhe o combustível para as manifestações e para o muito ódio contra os estrangeiros e refugiados destilado online e nas ruas. O blogue Politicamente Incorrecto é uma dessas fontes: o seu mentor, Michael Stürzenberg, é uma presença constante nas manifestações do Pegida, e líder do partido extremista A Liberdade.

Jürgen Elässer, membro da agora desaparecida Liga Comunista da Alemanha Federal, e ainda hoje pronto a perorar contra o imperialismo, adianta a revista Der Spiegel, é outra figura influente nestes circuitos, com a sua revista Compact, tal como Gotz Kubitschek, ou Björn Höcke, um líder regional do AfD com uma visão bastante próxima dos neo-nazis, diz a Spiegel.

Terror
Face a esta galáxia de extrema-direita, as autoridades alemãs estão a ter dificuldade em reagir – estes intelectuais da extrema-direita movem-se na ténue linha de fronteira entre a liberdade de expressão e o extremismo.

Os sinais de preocupação, no entanto, não param de aumentar. Múltiplos políticos têm recebido ameaças de agressão e morte, diz a Spiegel – e depois de Henriette Reker, a agora presidente da câmara de Colónia, ter sido esfaqueada durante a campanha eleitoral, porque se destacou no seu trabalho com os refugiados, as ameaças são levadas a sério.

Isto além dos múltiplos ataques contra centros de acolhimento de refugiados – incêndios, que parecem ser fogo-posto. Há já mais de 400 este ano, e suspeitas de que possa existir uma rede que os organiza. Há até um possível suspeito – um outro grupo de extrema-direita, a Terceira Via, que distribui uma brochura de 21 páginas, chamada “Nem um abrigo de refugiados no meu bairro”.

 A Alemanha tem experiência de terrorismo político, até mesmo neo-nazi, por isso estes riscos são encarados de forma realista. “Não há provas de que existam campanhas controladas de forma central”, diz o Ministério do Interior. Mas essa possibilidade continua a ser investigada, garante a Spiegel. “A continuidade e o número dos ataques só podem explicar-se assumindo que há estruturas organizadas”, afirma Fabian Virchow, da Unidade de Neonazismo da Universidade de Ciências Aplicadas em Dusseldorf.