As atenções voltam-se para um fugitivo e para Molenbeek, o “ninho de terroristas” de Bruxelas

Um dos mais complexos ataques terroristas na Europa foi orquestrado em Bruxelas, numa zona de pobreza, exclusão e radicalismo. Há um suspeito “perigoso” em fuga.

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A imagem de Salah Abdeslam divulgada neste domingo pela polícia francesa AFP/Polícia Nacional de França
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Molenbeek é uma das zonas mais pobres e populosas da Bélgica YVES HERMAN/REUTERS
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Há 40% de jovens desempregados em Molenbeek, onde são conhecidos muitos antigos combatentes jihadistas. Yves Herman/Reuters

A polícia francesa procura aquele que pode ter sido o oitavo homem nos atentados de sexta-feira em Paris. É Salah Abdeslam, “perigoso”, nas palavras das autoridades, francês nascido na Bélgica e irmão de outros dois homens envolvidos nos atentados. Os três viviam em Bruxelas. Um deles fez-se explodir na noite dos ataques e o outro foi detido na capital belga, com outras seis pessoas que se acredita estarem ligadas a um dos mais complexos ataques terroristas da história recente na Europa. Mantêm-se os 129 mortos, apesar de haver quase cem feridos em estado grave.

Antes de se saber que Salah estava em fuga, já se amontoavam suspeitas de que nem todos os atacantes de Paris estavam mortos. Na manhã deste domingo, a polícia francesa encontrou o segundo dos dois carros de matrícula belga que foram usados. Era o Seat preto que testemunhas diziam ter transportado os extremistas entre quatro cafés e restaurantes. Dentro do carro estavam três espingardas automáticas Kalashnikov. Estava estacionado fora da zona dos ataques.

Não está ainda confirmado que papel desempenhou Salah, de 26 anos, mas já há nomes para vários dos oito atacantes. Acredita-se que pelo menos dois tenham estado na Síria e em contacto com o autoproclamado Estado Islâmico, em nome de quem executaram os ataques. O primeiro é Omar Ismaïl Mostefaï, cidadão francês e já conhecido das autoridades desde sábado. O segundo é Bilal Hadfi, um dos bombistas suicidas do Estádio de França. A polícia francesa negou entretanto que o passaporte sírio encontrado junto ao corpo de um outro bombista e registado como refugiado na Grécia em Outubro pertencesse a qualquer atacante.

A ligação dos acontecimentos de sexta-feira à Bélgica está comprovada. “[O ataque] foi preparado no estrangeiro e mobilizou uma equipa localizada em território belga que pode ter beneficiado – a investigação vai dizer-nos mais – de cúmplices em França”, disse neste domingo o ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve.

As matrículas belgas já tinham voltado as atenções para o país vizinho. Mas o que a polícia francesa acabaria por encontrar no Volkswagen alugado por um irmão de Salah foi o mesmo que dar um salto de gigante na investigação: atirada despreocupadamente para o chão, estava uma multa de estacionamento amarrotada, registada em Molenbeek. A menção desta comuna de Bruxelas foi o suficiente para que o Governo francês começasse a encarar a mão do Estado Islâmico de forma mais séria e passasse a olhar para a Bélgica como o sítio onde seria mais provável terem sido orquestrados os atentados. Isto apesar de o New York Times escrever que houve algum contacto entre os jihadistas e combatentes do Estado Islâmico na Síria. 

Se os olhos da polícia estão por agora postos no fugitivo Salah, a investigação olha quase inteiramente para Molenbeek. Têm razões para o fazer. Esta comuna de 95 mil pessoas de Bruxelas está ligada a alguns dos mais importantes atentados terroristas na Europa da última década. Um dos principais líderes do atentado de 2004 em Madrid era de Molenbeek. Foi lá que Amedy Coulibaly comprou as armas que usou no ataque a um supermercado judeu em Paris. O mesmo aconteceu com o homem que tentou, sem sucesso, cometer um atentado no comboio de alta-velocidade que fazia a viagem de Bruxelas a Paris, em Agosto. E com o homem suspeito de ter matado quatro pessoas no museu judaico de Bruxelas.

Mas há mais na memória recente da Europa que se traça a este local. Poucos dias depois dos ataques ao supermercado judeu e ao jornal satírico Charlie Hebdo, as forças especiais belgas mataram dois suspeitos jihadistas em Verviers, numa altura em que estes estariam a preparar um “grande” ataque. Nasceram ambos em Molenbeek e pertenciam a um grupo que queria impor um Estado Islâmico na capital da Bélgica. Não foi por isso com dificuldade que a jornalista Dominique Demoulin, confrontada com o rasto de Bruxelas nos ataques a Paris, disse na rádio RTL aquilo que viria a ser repetido um pouco por toda a imprensa internacional. Molenbeek é um “ninho de terroristas”.

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Local, ou nacional?
Apesar da sentença de Demoulin e de todos os caminhos extremistas que vão dar a esta comuna de Bruxelas, há muito de semelhante entre Molenbeek e outros espaços residenciais na Bélgica ou até em França. Muito do que lá salta à vista como as causas da radicalização da sua comunidade muçulmana existe em outros locais da Europa. E com as mesmas consequências. 

Molenbeek é uma das zonas mais pobres e populosas no país. Há quase 100 mil habitantes em apenas seis quilómetros quadrados, o desemprego ronda os 30% em termos absolutos e 40% na população jovem. Um quarto dos habitantes desta comuna é árabe – resultado da grande vaga de imigração do Magrebe de língua francesa. Mas esta minoria enfrenta graves problemas de integração na sociedade belga. Bruxelas, tal como em França, proíbe o uso público de burka. Em 2012, quando uma mulher de Molenbeek foi detida por violar esta lei, a sede da polícia local foi atacada por um grupo de jovens muçulmanos.

A juventude desempregada e desintegrada é alvo fácil para o grande número de radicais islâmicos que se conhecem na comuna, muitos regressados de combaterem contra as forças ocidentais no Iraque. Muito do que se escreve sobre Molenbeek poderia atribuir-se ao subúrbio parisiense onde nasceram, viveram e se radicalizaram os irmãos Kouachi. Os jihadistas que atacaram a redacção do Charlie Hebdo e os “filhos perdidos da República”, nas palavras de um magistrado francês.

Apesar do panorama que se vive em Molenbeek, Mathieu Guidère, professor de estudos islâmicos na Universidade de Toulouse, afirma que esta comuna não é sequer a zona mais radicalizada do país. “Na Bélgica, temos 19 pontos de radicalização. Molenbeek nem sequer é o mais radicalizado, mas é o mais próximo de França”, explica, referindo-se ao facto de Bruxelas estar a poucas horas de carro de Paris. Menos de 90 minutos, se a viagem for em comboio de alta-velocidade.

Há problemas de segurança endémicos na Bélgica e em Molenbeek. O tráfico de armas, em primeiro lugar, é fácil. O país sempre foi um grande fabricante de armas e as autoridades belgas estão extremamente segmentadas, tal como os seus órgãos de decisão política – há seis departamentos da polícia e 19 presidentes de Câmara só em Bruxelas. Para além disto, o tráfico é facilitado por acção de extremistas bósnios que vieram da guerra na ex-Jugoslávia. No entanto, Guidère toca num ponto inevitável: os problemas específicos em Molenbeek não escondem uma verdade inconveniente que se aplica à Bélgica como país.

Não há na Europa, em termos proporcionais, país de onde mais pessoas saem para se juntarem ao Estado Islâmico na Síria ou Iraque. O Governo belga estima que 400 dos quase 11 milhões de habitantes belgas se tenham juntado ao grupo extremista. São praticamente 40 pessoas por cada milhão. Em França são 18 e, no Reino Unido, 9,5.  

Desilusão com o Ocidente
Veja-se a ordem de radicalização em Molenbeek e na Bélgica, segundo o que escreveram dois belgas especialistas em assuntos muçulmanos no New York Times, em 2014: Chams Eddine Zaougui e Pieter Van Ostaeyen. Segundo eles, a maioria dos cidadãos belgas que partem para a Síria ou Iraque não o faz inicialmente como “islamistas radicais”, mas como “idealistas”. “Alguns são apenas jovens irresponsáveis; outros são veteranos das guerras no Afeganistão, Somália, Bósnia ou Iraque.”

E acrescentam: “O que a maioria tem em comum, para além do seu desejo em ajudar o próximo da mesma fé, é uma desilusão com a atitude ocidental contra os muçulmanos. Na Bélgica, muitos muçulmanos opõem-se à proibição da burka – uma medida pesada, uma vez que apenas um punhado de mulheres usa o véu –, enquanto pouco se faz em relação às preocupações mais urgentes das minorias, como discriminação, desemprego e privação económica”.

Por enquanto, o que se alinha para Molenbeek é mais controlo e acção policial. Foi o que o primeiro-ministro belga e a presidente de Câmara da comuna pediram neste domingo e o que Jan Jambon, o ministro belga do Interior – um homem “duro, de direita e anti imigração”, nas palavras do diário israelita Haaretz –, prontamente se mostrou disposto a aprovar. “Vou limpar Molenbeek”, disse Jambon, “não podemos continuar a aceitar isto”.

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