Torne-se perito

O que acontece depois do final feliz

No intervalo dos romances, Michael Cunningham pegou em clássicos da literatura para crianças e deu-lhes uma humanidade contemporânea e negra. O resultado é um álbum ilustrado com histórias desencantadas e incómodas. Um Cisne Selvagem e Outros Contos e é também um livro político.

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Cunningham pega em fábulas e contos de fadas e projecta nesses textos que fazem parte do imaginário infantil, perplexidades e inquietações do homem adulto contemporâneo

Yuko abre o livro. Acabou de fazer um chá onde deitou leite frio e por momentos esquece a chávena na mesa onde espalhou folhas com desenhos a preto e branco. É como se desse uma aula. “Inspirei-me nos álbuns europeus e americanos de histórias infantis do século XX. São livros de contos de fadas, mas é curioso ver como as ilustrações são todas muito negras. Achei que aqui faziam sentido”, diz, folheando o livro que tem nas mãos, parando nas imagens e em cada pausa apontado para o respectivo desenho original. Convoca um imaginário reconhecível, o do nova-iorquino Maurice Sendac (1928-2012)  o seu famoso álbum Where The Wild Things Are, um clássico da literatura para crianças de 1963.

Yuko é de Tóquio, vive em Nova Iorque desde 1977, mas como todas as então crianças no Japão aprendeu a desenhar imitando a animação e a BD japonesa, sobretudo dos anos 80. “Sinto que essas influências vão para onde eu for”, diz num inglês carregado de sotaque, enquanto as imagens passam. Uma asa de cisne num corpo nu masculino, umas mãos nodosas num rosto que se desfaz, uma harpa em forma de um corpo contorcido de mulher… Dez ilustrações, uma para cada um dos contos do mais recente título de Michael Cunningham, Um Cisne Selvagem e Outros Contos, onde o escritor norte-americano reinterpreta e interpela clássicos da literatura para crianças dando-lhes um contexto actual e transformando os protagonistas em personagens contemporâneas que, sem perder a carga mágica original, ganham a fraqueza da humanidade. O livro foi publicado os Estados Unidos no dia 10 e tem edição portuguesa a 16. 

Passa pouco das quatro da tarde. As persianas estão abertas, mas a luz que entra não chega para prescindir lâmpadas. O atelier de Yuko Shimizu fica num quinto andar de um prédio ocupado por estúdios de artistas, na rua 36, em Manhattan, no chamado Fashion District, um bairro de lojas de roupa barata, acessórios de costura, bares escuros e um bric-a-brac comercial difícil de definir. Os edifícios altos formam ali uma sombra quase permanente que só se atenua aos fins de tarde de Verão, quando o sol tem tempo de se pôr a oeste, no Hudson, e a luz invade as ruas perpendiculares ao rio.

“Vi todos os desenhos das histórias originais em que o Michael se inspirou e tal como ele fez com os textos, eu também olhei para elas e não as desfiz, antes lhes dei um toque”, refere, enquanto mostra o desenho de uma imensa trança de cabelos num fundo negro. Noutro, um urso espreita num túnel de rosas. Papel e tinta preta, os desenhos e as palavras de Yuko Shimitizi e Michael Cunningham são ali feitos da mesma matéria. Não se conheciam pessoalmente antes deste livro. Ela conhecia-o dos romances que ele publicava, e ele quando viu ilustrações dela não teve dúvidas em a convidar para um livro que não é capaz de classificar no seu percurso de escritor. “Acho que só daqui a uns cinco ou seis anos vou perceber este momento”, diz, numa conversa numa tarde “quente demais para Novembro”, num dos cafés mais emblemáticos de Greenwich Village, onde vive. 

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Daniel Rocha

Não é um livro de ruptura. No romance anterior, A Rainha da Neve (Gradiva, 2014), Cunningham partiu do conto com o mesmo nome de Hans Christian Andersen para escrever uma ficção contemporânea situada em Nova Iorque, uma história de decadência e perdição de um homem, de um lugar e de um tempo. Nesta colecção, volta a pegar em fábulas e contos de fadas tradicionais e projecta nesses textos que fazem parte do imaginário infantil, perplexidades e inquietações do homem adulto contemporâneo. E o resultado não é menos negro.

“Acho que é uma progressão natural, de um material mais puro, de maior ilusão que faz parte do nossa identidade, feito de bruxas e fadas e demónios. Não somos isso, mas também somos isso e para mim foi natural partir daí. Não foi uma coisa planeada”, refere Michael Cunningham, fazendo a comparação entre o significado dessas histórias formadoras com o papel dos mitos noutras sociedades. “São referências a que não consigo escapar. Foi a partir dessas histórias que os meus pais me liam quando era muito pequeno que formulei as primeiras perguntas”, acrescenta o escritor que além de uma espécie de continuidade temática repete aqui uma fórmula que já testou com sucesso: partir de outros autores para a sua escrita muito pessoal, marcada por temas como a experiência da diferença, a morte, a dor e a decadência física e mental, a solidão na cidade, o amor frustrado. Além de Hans Christian Andersen, Cunningham já se inspirara directamente em Walt Whitman para escrever Dias Exemplares (2005) e antes em Virginia Woolf, quando criou As Horas, romance com que ganhou o Pulitzer para ficção em 1999. “Escrevem sobre coisas que me interessam de uma maneira que me interessa e fazem parte do modo como eu também vejo e penso o mundo. Naturalmente entram nos meus livros”, justifica como se de uma inevitabilidade.

E agora Michael Cunningham volta a Anderson mas também reinventa textos dos Irmãos Grimm ou de W. W. Jacobs para fazer perguntas como estas: porque é que a rapariga a quem foi pedido que transformasse palha em ouro tivesse como prémio casar com o rei? Porque haveria ela de querer casar com o homem que não tinha problema algum em mandá-la matar caso não fosse capaz de fazer o que ele lhe pedira? “Lembro-me de perguntar isso à minha mãe e de ela me responder, enquanto fumava a sua boquilha, que as pessoas dizem e escrevem coisas tontas. E também me lembro muito bem de querer saber o que acontecia depois daqueles finais felizes, como era esse estado de felicidade, como é que se vivia ali. Esse ‘e depois’ para mim era tudo”, conta, como se fosse aquele o momento activador de imaginação por excelência. “É a partir daí que começamos a pormo-nos no lugar do outro”, continua no que designa por princípio da empatia e que para Cunningham está sempre associado à grande literatura: “O New York Times publicou recentemente um estudo segundo o qual as pessoas que lêem ficção são geralmente mais empáticas do que quem não lêem. Acredito que a ficção é a melhor maneira de mostrar às pessoas o que é ser de outra maneira, a melhor maneira de sair delas próprias. Acho que é a função principal da ficção. Todos somos os heróis das nossas próprias historias, todos fazemos o melhor que podemos em circunstâncias que só nós conhecemos e muitas vezes fazemos coisas horríveis.” 

De um modo simplista, pode-se dizer que é depois disso, desse “e depois…”, que estas histórias começam, com o escritor a retomar alguns dos assuntos de que mais se tem ocupado na sua literatura. Como o da sociedade ante a diferença, a norma versus a excepção, o perfeito e o imperfeito. Logo no conto inicial, Um Cisne Selvagem, pergunta-se sobre que efeito uma asa em vez de um braço pode ter na vida de um príncipe, de que modo pode essa característica condenar alguém ao isolamento. A reinterpretação de A Pata do Macaco traz um dos textos mais trágicos deste volume, com o escritor a explorar o desespero de uns pais com a culpa que levou o filho a uma terrível condição. “Ainda que certas manifestações de perfeição possam ser aviltadas, desfiguradas ou obrigadas a percorrer a terra com sapatos de ferro, os restantes de nós darão por si a viver num mundo menos espinhoso; um mundo de expectativas mais razoáveis, no qual as designações de ‘beleza’ e ‘potência’ podem ser atribuídas a uma faixa mais vasta de mulheres e de homens. Um mundo onde o louvor não será acompanhado por uma predisposição implícita para menosprezar algumas qualidades não tão boas quanto isso, alguns pormenores abaixo do aceitável”, lê-se no texto que funciona como uma espécie de prefácio e que tem por título de Des.Encanto. Quando se acaba ou quando não há encanto, os demónios são os inerentes à condição humana que personagens sobrenaturais não conheciam. 

Sem moral e com ironia
Nestas adaptações, a trama existe e não é alterada, as personagens estão construídas e seguem o seu destino, mas agora questionam-se comportamentos, explora-se a intimidade, o texto ganha uma dimensão política, social e sexual; sai da pureza em que se moldou para se contaminar; o determinismo conferido pelo escritor que concebeu a história original em função de uma moral é agora — com esta nova escrita — substituído pela angústia de qualquer homem contemporâneo perante uma decisão. “Quando as personagens já lá estão deixam-nos outra liberdade para trabalhar sobre esse já existente e fazer perguntas mais directas”, sublinha Cunningham sobre o seu trabalho de escrita, e acrescentando: “Acho que no século XXI somos mais analíticos, mais preocupados com o que as nossas personagens pensam e porque fazem o que fazem.” Já não no sentido moralista. Se há sempre uma moral nos contos de fadas, aqui ela é desmontada e substituída pela ironia. “Ainda comparando tempos de escrita e no que à ficção diz respeito, somos hoje mais amorais — não imorais. O trabalho da grande ficção nos últimos cem anos é menos instrutivo quanto a dar conselhos sobre como viver vidas melhores. Eu não tenho nenhuma ideia de como se podem viver vidas melhores. Não é para isso nem por isso que escrevo. É sobre fazer perguntas e produzir diferentes abordagens, diferentes perspectivas.”

E não perde o ângulo da magia — a palavra é dele — no trabalho sobre os textos. Junta-lhe outras: encantamento, feitiço, visão, fantasia. “Não posso perder a minha crença no mundo inventivo, sorri. Vai ao início desta escrita. “Aconteceu em momentos em que não conseguia avançar com os romances”, conta. E fala da liberdade que este jogo lhe permitiu, misturando passado, presente e futuro e todos os espaços possíveis e adereços e crenças… “Há um sem tempo que permite tudo, mas isto tem de fazer sentido para mim e esse sentido está falar de coisas essenciais, questões contemporâneas”, como por exemplo não desligar a narrativa sobre a existência quotidiana da questão política, “de quem e como nos governa”, e faz uma crítica: “Muita da actual ficção americana está estranhamente sem política. Não acho que um livro deva ter ideias políticas, necessariamente, mas é estranho que uma literatura não fale disso ou fale muito pouco. Os dramas domésticos vividos pelas personagens parecem nada afectados por quem tem poder, quem dirige o país, corporações... Isso parece naif. Como se houvesse uma ilusão americana ou uma arrogância ou uma ideia de si que não fosse baseada na realidade.” Como se estivessem a contar contos de fadas? “Sim, isso, mas os contos de fadas são sobre coisas reais e não sobre a realidade transformada em contos de fadas.”